Opinião

Continência: saudação regulamentar entre militares

diario da manha

Orimar de Bastos ,Especial para Opinião Pública

Sabe, prezadíssimo cara-pálida, nestas minhas andanças por este nosso Goiás, a gente fica sabendo de cada coisa que necessita ser registrada. Assim é que, em uma de minhas estadas em uma das cidades do interior, justamente a cidade de Jussara, fiquei sabendo de um acontecimento inusitado e, por tal, necessito contá-lo.

O negócio foi o seguinte:

Naquela cidade, pelos idos de 70 ou 80, existia naquela comuna um militar, justamente um cabo, de nome Nilton Cezar (nome pomposo), que era o esteio de todos os habitantes. Ele era o professor de educação física dos alunos dos colégios ali existentes, movimentava a cidade em todos os acontecimentos cívicos e religiosos, sempre com muita eficiência e presteza.

Nas comemorações da Semana da Pátria, procurava esmerar no treinamento dos “meninos” para o desfile do 7 de setembro, exigindo o máximo da garotada para que o desfile fosse o melhor possível. Chegava a ser até chata as exigências nos treinamentos.

Pois bem, naquele 7 de setembro, a cidade iria efetivar uma comemoração extra, com algumas inaugurações e o desfile tinha que sair mais do que a contento. Daí que os treinos foram bastante “puxados”, chegando a meninada a ficar com “calos” nos pés de tanto treinamento.

É que naquela data estaria presente o governador, alguns deputados e alguns “chefes” da Polícia Militar, dentre eles o coronel e um major. Daí a exigência do nosso cabo Cezar.

Pois bem, iniciado o desfile, com os alunos marchando garbosamente e o nosso “instrutor” ao lado dos mesmos, com uma euforia daquelas, tal a eficiência dos meninos nas marchas com os pés certinhos, sem errar nenhum toque.

E ele garboso, antegozando seu sucesso.

Até que, antes de finalizar o desfile, passa perto do palanque oficial das autoridades um homem vestido discretamente, afro-descendente, e o nosso indigitado cabo, de imediato, perfila-se e “bate continência ao mesmo. De imediato, os outros militares que estavam no palanque, acreditando que tratava-se de uma autoridade local, também levantaram-se e, perfilados, “bateram” continência àquele que seria uma “autoridade”. E o senhor passou, indo alojar-se no palanque.

O desfile passou, havendo ainda alguns discursos das autoridades presentes, dentre eles o deputado estadual representante do município, o sr. prefeito e,  finalmente,  o governador.

Acabada as solenidades, o coronel, todo macambuzio, desceu do palanque, aproximou-se do cabo Cezar, inquirindo-lhe com certa arrogância do cargo.

– Cabo, quem é aquele afrodescendente que você prestou continência e nós todos assim o fizemos. Não o conheço. Que autoridade ele é?

No que o cabo mais do que depressa respondeu:

_ Ora coronel, é o vereador Justiniano, do PSD, líder do prefeito da Câmara, muito respeitado aqui em Jussara.

Para encurtar a conversa, meus caras-pálidas, o coronel chamou o cabo de lado, passou-lhe um carraspão, avisando-lhe que observasse bem as autoridades para prestar continência, pois esta é uma saudação entre militares e civil, e, dependendo de cargo, não se presta a receber tal manifestação qualquer um do povo, muito menos um relés vereador e ainda mais daquela cor.

Só sei informar, meus caríssimos, o cabo baixou seu topete e nunca mais foi visto efetivando qualquer movimento de parada de 7 de setembro naquela cidade.

 

(Orimar de Bastos, juiz de Direito aposentado, advogado militante em Caldas Novas, membro da Academia Tocantinense de Letras, ocupante da Cadeira n° 33 e membro da Academia de Letras e Artes de Piracanjuba-GO e Cidadão Calda-novense. E-mail:  [email protected])

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