Opinião

Atores de bar

diario da manha

Iron Junqueira ,Especial para Opinião Pública

Ah, se me lembro! Quem ficava sabendo disso? Somente os colegas de infortúnio. Só me recordo de que alta madrugada estava eu e mais dois ou três colegas, nos bares da cidade, com fome e, para divertir e comer chegávamos ao Moacir Carioca, proprietário da espelunca, e lhe dizíamos:

— Moacir: se fizermos uma apresentação teatral ou circense, aqui no seu bar, você nos paga com pastéis, aquele frango na grade e três garrafas de guaraná?

— Vocês não provocarão desordem, bagunça e nem briga por aqui? Indagava, preocupado. — De nossa parte, dou-lhe minha palavra! — Fechado! Concordou ele.

Reunimos os três colegas, o Wagner, o Altamiro e eu. Combinamos o seguinte:

— Vamos apresentar um número de hipnose? Vamos fingir que sou o hipnotizador e o Wagner o hipnotizado. Tudo o que eu falar você faça Wagner. Obedeça-me cegamente. Você é o melhor ator depois de mim. Ninguém pode rir, senão debocham de nós. Voltando a atenção ao Altamiro, acrescentei: nossa velha amizade vai lhe tornar o responsável para que tudo transcorra em ordem. Não deixe pessoa de o público interferir.

— Deixe comigo! Respondia o bom amigo, o mais velho da turma. Era companheiro para tudo, ele que nos iniciara nas noitadas, quando completamos dezoito anos.

Fomos começar o espetáculo. A espelunca do Bar do Carioca não tinha àquela hora da noite nem um bêbado ou um freguês solitário. Nem um cachorro magro espiando o frango amanhecido naquele aquecedor!

— O que fazer se não tem plateia? Foi a pergunta do Wagner, o melhor ator, depois de mim, claro…

— É a gente começar, Wagner… Tudo é assim. Vamos lá, sente-se nesta cadeira. O dono do Bar, Moacir – a nos espiar.

O jovem ator sentou-se numa cadeira, estava de terno cinza e gravata azul, usança da época. O Altamiro pôs-se de prontidão.

— Wagner — falei — atente-se: você vai me obedecer em tudo. Escute e obedeça apenas a minha voz. Ela será o seu comando e sua trajetória. Comece a isolar-se do mundo e ficar atento apenas à minha voz…

E fui falando, criando climas no ambiente, ora de frio, e cada vez mais intenso, e o Wagner começava com movimentos correlatos, tremia de frio, apertava o paletó, tremia o queixo, interpretava tão bem que a gente acreditava até na neve que eu dizia estar caindo ali; ora era vento, ora tempo bom, ora vendaval e ele parecia sentir a brisa batendo-lhe no rosto. O público chegando e ficando. Olhava aquelas cenas com seriedade, silêncio e surpresa.

— Agora Wagner, você sentirá um calor que vem chegando. Ele afrouxava a gravata, o colarinho, até tirar o paletó…

— O calor aumentando… Ele levantou-se, simulava estar bebendo água e obedecendo ao roteiro que minha voz criava. Não precisa tirar a roupa — dizia, sugestionando que ele podia vestir a camisa e enfrentar um urso que se aproximava e queria atacá-lo. Ele erguia os braços e ficava de prontidão. O urso levantou e se pôs do seu tamanho…

O Wagner travou uma luta com o animal fictício recebendo fantásticas patadas da fera no rosto, nas costas (onde eu inventava) e no resto. O “hipnotizado” rugia, urrava, rilhava os dentes e eu o coloquei a vencer o animal com uma trava de braço no pescoço do bicho apertando, apertando, até que o urso caiu, esmorecido… Você assentou na pedra, exaurido. E o rapaz sentou na cadeira, sempre observado pelo Altamiro, conforme o “roteirista” falava.

Pedi ao ator que vestisse a camisa, paletó e gravata. Acreditem se quiser, mas o ambiente do bar estava lotado. Tinha um caminhão parado no meio da rua com o motorista assistindo ao espetáculo da cabine. Uma voz da plateia, duvidosa, pediu:

— Quero ver você botar ele esticado com a cabeça numa cadeira e os pés em outra.

