Opinião

Médicos falam de seus problemas com remédios genéricos, similares, ou seja, sem controle adequado no Brasil

diario da manha

Marcelo Caixeta ,Especial para Opinião Pública

Antes de mais nada, ou seja, antes que digam o contrário, digam que “são as multinacionais” que “financiam” meu artigo, declaro que não tenho absolutamente nenhuma relação com a indústria farmacêutica, não recebo   e não receberei  nenhum benefício pecuniário interesseiro por parte desta. Ao contrário de muitos médicos (infelizmente isto acontece), não viajo às custas deles (aliás, não viajo é de jeito nenhum ahahaha), não como em restaurantes chiques  às custas deles, não tenho diárias de hotel, congressos, “seminários em Miami”, etc, pago com o dinheiro deles (e que eles costumam cobrar na forma de prescrição de seus medicamentos).

O que vou falar aqui é o resultado de minha prática clínica como médico, única atividade econômico-profissional à que me dedico. E cito abaixo o depoimento de outros médicos, para não dizerem que “isto é coisa minha”.

Minha tese é muito simples: pelo tanto de remédios psiquiátricos, genéricos, similares,  que eu vejo “não funcionando” no meu dia a dia, penso que isto é um problema nacional. Estes problemas acontecem de muitas formas, das mais leves até as mais graves. Uma de minhas pacientes, p.ex., L.S.A, foi parar na UTI  três vezes porque o Governo deu-lhe uma clozapina que não era a original, a de marca internacional. Pacientes reclamam o tempo todo que: “doutor, esta quetiapina/carbamazepina/vigabatrina/naltrexone/fluoxetina/lítio/etc” não funcionam, eu pioro demais”. Em outros casos dizem : “Eu tenho de tomar o dobro da dose para fazer algum efeito”, “eu tenho convulsões o tempo todo com esta carbamazepina”, etc. Há casos muito graves, por exemplo, com o carbonato de lítio que não funciona: é uma medicação cujos níveis terapêuticos são muito próximos dos níveis tóxicos, e o laboratório parece que “brinca” com isto: às vezes a dose que vem no comprimido parece muito pouca, e, depois, parece que aumentam a dose, levando ao risco de intoxicação pois o médico teve de aumentá-la com base nos níveis sanguíneos da droga, que vieram muito baixos. Um de meus pacientes, p.ex., estava usando 1.200 mg por dia do lítio (dose bem alta) e veio com uma dosagem sanguínea de 0.1, ou seja é como se não estivesse tomando nada. Aí a gente aumenta  e, se num lote da medicação  a dose vem correta, o paciente pode intoxicar-se e até morrer.

Muitos destes sais tem procedência duvidosa na mão de alguns laboratórios nacionais, fiscalização aparentemente zero (ou então, aparentemente,  só se fiscaliza quando é para lançar o remédio, depois babau…). Eu mesmo, assim como muuuuuuitos colegas, já reclamamos da falta de eficácia de uma tal clozapina feita em um laboratório naciona , semipúblico, lá de Pernambuco,  há uns 10 anos (era, não sei se ainda é, a clozapina distribuida pelo programa de “medicação de alto custo do Governo”)… Já tive até paciente que foi para UTI por causa dela. É claro, nunca deu em nada. Agora, pasme , o Governo PT proibiu o Laboratório Lafepe, lá de Pernambuco (assim como o poderoso EMS) de vender os tais remédios “carimbados” para o SUS. Detalhe, “só para o SUS” (que é uma “maravilha de eficácia”, né ?), ou seja, para o resto do Brasil, para o resto de nós, os “palhaços envenenados”, pode…. Cheguei ao cúmulo de entrar com pedido, que a família levou ao Ministério Público, para que o Governo não desse às minhas pacientes a tal clozapina pernambucana, mas comprasse a clozapina multinacional, Leponex.  Eu falo aqui de “multinacional” porque o produto que estas empresas vendem no Brasil geralmente é o que têm de vender lá fora, e lá fora, há, de fato, controle eficaz. Lá fora, se uma multinacional produzir “farinha”, será imediatamente cortada pelos Governos ou pelo escrutínio de uma população instruída. Falsificação, lá fora é , portanto, uma coisa “fatal” para a empresa. Já no Brasil… Agora mesmo a Anvisa proibiu o maior laboratório nacional, o laboratório X,  de vender para o SUS , por causa de irregularidades, etc. Não acontece praticamente nada, tanto é que, como eu disse acima, eles, para darem uma de “zelosos do SUS”, “zelosos do Governo”, proíbem o laboratório de venderem apenas para o Governo, deixando-o “intoxicar”, ou matar por ineficácia,  os palhaços aqui embaixo.

