Opinião

De como Midas, rei da Frígia, tomou uma boa lição

diario da manha

Pedro Nolasco, Especial para Diário da Manhã

Era o rei Midas um ser mestiço: porque filho da deusa Cibele e de um reles mortal. Muito amigo do luxo, da pompa, da fartura, tinha fascínio pelas gemas preciosas, o faiscar do ouro e pela mesa farta. Desprezava o ditado popular “nem tudo que reluz é ouro”. Porque, em tudo que reluzia, só via certamente ouro e o brilho dos rubís. E vivia a reluzir de riqueza e fausto.

Uma vez, certos camponeses levaram à presença de Midas um sujeito bêbado que havia sido encontrado nas montanhas. Como o ébrio estava muito agitado e violento, os camponeses decidiram acorrentá-lo. Sabem todos, muito bem, que todo aquele, sob efeito do álcool, assume facilmente ares de valentia e bravata. Midas todavia reconheceu imediatamente quem era aquele pândego lá. Tratava-se do deus Sileno, pai de criação de Baco, e grande companhia de farras do deus do vinho. O rei imediatamente libertou-o das amarras ou correntes e o conduziu, sob as honras que a condição de deus Sileno bem merecia, à presença do filho de criação, Baco. Muito feliz pela honraria dispensada ao pai dele, o deus do vinho, Baco, resolveu recompensar Midas, se propondo a satisfazer o que o rei da Frígia pedisse.

“Já que tu dispões assim, ó alta magnificência, desejo que tudo que eu toque se transforme rapidamente em ouro.” solicitou Midas.

Notando nele tal ganância ou cupidez, embora gentil com Sileno, Baco retrucou:

“Não seja por isso, ó filho de Cibele, teu desejo será cumprido agora!” acudiu Baco, proferindo a sua vontade mágica e já pressentindo o que estava por vir.

Ora, reconhecia Baco, sempre se revela um problema quando os imortais se envolvem com os mortais. Não obstante Midas tivesse nascido do ventre da deusa Cibele, havia sempre o risco de complicações, se o nível de entendimento mais alto se envolve com o nível mais baixo.

Midas tocou então em suas vestes e elas rapidamente se transformaram em vestes de ouro. Em seguida, entrou pelo pomar do seu palácio e passou a tocar em tudo e tudo se convertendo fatal e definitivamente em ouro. Tocou nas árvores e elas logo se transformaram em árvores de ouro. Tocou na relva e ela virou relva de ouro. Entrou depois pela estrebaria afora e entrou a tocar e a transformar a todos aqueles animais lá em animais dourados. Os cavalos refulgiam que até cegava!

Era ouro que não findava mais não!

E Midas não se continha mais de tanta alegria e entusiasmo. Até aí tudo correu como ele queria, às mil maravilhas.

Até que ele sentiu fome. Eis que Midas sentou-se à mesa fartamente servida. Mas, quando foi tocar avidamente num cervo assado, já quase salivando e o estômago roncando, aquela guloseima lá se transfomou em ouro. E não teve como matar a fome.

Sentiu sede e quando foi tocar na água a água se converteu magicamente em ouro. Ouro em pó, a bem dizer, a refulgir dentro da taça de cristal. O mesmo sucedeu com o vinho. E não teve como saciar a sede.

Era ouro que não findava mais não!

Pra que tanto ouro, ó sublime Baco?

Já quase Midas morria de fome e sede quando pediu desesperadamente ao deus do vinho que acabasse com aquele suplício.

“Ah, sublime divindade do vinho, fiques ciente de que o dom a mim concedido por ti, consistente em transformar todas as coisas em ouro ao menor contato dos meus dedos, vai a mim se afigurando agora mais propriamente uma verdadeira desgraça do que uma divina graça, porque se tudo vou certamente dourando e enriquecendo à menor pressão das minhas mãos, por outro lado padeço já de fome e sede, como tu vês. Daí tomo a liberdade de pedir veementemente a Vossa Magnificência que tal encantamento cesse por inteiro, antes que morra de vez, nesta agrura, sem água e sem pão.” Falou o rei da Frígia. “De que me adianta a mim ser cada vez mais rico e influente, se não tenho como satisfazer as necessidades mais singelas, melhor, se não tenho como saciar a sede nem matar a fome. Sei agora que nem tudo que satisfaz o homem vem da pompa, do fausto. Muitas vezes vem da alma”.

Pensando que Midas tinha aprendido uma boa lição, Baco aceitou dizendo:

“Aceito as tuas razões, rei Midas. Nasce e corre, no alto do monte Tmolus, na Turquia, um volumoso curso d’água chamado Pactolo que, depois de juntar suas águas às águas ao rio Gediz, vai desaguar placidamente no mar Egeu. Pois bem, para que possas se ver livre do meu poder mágico, tu deves se banhar fartamente nas águas milagrosas dele.”

Foi desde então, após se lavar nas águas sãs do rio Pactolo, que Midas perdeu o prodígio de transformar o quer que fosse em ouro. Melhor do que Midas procedera depois o rei Salomão, que, ao invés de pedir riqueza, pediu sabedoria ao Deus Todo Poderoso.

 

(Pedro Nolasco de Araujo, bacharel em Direito, especialista em Direito Constitucional)

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