Opinião

O carnaval fora de época do último dia 15 foi um atestado público de idiotice da elite brasileira e um desastre como ato cívico

diario da manha

Manoel L. Bezerra Rocha ,Especial para Opinião Pública

As manifestações ocorridas no último dia 15 (domingo) confirmaram aquilo que a grande maioria dos analistas políticos previram: apesar do expressivo número de pessoas nas ruas, houve um visível vazio de ideias. Marcadas pela quase absoluta ausência de uma pauta política, as manifestações, se é que podem ser assim chamadas, mais pareciam aglomerações carnavalescas. Inclusive, em algumas cidades, com a presença de pessoas fantasiadas e mulheres seminuas. As declarações dos que se intitularam “indignados” contrastavam com as poses fotográficas sorridentes para os selfies, compartilhadas quase instantaneamente nas redes sociais, como registros desse momento de grande euforia. Foi um desfile de exibicionistas travestidos de “cidadãos politicamente conscientes”. Tudo parecia mais com um evento recreativo e menos com um ato cívico dirigido ao enfrentamento dos reais problemas que afetam Brasil. Talvez isso se explica pelo fato de a grande maioria das pessoas que se avolumaram nesse evento social não tenha, de fato, problema algum com as mazelas políticas do país. Já a recíproca não é verdadeira. De fato, o Brasil, em suas aspirações como nação e como sociedade civilizada, enfrenta um terrível drama teleológico, concernente na ambivalência entre política de Estado, de um lado, e a mentalidade política e social de sua elite, de outro. Determinados segmentos sociais constituem-se num entrave ao desenvolvimento do Brasil e todos os seus aspectos, notadamente no plano social e cultural. As políticas sociais inclusivas implementadas nos dois últimos governos foram parte do grito dos descontentamentos expressados nas faixas dos manifestantes. Em um deles, a presidente da República era xingada por ter elevado o salário mínimo e os direitos sociais das empregadas domésticas e, por isso, tornou-se mais difícil e dispendioso ter uma empregada em casa. Os programas de renda mínima também foram alvo dos descontentes com o governo federal, pois, aumentando o poder de compra dos mais pobres, diminuem o exército de reserva de mão-de-obra barata. No cipoal de delírios coletivos não faltaram aqueles que clamavam pelo golpe militar, intervenção das forças armadas dos Estados Unidos, fechamento da Suprema Corte, defesa um Estado policialesco, supressão de garantias constitucionais. Não por acaso, em Goiânia (GO), o ponto final de concentração dos manifestantes foi em rente à Superintendência da Polícia Federal. Afigura-se não apenas ingênuo, mas patético, a repetição de alguns mal-intencionados em fazer crer que esse movimento tenha sido fruto da espontaneidade e voluntariedade de cada pessoa que lá estava. Subestimam a inteligência mediana das pessoas e tentam omitir que tudo não passa de uma grande orquestração de partidos políticos representantes do retrocesso brasileiro como PSDB, PMDB e DEM e da grande mídia golpista. O jornal inglês, The Guardian, enfatizou que os manifestantes, em comparação com os de junho de 2003, tratam-se de um grupo “mais velho, mais branco e mais rico, reunidos após uma grande cobertura antecipada da grande mídia”. A revista Forbes, por sua vez, classificou o ato como sendo “um festival de ódios”. Esse evento carnavalesco fora de época que tomou as ruas, erroneamente chamado de manifestações, dado o seu festival de incongruências e teratologias, beira o ridículo. Primeiro, ressai-se como uma grande hipocrisia dizer que foi contra a corrupção mas dirigir-se apenas à um partido, o PT, e à presidente da República, Dilma Rousseff, que foi sistematicamente xingada, difamada, caluniada e injuriada em sua honra profissional e pessoal, inclusive por muitas mulheres que dirigiam-lhe os piores impropérios, essas mesmas que, diante dos holofotes, se dizem repudiar a “violência contra a mulher”. Pedir o impeachment da presidente não é ser contra a corrupção, é ser a favor do golpe político, é ser tolerante com corruptos como Eduardo Cunha e Renan Calheiros, dentre tantos outros naipes da mesma corja que putrificam o Congresso Nacional. Ainda que um ou outro farsante se arvore em vituperar que as manifestações foram contra a corrupção e “todos os corruptos”, a verdade demonstra que o elemento volitivo que o impulsiona é o ódio de classe, é o ódio a um único partido, à presidente eleita democraticamente e às suas políticas sociais de redução da pobreza.  Os que saíram às ruas são os mesmos que criminalizam a pobreza e não aceitam que o que definiu o resultado das eleições para presidente tenham sido os votos da população mais pobre. Não foi um protesto contra a corrupção, mas contra pessoas, tradicional e seletivamente estigmatizadas. Paradoxalmente, essa gente preconceituosa não apenas tolera, mas convive, em uma espécie de simbiose e comensalismo, com corruptos e corruptores, por constituírem-se em uma sociedade essencialmente corrupta, cínica e dissimulada. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, as eleições de 2014 custaram R$ 5,1 bilhões, sendo que 95% desses recursos vieram de um pequeno grupo de grandes empresas que, no Congresso Nacional, construíram as suas bancadas para defenderem seus interesses privados. A degradação moral da política brasileira, aliada siamesa da leniência da elite e do analfabetismo cultural de outros segmentos sociais, criou três novas modalidades de exercício de poder real e político: lobistas, marqueteiros e doleiros. Além da grande maioria de políticos que recebem doação de campanha de empreiteiras, bancos e até do crime organizado, como o narcotráfico, até o momento a Operação Lava Jato indica 27 parlamentares envolvidos no esquema de recebimento de propina. Nada disso fora, sequer, lembrado nas manifestações. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros, apensar do lamaçal que os encobre, não foram alvos dos gritos e ódios vociferados nos protestos. Aliás, o primeiro seria o sucessor na presidência da República, caso prevalecesse a ideia de impeachment contra a Presidente e o Vice. Não é por acaso que deputados e senadores empenham-se em desviar a atenção da população na direção do Palácio do Planalto, considerando que o Congresso Nacional converteu-se numa verdadeira pocilga onde amontoam-se ratazanas pandilheiras. Nada foi falado, também, na urgente e necessária reforma do Judiciário, essa artéria obstruída por tantos obscuros obtusos. Não se questionou as razões pelas quais juízes de Direito e ministros das Cortes Superiores permitiram que tantos crimes, como o do mensalão tucano, do Banestado, dos desvios do metrô em São Paulo, envolvendo a empresa Alstom, terem alcançado a prescrição sem a punição dos envolvidos. Ninguém criticou a postura do ministro do STF, Gilmar Mendes, que detém por mais de 1 ano, após um pedido de vistas, o processo que vai decidir sobre a proibição de financiamento de campanha eleitoral por empresas. Igualmente, ninguém protestou contra a sonegação fiscal, praticada por muitos desses que agora vêm pedir o impeachment, que alcança a cifra de 680 bilhões de dólares ao ano, dinheiro repassado ao consumidor final e que deveria ser utilizado em investimentos em infraestrutura, saúde, segurança e educação. Ninguém protestou contra a evasão fiscal que, segundo a Tax Justice Network, com base em dados do Banco Mundial, só no ano de 2011, foi algo em torno de 280 bilhões de dólares, equivalente a 13,4% do PIB (Produto Interno Bruto). Ninguém sequer citou nas manifestações que 8.667 brasileiros que sonegaram ou lavaram dinheiro, grande parte oriundo de recursos públicos, foram identificados no escândalo do HSBC, no caso do SwissLeaks, envolvendo políticos do PSDB e donos de empresas de comunicação como as Organizações Globo, Bandeirantes, Folha de S. Paulo, etc. Termos como “reforma política”, por exemplo, fugiram e fogem à compreensão da grande maioria das pessoas que saíram, como vaquinhas de presépio, nas manifestações. Informação sobre os atos de corrupção acima citados, fogem do conhecimento da grande parte dos manifestantes pois são compostos por pessoas alienadas, desinformadas, sem hábito de leitura e que se limitam a formarem sua “opinião política” repetindo chavões de bêbados em mesas de botecos ou assistindo, assiduamente, programas policiais sensacionalistas, apresentados por analfabetos financiados pela escória política. São as mesmas pessoas que têm como entretenimento ou atividade “cultural” assistindo telenovelas ou Big Brother. Não por acaso, esses programas que exploram a desgraça alheia se constituem na fonte de formação de “juristas” que se sentem aptos a defenderem a instituição da pena de morte, redução da maioridade penal e da prisão perpétua. Os grupos políticos golpistas e que são endemicamente corruptos são sabedores de que lhes faltam as bases morais mínimas para seguirem com seus intentos de destruírem o país e apossaram-se do poder político pelas vias legítimas. Desta forma, promovem atos como essas pseudo manifestações de modo a observarem o termômetro dos ânimos da massa e avaliarem a capacidade e o momento certo de manipulá-la. A partir disso, poderão definir suas estratégias para, finalmente, golpearem a vontade democrática expressada nas urnas. As manifestações do último dia 15 demonstraram que isso é facilmente possível. Repito: O Brasil, com essas forças dominantes de nossa sociedade, não precisa de inimigos externos para fracassar como nação. A cegueira da ignorância da sociedade brasileira favorece o predomínio dos inescrupulosos na condução do poder político e empurra nossas aspirações civilizatórias rumo ao precipício, onde desabam todos os sonhos de um país melhor e mais justo.

 

(Manoel L. Bezerra Rocha, advogado criminalista – [email protected])

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