Opinião

PT não é comunista e quem dera se o Brasil fosse Cuba ou Venezuela

diario da manha

Yuri Brandão ,Especial para Opinião Pública

Nas manifestações do dia 15 de março, em meio ao sentimento de hostilidade, a Dilma, Lula e o PT, duas frases citadas merecem uma reflexão: “PT é comunista” e “O Brasil não será uma nova Cuba ou Venezuela”. A indignação pelo estado de corrupção que o Brasil chegou tem levado muitos brasileiros a confundirem este sentimento com conservadorismo alimentado por uma desinformação crônica.

O comunismo, em sua teoria, é a superação do regime capitalista que concentra a maioria dos recursos nas mãos de uma minoria, promove a desigualdade de uma maioria que tem seu trabalho alienado por essa mesma minoria resultando em lucro. Assim, não haveria mais governos estatais ou países, com uma autogestão democrática. O trabalho seria livremente associado e não mais comercializado como no capitalismo. Um prazer com recursos disponíveis para todos. O PT foi concebido em 1979 como partido nas bases do radicalismo sindicalista, intelectuais de esquerda e católicos da chamada “Teologia da Libertação”, acabou por dividir o partido em “tendências” e por isso uma orientação ideológica de esquerda não era muito clara devido ao chamado “sectarismo” provocado pelos grupos trotskistas praticados dentro e fora do PT. Em sua Carta de Princípios em 1979, o PT atacou a reorganização do PTB em Lisboa, chamando suas propostas de “demagógicas”, “de arregimentação dos trabalhadores para defesa de interesses dos setores do empresariado nacional, além da memória de Getúlio Vargas, classificando suas idéias como “massa de manobra dos trabalhadores”. O resultado foi à articulação do cérebro da Ditadura, Golbery do Couto e Silva para tomar a sigla de Leonel Brizola e destruí – la nas mãos de Ivete Vargas. A luta pelas Diretas em meados dos anos 80 pareceu integrar o PT na causa democrática da esquerda brasileira. Mas, em 1990, no manifesto chamado “O socialismo petista”, o PT surpreendentemente apoia o sindicato Solidariedade do ultra direitista Lech Walesa na Polônia com o argumento de haver “uma abertura democrática no Leste Europeu.” Um processo que aniquilou praticamente todos os partidos comunistas do mundo e jogou estes países no mais brutal neoliberalismo e na periferia do capitalismo. Este é o socialismo petista, o mesmo que em 1994 fez Aloizio Mercandante igualar o modelo econômico da Candidatura Lula com o de FHC e que em 2002 firmou o compromisso com o povo brasileiro: aliança com a direita representada por José Alencar e o pacto social com a burguesia brasileira. Com o PT no poder em 2003, o socialismo petista agora social – liberalismo burguês trilhou seu pacto com nossa classe dominante. Aliou – se ao PMDB de José Sarney e ao PP de Paulo Maluf, cedeu á Base de Alcântara aos EUA, participa da ocupação militar no Haiti, apóia políticos da pior estirpe como Sérgio Cabral, Roseana Sarney e empresários como Eike Batista. O que sobra do socialismo petista é a sua retórica que hoje em dia sob supervisão de marqueteiros, classificam oposicionistas de direita, golpista, coxinha, etc. Será que tudo isso tem a ver com comunismo?