Pensei: preparar esse número eu posso, mas será que o Wagner conseguirá enrijecer o corpo e sustentar-se com a cabeça e os calcanhares sobre duas cadeiras? Vou descansá-lo um pouco e tentar convencê-lo de que fomos postos a teste.

— Wagner, desperte, volte! Fiquei meio preocupado porque o Wagner não abriu os olhos de imediato. Será que ele está fazendo cena? Wagner — falei, com firmeza — abra os olhos e me olhe. Ele os abriu, mas os manteve firmes nos meus, foi quando eu lhe disse:

— Fomos desafiados a fazer um número aqui, você está bem? Confirme. Se não, me dê um sinal. Ele, olhando-me, confirmou com leve meneio de cabeça.

Então pedi ao público escolhesse duas cadeiras boas, seguras, e comecei a comandar a plateia. Postas as cadeiras na posição certa, coloquei um cidadão para firmar a cadeira pelo assento e o outro a segunda, do mesmo modo. A plateia me obedecia a sério, sisuda, atenta, acreditando em tudo, tamanha era a obediência a todos os meus pedidos.

— Fiz com que o “paciente” se enrijecesse todo, batendo suavemente nas suas canelas e dizendo: estão ficando firmes como as rochas, e todo o seu dorso, e os seus braços e o tronco, pronto! Você é forte qual uma rocha, nada o fragilizará nada o impedirá de ser firme como uma grande pedra.

E assim ele se pôs. Ordenei a três homens ali do ambiente a segurá-lo como se fosse uma estátua. O homem que o pegou pelos ombros, nas costas, disse:

— Mas, moço… Esse rapaz está pesado como uma “estáutua”! Eu sozinho aqui nas costas, não dá…

Alguém da plateia, me olhou fiz sinal para que ele o ajudasse a segurar o “sujeito”! Dois cidadãos o pegaram pelos ombros e dois na cintura e o puseram na horizontal.

— Agora, coloquem-no com os calcanhares na cadeira e a cabeça na outra. Menino do céu! E o fizeram e eu atento às feições do Wagner hirto, em profundo silêncio, porém, qualquer mínimo gesto de dor ou contrariedade, dele, eu interromperia o ato. Mas não, o talento do Wagner se consolidava. Olhei para o Altamiro e ele me olhou. Estávamos ambos, preocupados. Será que o Wagner é mesmo capaz daquilo? “Não posso demorar com esse ato, senão, o colega se cansa…” — pensei. Mas quando eu ia pedir à “estáutua” que ficasse calmo, pois iria tirá-lo daquela posição, uma voz na multidão disse:

— Será que posso botar a ponta do cigarro no braço dele?

Tranquilo, menti e justifiquei:

— Aí não! Isso é crime! Queimar o “sujeito” enquanto ele está inconsciente, seria como ferir alguém que dormisse. Até porque se você fizesse isso, poderia ocorrer de ele nada sentir e tudo tolerar. Mas quando ele despertasse e perguntasse por que o seu braço estava queimado, o que o senhor diria? Daria cadeia na hora! Fique quietinho e caladinho, por que o mágico aqui sou eu.

O público não fez rumores.

— Tem jeito de a gente colocar uma criança sobre a barriga dele sem que ele se emborque? Foi outra pergunta que tive que responder:

— Claro! Mais que uma criança! O senhor mesmo! Ele está submetido a tal condição de força que se colocasse um peso equivalente a um homem sobre seu ventre, facilmente ele suportaria, porque uma rocha suporta até o peso de nós todos. Vamos considerar, porém, as consequências futuras do seu corpo. Digamos que amanhã, pelo esforço a que seu físico fora submetido, ele não viesse a sentir as sequelas? Um osso trincado, na coluna vertebral com problemas, tudo por conta de um capricho momentâneo nosso! Vamos evitar exagero! Afinal estamos aqui, simplesmente, numa brincadeira, ninguém pagou ingresso nem consumiu no Bar do Moacir. Sejam mais sensatos e prudentes.

