Opinião

Minha Oliveira menina

diario da manha

Clara Dawn, Especial para Diário da Manhã

O caseiro cortou uma árvore na divisa do Vale das Quimeras. Contou-nos que fora obrigado a sacrificar a árvore, pois suas flores, que tinham o cheiro de carne-crua, são polinizadas por moscas azuis. Um asco me veio na imaginação ao “materializar” o perfume da tal flor, mas isso não era motivo suficiente para matar a arvorezinha: moscas vêm e vão… Ora, nós estamos reflorestando o Vale e ele com essa história de ter cortado a pobre e esquisita árvore. Que Deus a tenha. Mas o caseiro teve, em compensação, a tarefa de plantar mais de mil mudas de árvores do Cerrado.

Por falar em árvore, ocorreu-me a ideia saudosa de construir uma casa sobre uma das minhas favoritas do Vale das Quimeras. Casa imaginária. Sim, porque eu não seria capaz de subjugar uma árvore com o fardo dos meus sonhos.

É que a minha alma vive, desde criança, em promiscuidade com a natureza vegetal. Deve ser por causa de “O Meu Pé de Laranja Lima” que li aos dez anos de idade e nunca mais me libertei [sim, eu também] do ‘sonho de ser poeta só para usar gravata borboleta e ter o saber mágico de todas as ciências da Terra’. O poeta é a terceira coisa mais linda da Terra. A segunda é a epifania musical [se bem que a música não é coisa deste mundo… então eu classificaria a música como a arte mais completa do universo] sendo assim, a primeira coisa mais bela e maravilhosa da existência terrena, claro, é a gravata borboleta.

Eu vou comprar uma gravata-borboleta-verde-de-bolinhas-rubras para minha Oliveira Menina. Sim, porque ela é poeta. Por isso eu me referi ao poeta e não a poesia como a terceira coisa mais bonita. Ser poesia é fácil, difícil é ser poeta. Um poeta não se faz poeta. Poeta é um estado permanente. O poeta é a desgraça de um poema. O poema não pediu para nascer, mas o poeta em seu insaciável afã subjuga-o a uma existência servil. É fácil ser fruto, difícil é ser raiz, tronco, galhos e folhas – ao mesmo tempo tantos – e um.

A minha Oliveira Menina escreve poemas espetaculares. Oh, eu seria capaz de ficar horas lendo suas divagações em contemplação catatônica por causa de suas folhas vermelhas que bailam entre as verdes e vez ou outra caem sobre as aguas do lago formando barquinhos rubros a deriva. Eu redivivo.

Mas Oliveira ainda é menina. Possui a exuberância díspar das donzelas arbóreas no viço de suas folhagens luzidias, tronco formoso e galhos gritantes.

Sim, a minha Oliveira é absurdamente linda e muito breve começaria a florir e teríamos a vivência de ler versos cheirosos.

Ontem, ao acordarmos com os esganiçados cantos do galo Chanteclair, dos pássaros-pretos; dos canarinhos e das seriemas; fomos alimentar os peixes que moram no lago aos pés da Oliveira. E qual foi a nossa surpresa ao contemplar, banhadas pela luz do amanhecer, as diminutas flores brancas da minha Oliveira Menina, exalando cheiro de carne-crua e cobertas de moscas azuis.

(Clara Dawn, escritora, romancista, contista, cronista do Diário da Manhã, editora cultural,

membro da diretoria/União Brasileira de Escritores de Goiás. Site: www.claradawn.com)

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