Opinião

Saudades da minha infância, de meu pai e de José Rico

diario da manha

Lu Couto ,Especial para Opinião Pública

Nasci em Ceres, cidade do interior de Goiás. Meus pais, de origem humilde, mal sabiam ler e escrever. Moraram na zona rural longos anos. Os meus irmãos mais velhos me contam que meu pai todos os dias quando chegava da roça, após árduo trabalho sob sol escaldante, ligava seu velho rádio de pilha para ouvir músicas. Só gostava de ouvir músicas sertanejas.

E todas as noites, minha mãe, também cansada das tarefas do lar, se punha a arrumar o simples jantar. Enquanto isso, meu pai sentava em um banco do lado de fora da casa para ouvir suas modas sertanejas. Momento esse, em que meus dois irmãos mais velhos brincavam sob seu olhar atento.

Depois de alguns anos, meus pais mudaram para a cidade de Ceres, para que os meus irmãos mais velhos pudessem estudar. E lá, eu nasci e cresci. Passei toda minha infância, adolescência e fase adulta sempre vendo meu pai ouvindo canções sertanejas em seu inseparável amigo rádio.

Lembro-me, como se fosse hoje, de algumas canções que meu pai ouvia. Tinha sempre preferência pelas duplas sertanejas que cantavam o estilo “raízes” modas de viola ou “modões”. E dentre as duplas sertanejas de sua preferência estavam: Tonico e Tinoco, João Mineiro e Marciano, Liu & Léo, Tião Carreiro e Pardinho dentre outras. E é claro; Milionário & José Rico.

Meu pai, embora não fosse músico ou entendesse de música, tinha gosto e preferência por estas duplas que mais tarde, também aprendi a apreciar. Ao longo da minha infância e adolescência, a convivência diária com a música sertaneja me trouxe igualmente o gosto por elas. E nas noites de céu estrelado e lua clara, meu pai já não estava mais sozinho para ouvir o seu rádio. Lá estava eu sentada ao seu lado. Esses momentos traziam-me muita alegria na companhia do me pai.

Os anos foram passando e eu fui tomando gosto cada vez mais pelo gênero musical que meus pais tanto ouviam e apreciavam. Já adulta, tive oportunidade e contato com vários outros estilos musicais, mas a preferência era aquele que tanto ouvi na infância e na adolescência: o Sertanejo.

Os anos passaram e novas duplas foram surgindo. Mas o meu gosto sempre esteve voltado para as duplas sertanejas mais antigas e experientes. Uma delas que sempre gostava de ouvir era Milionário & José Rico. Ah! Como eu ouvi: Jogo do amor, De longe também se ama, O tropeiro, Amor dividido e Estrada da vida.

Infelizmente, a vida nos impõe mudanças a todo o momento. Mudanças que chegam até nós e temos que ser capazes de, se não de entendê-las, ao menos aceita-las.

Era domingo à noite, dia primeiro de março de 2015, quando recebi um vídeo gravado pelo então cantor José Rico da dupla Milionário & José Rico enviado por um amigo. No vídeo, José Rico falava para a dupla goiana Marques e Marçal, desejando a eles muita sorte e muito sucesso. Essa dupla sertaneja era muito conhecida e querida por ele. Cantam num estilo muito parecido com Milionário & José Rico. Esse carinho não veio por acaso. José Rico conhecia bem o Marçal da dupla Marques e Marçal desde os tempos em que em São Paulo, Marçal cantava como forma de abertura nos momentos que antecedia seus shows.

Mal sabia eu e as demais pessoas, que aquele seria o seu último vídeo a ser gravado. Prestígio para a dupla Marques e Marçal por poderem contar com o carinho dele e também por ser o último vídeo e exatamente para eles. Ao mesmo tempo, dois dias depois seria motivo de muita tristeza para eles e para o Brasil.

No dia 3 de março de 2015, foi anunciado o falecimento de José Rico, da dupla Milionário & José Rico. A dupla Marques e Marçal (meus amigos) e eu, recebemos a triste notícia de seu falecimento através das redes sociais. O Brasil ficou mais pobre de cultura e a música sertaneja perdeu um de seus ícones.

A ver em rede nacional, o quanto José Rico era querido, fiquei reflexiva. Percebi que os dias passam de forma rápida. Implacavelmente rápido, passa a vida. É preciso viver “como se não houve o amanhã”. E assim creio eu, que José Rico viveu, pois passou a maior parte de vida cantando e encantando. “E o final da corrida chegou…” Chegou para ele, para meu saudoso pai, de quem tenho muitas saudades e um dia chegará para todos nós.

 

(Lu Couto, jornalista. Twitter: lucouto28. Blog: Livrepensareviver.blogspot.com)

Comentários

Mais de Opinião

27 de outubro de 2018 as 21:44

A estratégia de Pedro

27 de outubro de 2018 as 21:18

Bom dia, Brasil

26 de outubro de 2018 as 21:35

As propostas de Bolsonaro

26 de outubro de 2018 as 21:34

Ensaio sobre a criação do espaço

26 de outubro de 2018 as 21:33

Um amor de Goiânia

26 de outubro de 2018 as 21:32

Brasil e totalitarismo

26 de outubro de 2018 as 21:07

Esses corregedores do CNJ são uma piada

26 de outubro de 2018 as 21:00

O voo do DM

26 de outubro de 2018 as 20:57

Casos de câncer de mama sobem no País

26 de outubro de 2018 as 20:53

O Brasil pede socorro à CNBB!

26 de outubro de 2018 as 20:49

O direito de sonhar

26 de outubro de 2018 as 20:47

O STF legisla demais