Opinião

Midiatização da sociedade moderna

Gustavo Marinho Especial para  Opiniãopública

O desenvolvimento da mídia ao longo dos anos resultou em novas formas de ação/interação. Nesse momento, a instantaneidade é rotina num processo em que a opinião dos indivíduos não é mais totalmente descartada pelos meios de comunicação. Há uma audiência imprescindível, capaz de refletir sobre diversos tipos de conteúdo. Ao discutir esses assuntos, não é possível fugir de como a expansão da mídia contribui com a consolidação de um novo estilo de política e/ou para o exercício da democracia. De fato, surgem modos diferentes no relacionamento entre as pessoas e a ideia de poder também nunca foi tão visível como atualmente. Esses e outros assuntos são abordados no livro A Mídia e a Modernidade – Uma Teoria Social da Mídia (Vozes: tradução de Wagner de Oliveira Brandão, 1999, 2ª ed., 247 páginas), do professor da Universidade de Cambridge, John B. Thompson.
Os processos de comunicação, desde a produção, o armazenamento e a circulação, concomitantemente, passaram por mudanças significativas. O mundo moderno chegou e, com ele, novas estruturas. A ideologia do atual mercado jornalístico é pautada pela notoriedade e velocidade das mensagens. A mídia – como nos lembra o sociólogo americano – influencia principalmente no pensamento político e social das pessoas. Ela sugere assuntos e, muitas vezes, divulga informações inverídicas, no intuito de manipular ou persuadir a audiência em favor de interesses próprios e comerciais. Infelizmente, há veículos de comunicação que não se preocupam com a credibilidade tão pouco em colaborar com a capacitação das pessoas, oferecendo recursos suficientes para a construção de uma opinião séria e ética. O capitalismo é virtual e atual, isto é, existe e acontece simultaneamente. O jogo de interesses (lucro imediato) não é carta fora do baralho para a mídia.
O poder não é um ‘luxo’ exclusivo dos mais privilegiados; ele está em todas as ações humanas, propiciando atitudes e aferindo as consequências, independentemente de classe. O Estado, como pondera Thompson, se transformou num importante centro de concentração de poder. A capacidade de alcançar objetivos é característica notável tanto nos governos como na imprensa de forma praticamente generalizada. A influência dos poderes econômico (financeiro), político (autoridade), coercitivo (força física) e simbólico (meios de comunicação) também foram exemplificados pelo autor. Apesar de a obra ter sido publicada pela primeira vez em 1995 e a 2ª edição quatro anos mais tarde, norteia bem o atual contexto em que vivemos, especialmente quando agimos e interagimos à distância. A internet, por exemplo, mudou conceitos e possibilitou organizar/controlar o espaço e o tempo. Se a usamos de forma imprudente, perdemos a oportunidade de conhecer novos métodos e de enriquecer culturalmente.
Thompson afirma que a comunicação de massa gere um tipo de cultura do entretenimento, que diverte sem desafiar e prende a atenção sem ocupar as faculdades críticas. Porém, é bom ressaltarmos que a recepção não é mais um mecanismo acrítico. Aos poucos, o cenário midiático começa a mudar. E as pesquisas (mercadológica/satisfação) são importantes nesse meio social.
Agora, de fato as telecomunicações alteraram a noção de distanciamento espacial. Como mencionamos, a internet tem contribuído nesse sentido, encurtando caminhos e aproximando indivíduos fisicamente distantes. O tempo na sociedade moderna é cada vez mais curto e exigente. A monotonia do trabalho diário pode ser alterada em prol de alguma atividade extra ou para acompanhar o que a mídia tem destacado (Teoria Funcionalista: motivar o trabalho/consumo, mas quebrar a tensão quando ela for pesada). Em algumas ocasiões, os produtos da mídia organizam o horário de seus receptores, ditando quando devem desenvolver determinadas tarefas. A compreensão desses produtos pode variar bastante, especialmente de um contexto sócio-cultural para outro. As mensagens têm significados complexos e vai depender do conhecimento de cada indivíduo à aplicabilidade das informações.
A obra de Thompson também contextualiza o processo histórico dos meios de comunicação, incluindo a cooperação ímpar de Gutenberg (1440). As indústrias da mídia e a mudança da escrita para a impressão são fatores essenciais na organização social do poder simbólico. O uso da energia elétrica na comunicação em meados do século XIX e o desenvolvimento dos sistemas de transmissão radiofônica foram pontuados detalhadamente pelo sociólogo americano.
O sistema digital substituiu mecanismos limitados e abriu espaço para uma reflexão mais pertinente dos estudos de comunicação social. Além da interação face a face (pessoas que partilham do mesmo espaço), destacamos a mediada, onde há o uso do meio técnico (fios elétricos, por exemplo) e a quase-interação mediada, que são as relações estabelecidas pelos meios de comunicação. Indivíduos alternam-se nesses processos comunicativos, embora a maioria busque conteúdo simbólico por meio de fontes que não sejam pessoas com as quais convivem diariamente. A mídia se preocupa em controlar as publicações e não torná-las objetos de desprezo. Mesmo com o poder de determinar uma representação ou de lançar conteúdo, os receptores são peças-chaves para que a indústria midiática continue existindo.