Já vimos recentemente na imprensa as maracutaias de determinados laboratórios com o Ministério da Saúde, p.ex., aquele laboratório que, na gestão Alexandre Padilha, era feito só de ferro-velho coberto por uma lâmina de alumínio novo. Em outros casos, como tudo no Brasil, passa-se a impressão de que, se houver alguma fiscalização ou testes do produto, é só em seu lançamento, só para conseguir o alvará, depois disto, como tudo, esquece-se…

Para que não se fique com a impressão de que estas denúncias partem só de mim, coloco abaixo alguns depoimentos médicos.

M.M.S diz: “Não só na psiquatria. Há antibióticos de certos laboratorios que não valem nada. Antifúngicos tópicos idem.”

J.P.C. diz:  “Não utilizo genéricos, só alguns muito simples. Alguns farmacêuticos foram no hospital discutir isso comigo… falei de minha prática, não de teoria.”

A.C.R: “Conheço uma pessoa que quase morreu ao trocar de laboratório  para o anti-hipertensivo.”

M.G: “Os gestores pensam em custo por comprimido, não em custo de tratamento, que incluiria qualidade e eficácia. Uma vez discuti com o farmacêutico na Secretaria de Saúde do Estado responsável pelas compras e gestão sobre a qualidade da medicação, sobre os custos de UTI, de hospitalização, de recaídas, exames, etc, mostrando com isto que o ‘barato sai caro’. Mas não adianta.”

M.R.F: “Temos tantos remédios dando problema e a população não sabe de nada, e a gente que está vendo as coisas não tem canal de comunicação sobre isso.”

M.B.A: “Sem falar nos anti-hipertensivos, antidiabéticos e anti-histamínicos ( p.ex., loratadina) nem dando dose máxima 40 mg/ dia funciona.”

E.G: “É um  horror analgésicos, antibióticos e antihipertensivos, e hipoglicemiantes não escapam! Socorro Brasil!!!”

K.E: “Citalopram e topiramato feitos em farmácias de manipulação de grandes cidades também já reparei que têm problemas, as vezes não  tem efeito, só o de laboratório grande e conhecido mesmo.”

M.A.A: “Muito Captopril de farinha!”

M.A.H: “Estou com o mesmo problema, Marcelo. Paciente bipolar tomando 4 comprimidos de carbonato de lítio 300mg ao dia e não chega nem perto do limite inferior da janela terapêutica. Isso parece mais regra do que exceção. Dar carbonato de lítio genérico ou do Governo parece um enorme risco. Geralmente parece ter farinha , mas de vez em quando acho que eles resolvem colocar remédio e aí o paciente pode-se intoxicar gravemente.”

E.R.R: “Vejo sempre problemas com anticonvulsivantes. Triste.”

“Carbamazepina do governo, muitos ditos “genéricos”, são um problema. Muitos epilépticos e bipolares pioram demais com eles, basta mudar para Tegretol, que é de laboratório multinacional aparentemente confiável,  que resolve.”

E.A.T: “Sou infectologista e intensivista, vejo gente morrer todo dia por causa dessas porcarias de antibióticos genéricos no mercado. Fazendo Vancocinemia (dosagem do antibiótico no sangue, que mostraram níveis irrisórios ou zero mesmo) aboli essa droga da minha prescrição. Só prescrevo os de marca. Minha sorte é que parei de trabalhar no SUS, sei que só parei de ver as pessoas morrerem por falta de qualidade, mas sei que elas continuam morrendo para os políticos continuarem lavando dinheiro nesses laboratórios de fachada.”

C.E.R: “Sempre pesquiso e discuto com os farmacêuticos, o que o hospital tem de marca e o que é genérico. Procuro escolher as drogas que ainda não tiveram quebra de patente, ou seja, as originais, as de laboratório internacional . E guio meus protocolos assim. Por exemplo: para pneumonia comunitária no meu protocolo é Avalox, nunca levofloxacino. Para G+ hospitalar: Cubicin ou Tygacil, nunca Vancomicina. E assim consigo manter qualidade.”

D.S.A: “Genéricos, sem eficácia. Em várias doenças: minha diarista usava metformina do posto. Comprei o Glifage, ela observou a diferença no primeiro dia de uso. Sertralina genérico ou similar, um perigo. E outros, vários. Acho que está na hora de se cobrar uma fiscalização, e cada paciente fazer seu relato. É criminoso o que vemos acontecer no Brasil.”

Bom, acho que não precisa dizer mais nada…

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra, escreve às terças, sextas, domingos, na seção Opinião Pública, do Diário da Manhã, acesso grátis em DM.com.br)

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