Opinião

Futebol globalizado

diario da manha

Altemir Luiz Dalpiaz,Especial para Opinião Pública

O que está por trás dos olhares, caras e bicos de Cristiano Ronaldo quando ele se

vê nos telões dos estádios (ou arenas) explica em parte a globalização no futebol.

Movido por interesses financeiros e conduzido pela Fifa, o futebol está se tornando um dos grandes símbolos que representam a globalização em seus aspectos massacrantes de domínio interterritorial, de interferência na soberania de nações, de discrepâncias econômicas, de produção de ídolos efêmeros e descartáveis, da ditadura do consumismo e dos espetáculos midiáticos de curta duração, que infelizmente, se perpetuam em repetições quase doutrinadoras. Vou, a partir de agora, enumerar e explicar os itens citados.

O domínio interterritorial da Fifa se dá quando ela não permite que nenhum de seus afiliados diretos ou indiretos entre com ações na justiça comum para resolver pendengas e questões judiciais. Esse domínio interterritorial se dá também junto com a quebra das soberanias de países, quando a Fifa “organiza” eventos em seus territórios. Para isso, basta nos lembrarmos da “permissão” que permitiu comércio de bebidas alcoólicas nos locais dos eventos (antes proibida), quando o Brasil foi “escolhido” pela Fifa para sediar a Copa do Mundo de 2014. A entidade também  exigiu obras nas cidades, remoções de alguns comércios próximos aos jogos e obrigou a remodelagem de nossos estádios de futebol. Ferindo mais ainda nossa autonomia, “cortou” parte da execução do Hino Nacional antes dos jogos. Foi criado inclusive um padrão, para designar que algo tinha qualidade, o Padrão Fifa. É claro que quem aceitou isso, já sabia dessas regras. Pois, bem, a Fifa pode fazer isso porque tem poder e representatividade com mais países filiados a ela do que a própria ONU.

No aspecto financeiro, a discrepância econômica está exemplificada na elitização do nosso futebol como espetáculo. O fim dos torcedores em pé nos estádios, de faixas, de sinalizadores e a elevação dos valores dos ingressos, ao mesmo tempo em que limpa os estádios, dificulta o acesso de quem realmente vive o futebol. Por outro lado, no Brasil, a proliferação de torcidas organizadas, onde em algumas delas se ajuntam homens violentos e briguentos, ajuda a espalhar assentos vazios nas arenas. Muitos grandes clubes não se preocupam com isso, pois o grosso de suas arrecadações vem das cotas da transmissão de jogos pela televisão e da venda dos passes de seus jogadores, antes mesmo de completarem vinte anos de idade.

Na outra ponta estão os “artistas” da bola. Os ídolos de sucesso efêmeros e descartáveis, que pertencem a ditadura do consumismo e dos espetáculos midiáticos de curta duração A maioria com a adolescência tolhida pelo sonho de ser jogador de futebol, se robotizam em gestos e ações, pois agora o que importa é desempenhar bem seu papel de superstar. Cortes de cabelos padronizados, olhares para telões onde cada gesto é previamente pensado. Eles sabem das câmeras à espera de uma expressão triste, alegre, de um palavrão. Mesmo assim os cuspes são disparados em campo pelos jogadores de futebol, talvez como um resquício cultural de uma tradição que enaltece o machismo. Eles precisam estar em sintonia com a torcida e expressar o que essa torcida espera deles, além das vitórias: o sofrimento quando perdem, a alegria nas vitórias, mesmo que à noite, após os jogos, muitos deles se encontrem às escondidas em alguma boate privada para juntos curtirem o que os treinamentos lhes tiram.

Tudo isso e mais um pouco está tornando o futebol algo que muito bem representa a globalização. Enquanto que no Brasil, entre os jogadores de futebol profissional menos de 3% recebem mais que dois salários mínimos por mês, a ideia que se criou é a de que o futebol é uma das portas redentoras a todos os outros “azares” da vida. Uma enorme geração sem estudo, ou com pouco estudo, prefere acreditar nas imagens da televisão onde o futebol é o paraíso da boa vida e da fama.

Nossas crianças e adolescentes estão cada vez mais se identificando com seus ídolos da Champion League e torcendo por times de países estrangeiros formados com jogadores de outros países, em uma interterritorialização clara do futebol. Ocorre que os ídolos das crianças de hoje, são diferentes dos meus ídolos, por exemplo. Lembro da escalação do meu time campeão brasileiro na década de 1980 e depois na década de 1990. Os jogadores ficavam anos na mesma equipe. Hoje nossos “craques” flutuam entre clubes tendo como objetivo final não mais a Seleção Brasileira, mas sim disputar um campeonato europeu.

O torcedor de seleção, que surge de quatro em quatro anos, ama seu País na mesma intensidade em que ele vence seus adversários. Basta uma eliminação de Copa do Mundo para rasgar a bandeirinha que carrega em seu carro. Esquecendo que o futebol é imprevisível e que goleadas acontecem também para os adversários. De igual forma, não sabemos ainda que vencer no futebol não é tudo e que isso pouco muda a pobreza ou riqueza de um País, pelo contrário. A Copa de 1970 nos desviou da tortura dos porões da ditadura, assim, como a Islândia, o Canadá e a Suíça nunca empobreceram porque suas seleções deixaram de ser campeãs mundiais.

Todos os produtos que usam o futebol para atingir seu público consumidor sabem que a globalização afinou as relações mercantis onde homens têm seus preços conforme a capacidade que possuem de vender seus produtos. Quando as fabricantes de materiais esportivos criaram camisetas apertadas e coladas aos corpos dos jogadores de futebol, sabiam que é esse o tipo de corpo que muitos buscam desesperadamente em academias, no mundo todo. Quando um astro do futebol se barbeia em um comercial de televisão, esses fabricantes sabem que muitos vão agir assim em suas casas, no mundo todo.

Por fim, sinto saudades do futebol no campo encharcado, do carrinho na bola, do torcedor da geral, do papel picado. Temo que o futebol se transforme em um esporte disputado em tapetes sintéticos, com jogadores robotizados, em arenas sem torcedores e jogadores sem vida própria, sem espontaneidade e sendo transmitido para todo o mundo globalizado, de forma padronizada. Padrão Fifa.

 

(Altemir Luiz Dalpiaz, professor, graduado em Educação Física, mestre e doutorando em Educação)

 

 

 

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