Opinião

As falcatruas em perícias médicas que estão ajudando a arrombar o INSS

diario da manha

Marcelo Caixeta Especial para  Opiniãopública

Na semana passada, como médico psiquiatra perito em processos contra o INSS, vivi três situações que resumem muito bem meus já 10 anos nesta atuação.
1)Um paciente, fulano de tal, com oligofrenia (deficiência mental congênita e severa) chega com uma petição feita pelo advogado. Dizia mais ou menos assim: “ O Sr. Fulano de Tal era um comerciante próspero, até 3 anos atrás, quando foi acometido de doença mental incapacitante, em situação aguda, Cid F72” (“retardo mental severo”).
O “Sr. Fulano de Tal” é tão deficiente que mal consegue falar e andar, tão grande é seu retardo mental. Sempre foi assim, desde que nasceu , aliás esta é a definição dos códigos “F70” da Classificação Internacional de Doenças: congênita. Ou seja, o documento da petição inicial muito provavelmente tenta uma fraude contra o governo, mas aparentemente nada acontece nestes casos.
2)A paciente “Fulana de Tal” chega falando como um bebê, simulando afasia após AVC. Tudo “comprovado” pela filha. Logo desmascaro e digo que é simulação. Não acontece nada no plano jurídico.
3)O Sr. Cicrano de Tal quer “aposentar” de todo jeito, ou pela coluna, ou por intoxicação com substância nuclear, dor de cabeça, alcoolismo, tabagismo, etc. Digo que não é o caso. A família dele, conhecida nossa, aliás que se diz muito evangélica, liga sem parar para nossa casa, “querendo que eu dê um jeitinho”. Digo que estou submetido a padrões técnicos rigorosos da Medicina e que não sou eu quem decido, que é o juiz. A família continua insistente, liga mais e mais, numa das vezes diz: “mas não são os juízes que prendem uns e livram outros, que as vezes cometem os mesmos crimes? Não foi isto que aconteceu no mensalão, também acontece agora no petrolão? Dá um jeitinho aí , vai… a gente sabe que vocês podem mudar a técnica… agora mesmo não tem político nenhum preso, só os empresários, tem muita gente solta, tudo porque a justiça não tem critério técnico, e sim político, a coisa não é técnica assim, é meio frouxa, é muito baseada no achismo”. “Por que você não faz o mesmo, todo mundo faz, e alivia nossa barra ?” Tentei dizer que meu trabalho não é baseado em achismo, e sim técnico. Tentei dizer que não sou eu quem detem o poder de julgar, sou só um funcionário. Mas tudo em vão, no final ficaram com raiva mesmo.
Ao mesmo tempo, estou respondendo judicial, também ético-profissional, porque disse que uma paciente estava simulando. Já fui em várias audiências; entre várias coisas (incompetência, parcialidade, negligência, imperícia, etc), o advogado e a paciente dizem que não sou equilibrado o bastante para fazer o trabalho que eu faço, pois na hora em que eu atendia a paciente da pericia, tive de sair correndo e conter, “na unha”, um paciente hospitalar que estava com faca, pedras e paus para matar quem se aproximasse dele. Tive de defender-me nesta grave situação de risco de vida com uma pá de jardineiro que me estava à mão e, por isto, a paciente e seu advogado alegam que eu não tinha equilíbrio emocional para fazer meu trabalho.
Ou seja, vejam bem onde quero chegar: eu, fazendo meu trabalho, sou julgado como truculento, autoritário, frio, orgulhoso. Já os “coitadinhos” aí acima, mesmo cometendo crimes contra a União, estelionato, fraude, informações incorretas, indução de erro, descaminho, estão completamente livres. Tanto é que, em grande parte das vezes ainda recorrem contra o perito e ganham. O “coitadismo”, “chavista-bolivariano” impera entre nós; eles podem tudo, podem rasgar a lei, tripudiar em cima da lei, dobrá-la, esticá-la, subvertê-la. Já eu, a “elite truculenta”, tenho de responder por meus atos mais comezinhos. Tudo porque sou “branco”, sou “rico”, sou “médico”, sou “elite”, sou “direita”, etc.
Além dos problemas éticos e políticos envolvidos nisto, há também um grave problema econômico, pois com esta brincadeira a previdência social cada vez afunda-se mais.

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra. Escreve as terças, sextas e
domingos)

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