A plateia se manteve em silêncio e nos espiava com profundo respeito como se fosse eu um mágico ou hipnotizador de verdade.

Pedi aos senhores que o tirassem daquela posição, o que, vários, o fizeram, segurando-o pelo corpo e retirando as cadeiras. Novamente de pé, falei ao amigo “hipnotizado”:

— Wagner, relaxe-se! Como dizem, em forma de facão, fui quebrantando seus braços e ordenando-o a ficar tranquilo e relaxado (o que você nunca deixou de ser — brinquei). Agora, normal, abra os olhos e sente-se, descanse…

Fui atendido. O Altamiro não fechava a boca, seu queixo caíra e seus olhos não piscavam…

— Wagner, está bem? Indageuei. Ele apenas confirmou com a cabeça. Não me dei por satisfeito.

— Quero saber se você está bem, falando!

— Sim! Estou bem… O que houve? Que tanta gente é essa?

Atribuí suas indagações ao tempo em que fechara os olhos e não vira o quanto o bar estava repleto de gente. E disse-lhe:

— Vamos pra nossa mesa, tomar lanche: pastel, guaraná e frango assado.

O pessoal o cercava e a mim também. Perguntava a ele monte de coisas. E a mim, idem. Eu respondia com esnobação, contava vantagens, inventei supostos poderes, e mais isto e mais aquilo. Até exagerei.

— Por exemplo, essa força de rocha que lhe coloquei, posso reativá-la em mim, nele e no Altamiro e vencer vocês todos, aqui, com cadeiradas!

— Mesmo?

— Claro! Você não viu o que fiz?  Então, não provoque…

O Altamiro ao meu lado fazendo escolta como a um segurança. E ele era o melhor de briga porque usava uma faca de açougueiro amarrada na perna esquerda debaixo da calça. O Wagner sob a admiração das pessoas que o achavam fenomenal. Foi quando o Altamiro me disse:

— Iron, o Wagner está no meio daquela gente, mentindo muito mais que você…

— Ora, Altamiro! Exclamei – agora nós é que vamos blefar a plateia. Deixe-o…

— Mas ele, tornou o baixinho Altamiro — está inventando demais… Diz, até, que voou… — e eu, ao Altamiro:

— Lembra-se na hora da “hipnose”, se eu o mandei voar?

— Sim, disse o bravo amigo, hoje nos céus – foi quando você o mandou voar até o Himalaia e se aproximasse da boca do vulcão…

— Ah, me lembro, disse eu ao amigo baixo e troncudo.

— Pois é… Depois você o mandou voar de volta…

— Foi?  — Sim. Confirma o amigo.  — Mas, Altamiro, será que no Himalaia tem vulcão?

— Sei não… Você quem o mandou ir lá…

— Bom. Deixe-o colher o fruto do seu talento…

— Perguntaram-lhe se era bom voar. Ele disse que era tão bom quanto ser uma águia.

Depois que se desocupou do público, Wagner veio para a nossa mesa, onde o Moacir pusera o lanche adrede combinado…

Foi nesse clima, agora de descontração e glória em que os pasteis mitigavam nossa fome, que o Wagner nos assustou, com sua pergunta:

— Iron, como você fez isso?

— Isso, o que, Wagner?

— Fez-me voar, ver montanhas e rios e oceanos lá de cima?

— Epa! Eu, Wagner?

— Sim, o que você falava eu vivia.

— Está brincando, Wagner?

— Não. E o pessoal do bar disse que você me botou de horizontal sobre duas cadeiras, me fez dançar, me mostrou o universo lindo com as estrelas bem perto…

Como foi que você fez isso?

Praaaaah! Um barulho feio. Era o Altamiro que, diante da fala do Wagner, desmaiara. Jogaram água no rosto dele, enquanto o Wagner e eu conversávamos:

— Wagner, então você ficou mesmo hipnotizado?

— Fiquei, mas! Você quem mandou! E eu, perplexo;

— E quem o hipnotizara, Wagner?

Acreditem se quiser.

 

(Iron Junqueira, escritor)

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