Cuba e Venezuela são dois casos típicos na América Latina de países que optaram pela independência política dos EUA. Cuba antes de 1959 era um país chamado “bordel dos EUA”. Sua independência em 1902, a penúltima da América Latina, contou com a ajuda dos EUA, aonde Cuba chegou a ser um protetorado norte – americano desde 1898. Neste mesmo ano, foi feita uma emenda a constituição, a chamada “Emenda Platt” que autorizava os EUA a intervir militarmente em Cuba quando os seus interesses econômicos fossem ameaçados. Mesmo com a ascensão de Fulgêncio Batista, a ilha cubana continuava sendo praticamente uma colônia ianque, com alta taxa de analfabetismo, prostituição, miséria e exploração econômica. Com Revolução em 1959 com Fidel Castro e Ernesto Che Guevara, Cuba rompe este cordão umbilical com o EUA e começa um processo de transformação radical de sua sociedade. Erradicou o analfabetismo e conseqüentemente a miséria, elevou seu IDH com seu sistema de saúde através da medicina preventiva (auxiliando inclusive os acidentes Césio 137 em Goiânia e Chernobyl na Ucrânia) e tornou – se uma potência esportiva olímpica. Foi importante o apoio da URSS e o bloco socialista que foram o resultado da política de perseguição dos EUA a Revolução e a exclusão de Cuba da OEA em 1962, onde acabou isolada economicamente e politicamente do continente americano. A Revolução Cubana sobrevive felizmente até os dias de hoje. Poderia desenvolver – se mais e colaborar muito com seu conhecimento para a América Latina se não houvesse este bloqueio econômico estúpido promovido pelos EUA. A Venezuela assim como Cuba, teve uma violenta colonização espanhola que originou uma burguesia conservadora, detentora da siderurgia, do petróleo e dos meios de comunicação e extremamente alinhada à Casa Branca, onde alternou – se ditaduras patrimonialistas e democracias frágeis, algo comum na maior parte da América Latina. A ascensão de Hugo Chaves em 1999 representou uma ruptura com uma estrutura de poder que legava ao povo venezuelano em sua maioria a miséria e o analfabetismo. A Constituição Bolivariana que resultou na chamada Revolução Bolivariana, promoveu uma série de reformas na Venezuela. A Câmara e o Senado foram extintos, criando – se a Assembléia Nacional, aumentou o mandato do presidente de cinco para seis anos com direito a reeleição, nacionalização da petrolífera Petróleos da Venezuela (PDVSA) e da siderúrgica Sidor. Assim com Cuba, a Venezuela caminha para a erradicação do analfabetismo, melhoria de seu sistema de saúde com a ajuda da ilha de Fidel, liberdade cultural para os povos indígenas e a melhoria significativa na distribuição de renda da população. Evidentemente que estas ações desagradaram profundamente à burguesia venezuelana e os EUA que desde 2002 tenta derrubar este processo de reformas na Venezuela, seja com tentativa de golpe a Hugo Chavez, seja com Nicolas Maduro. Semelhante á Cuba, os norte – americanos isolam covardemente a Venezuela política e economicamente, chegando até recentemente receberem uma intimidação militar ianque como “uma ameaça aos EUA.” Mudança do paradigma político na América do Sul requer sacrifícios sem nenhuma recompensa e com garantias de decepção. O PT e seu projeto de governo em nada assemelham com estes dois países. Não propôs nenhuma agenda de reformas para o Brasil, agindo apenas paliativamente em setores da saúde (Mais Médicos), educação (Prouni), moradia (Minha Casa, Minha Vida), distribuição de renda (Bolsa Família), este com claro intuito eleitoreiro. Uma Copa do Mundo e Olimpíadas com dinheiro público, além do Leilão do Poço de libra com direito á Forças armadas reprimindo o povo. Uma lógica para preservar as mesmas corporações burguesas que manipulam estes setores na América Latina e que dão sustentação econômica e política ao Governo Lula/Dilma. Cooptando a direita como o PP e o PSD, o sempre governista PMDB e mais os escândalos do Mensalão e da Petrobras, fica a cargo de marqueteiros, pintarem o PT e seus movimentos sociais chapa branca como algo parecido com Cuba ou Venezuela. Se bem que, mas parece uma bela ressaca da Ditadura.

O PT não é um partido de esquerda. Nunca foi solidário com os partidos afins. Desde sua fundação, sempre agiu com autoritarismo, auto-suficiência e sectarismo. E agora age como se fosse o dono dos símbolos, da ideologia e do movimento de esquerda no Brasil. Este movimento tem nomes como Luis Carlos Prestes, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Caio Prado Júnior entre outros que sacrificaram suas vidas pelo Brasil e nunca se envolveram em escândalos de corrupção ou fizeram pacto com a direita e com o setor conservador brasileiro como o PT fez. A esquerda no Brasil merece respeito e essa tentativa de usurpação da história que o PT tenta fazer é simplesmente vergonhoso, pois é claro que a democracia no Brasil hoje está sendo manipulada pelo poder econômico e político respectivamente. Então, você que expressou sua indignação dia 15, o PT nunca foi e jamais será comunista. E quem dera o Brasil fosse Cuba ou Venezuela. Não que se deva imitar os dois modelos, mas se Cuba e Venezuela com territórios pequenos e recursos mais escassos em relação ao Brasil, conseguiram fazer toda essa transformação; imaginem o Brasil com toda a potência de seus recursos naturais, sua multiplicidade racial, sua extensão territorial, podemos ir mais longe. Quem sabe, fazer um socialismo moreno com a cor do Brasil.

 

(Yuri Brandão, presidente da Juventude Socialista do PDT-GO, membro da Direção Nacional da Juventude Socialista do PDT, membro da Direção Executiva Estadual do PDT-GO e bacharel em Direito pela PUC/GO).

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