Durante a obra, o autor reflete sobre quatro formas de ação à distância: destino receptor, cotidiano mediado, eventos mediados e ação ficcional. Cada uma com destaque minucioso, mas todas planejadas cuidadosamente pela mídia, com o escopo de segurar audiência e promover aspectos emocionais. Na elaboração discursiva, as mensagens são criticadas/elogiadas pelos espectadores que, ao mesmo tempo, se fortalecem para o debate com outros indivíduos. Há uma audiência adicional (secundária), em que muitas pessoas só ficam sabendo de um fato através da interação face a face com os receptores principais, isto é, através de quem acompanhou, pela mídia, a informação na íntegra.
Outro fator importante quando tratamos de comunicação é a capacidade de coordenar a resposta do receptor. O uso de risos e aplausos pré-gravados, principalmente em programas de humor, não é novidade para ninguém. Acredito que seja uma estratégia manipuladora. É um tema amplo e divide opiniões, todavia, vale ressaltarmos que esse tipo de série não gera credibilidade, muito menos corrobora com o fortalecimento de produtos de qualidade.
Thompson é categórico ao afirmar que, graças à mídia, políticos deixaram de ser ‘invisíveis’. O público (Estado), o privado (organizações com fins lucrativos) e as instituições de beneficência (ex.: ONGs) foram retratados coerentemente na obra. A questão da visibilidade facilitou a vida de muitos cidadãos eleitores (embora alguns prefiram fechar os olhos diante da corrupção). Mas, mesmo com os avanços da tecnologia e do novo tipo de publicidade mediada, nem tudo ainda está disponível para a população. Apesar das investigações, o lado escuro e oculto da política, infelizmente, permanece intacto.
É justo concordamos que o desenvolvimento dos meios de comunicação mudou as regras da administração de visibilidade. Independentemente da vontade, os governantes devem se preocupar com as apresentações – a imagem, especificamente falando. Pois, a imprensa não só proporciona alcance para celebrar as ações, mas também é capaz de destruir e difamar o governo.
Nesta crítica à obra do professor Thompson não podemos deixar de mencionar sobre a globalização. A reordenação do espaço e tempo provocada pela mídia modificou as formas de interação. A concentração do poder econômico teve papel fundamental no processo e agências de notícias internacionais, como AP, Reuters e AFP, também contribuíram para a formação das redes de comunicação global.
Na globalização, muitos programas são veiculados internacionalmente. Brasil e México, por exemplo, são importantes produtores/exportadores de programas de televisão para outras partes da América Latina. Citemos, no caso do Brasil, as novelas da Rede Globo, que extrapolam o continente.
Assim como os meios de comunicação podem influenciar literalmente na política, nas tradições não é muito diferente. Teoricamente não sabemos o que é conviver numa sociedade tradicional, onde cada comunidade vive isolada. Somos modernos, o que caracteriza um grau de flexibilidade e mobilidade. A mídia consegue perfeitamente enfraquecer valores e crenças tradicionais, mas também é capaz de expandi-los e consolidá-los. Ela reinventa as maneiras de se relacionar, mas, em contrapartida, dita regras involuntárias e é rígida quanto aos seus interesses privados.
O professor da Universidade de Cambridge destaca outro ponto pertinente: a enorme variedade de mensagens que sobrecarregam o indivíduo. É verdade que isso tem um efeito desorientador e prejudicial. Esse ‘sobrecarregamento’ faz com que as pessoas mantenham relações não recíprocas com atores da mídia. A ideia de fã, quase sempre, é encarada como delírio. É claro que existem admiradores que não estão sujeitos à dependência compulsiva.
O desenvolvimento da mídia na sociedade moderna também demonstra o quanto os receptores mudaram. Mesmo que Thompson afirme que os espectadores não são participantes de um diálogo com a mídia, é cabível observarmos que as coisas mudaram (pelo menos um pouco). A capacidade de resposta dos ouvintes pode ser diferente, mas a oportunidade de interferir/cooperar com o conteúdo jornalístico nunca foi tão explícita. De fato, alguns meios de comunicação manipulam e oprimem a liberdade de expressão, todavia, não podemos generalizar e menosprezar a opinião do receptor. Até porque existem boas iniciativas, principalmente em sites de notícias e jornais. Também é bom lembrar que, com as redes sociais, mais do que nunca, os indivíduos ganharam voz e agora organizam manifestações pela internet.
Thompson também sugere uma renovação da política democrática. Para o autor, o atual modelo não tem êxito e muito menos resolve os problemas da idade moderna. Partindo desse ponto, ele recomenda a ‘democracia deliberativa’, retratando o indivíduo como agente autônomo, apto para formar juízos razoáveis e participar da tomada de decisões. Até que não se trata de uma forma inoportuna, contudo, ainda viveremos no padrão arcaico por muito tempo.
Logo, é cabível admitir que a obra de Thompson é uma referência para os estudos de comunicação. A mídia (sem generalizar) continua com a busca insensata pelo trivial e sensacional, banalizando assuntos, incentivando o consumo exorbitante do divertimento e prazer e, acima de tudo, pecando na ética jornalística. A midiatização trouxe benefícios, sem dúvidas; mas a educação brasileira ainda é precária e os meios de comunicação insistem em publicar fatos irrisórios, esquecendo as tradições e a cultura. É imprescindível uma reestruturação da grade de conteúdo/programação, revisando conceitos e redirecionando mensagens que, pontualmente, vão afetar o cotidiano das pessoas.

(Gustavo Marinho, jornalista e pós-graduado em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG). E-mail: [email protected])

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