Opinião

A importância de Antônio César Caldas Pinheiro para a historiografia do Brasil Central

Pedro Nolasco de Araujo ,Especial para Opinião Pública

diario da manha
OD: icon206338_15.tif Autor/Criador: Musso, Luiz Título: Caixa de Amortisação. Outros Títulos Caisse d'Amortisation. Data: [191-]. Em: Vues de Rio de Janeiro. Dimensões do original: 1 foto : papel albuminado : Tipo de documento original: fotografia Direitos: Biblioteca Nacional (Brasil) Back up: HD-007 DVD-0094

Pra começar, importa cumprir rito absolutamente necessário: não se pode mencionar o nosso homenageado Antonio César Caldas Pinheiro sem mencionar o grande historiador Paulo Bertran. A ligação mútua deles fica evidente por diversas razões. Mais evidente ainda quando se invocam lembranças do Arquivo Histórico Estadual de Goiás, onde César Caldas chegou a trabalhar. Parece que quem dirigia lá, o arquivo histórico goiano, por esse aurifulgente tempo, 1991 – 1996, era a saudosa dona Marilda Godoi, filha da poetisa modernista Marilda Palínia, que por si só já vale como bela e poética referência. Bem, foi lá que a amizade entre Antonio César e Paulo Bertran começou a se enraizar em terreno fértil, para logo entrar a frondejar e frutificar, sem que a copa dessa densumbrosa árvore aí jamais impedisse a luz do sol de rutilar além. Muito além. Luz a envolver ambos em um belo e refulgente ideal, apesar das cogitações do presente e do futuro: “…volver os olhos para o passado, para os dias que se foram lentos e sombrios e sob cujo véu tantas preciosidades e tantos ensinamentos encerram.” Na bela expressão do vate Leo Lynce, estampada em crônica do jornal O Jatahy, a 10 de março de 1912.

Segundo Antonio César mesmo relata sobre aquele arquivo:

“Paulo, amiúde, lá estava, a lidar com alfarrábios e outros documentos, escarafunchando os meandros da memória goiana, divagando pelo tempo, investigando os vestígios do passado. Nossa amizade começou aí.” (…) “Paulo me via naquela correria. Sabia e testemunhava, no dia a dia, a minha curiosidade histórica, minhas pesquisas sobre Goiás. Conversávamos muito sobre os documentos que encontrávamos, as incógnitas da história e historiografia goiana. Discutíamos sobre livros recém-lançados. Dialogávamos sobre as personagens do passado goiano e quem nos visse conversando, acharìamos que estávamos tratando de assunto atual, a respeito das comezinhas coisas do cotidiano”.

Houve, duma feita, conforme ainda César Caldas, uma visita de ambos historiadores ao acadêmico e regionalista Bernardo Élis. Ah, augusto Bernardo!

“Recordo-me claramente. Paulo convidou-me a visitarmos o escritor Bernardo Élis. Na volta, pela Avenida Goiás, onde resido, paramos, descemos do carro e continuamos as elucubrações sobre o passado, assunto que havíamos encetado em casa de Bernardo Élis. Em dado momento, Paulo me disse…” Destas reticências aí, bem ao lado, em diante, reporta-se Caldas ter Paulo Bertran dito ter o saudoso Padre José Pereira de Maria, grande apaixonado da história de Goiás, a intenção de fundar um instituto “que pudesse congregar as fontes para a história de Goiás e que o convidara para estruturar e organizar este instituto. “Paulo, então, convidou-me para trabalhar nesta nova casa de memória que foi fundada cerca de um ano depois, em março de 1996.” Manifesta-se Caldas Pinheiro.

E eis criado o prestigioso Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central – IPEHBC, do qual Bertran foi seu primeiro diretor. Sucedido depois pelo acadêmico, romancista e poeta, José Mendonça Teles. Para alegria de Bertran, o atual diretor dele, por coincidência, em substituição a Mendonça Teles, é o seu dileto amigo e pesquisador, Antonio César Caldas Pinheiro, objeto deste texto, que vem se desincumbindo magnificamente dele. O IPEHBC faz história, antologica e fielmente. Muito a propósito, o obscuro escriba deste escrito já pertencera, com muita honra, ao Conselho Honorífico dele, por sugestão do próprio Antônio César. Lá frequentávamos meu pai, professor José Cruciano, e eu; o IPEHBC foi fundamental para a consecução dos textos necessários para a Prosa Quase Completa de Leo Lynce, avô deste articulista, iniciador da corrente modernista na literatura goiana.

Um pouco antes dessa significativa investidura, Antonio César, por influxo do IPEHBC, se desincumbe majestosamente de outra maravilhosa e inejável função. Foi em Portugal, idos de 1998, quando o pesquisador acaba convidado a participar do Projeto Resgate da Documentação Histórica da Capitania de Goiás, realizado pelo Ministério da Cultura em parceria com a Sociedade Goiana de Cultura – SGC. O trabalho houve por bem ser realizado no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa. Esta função, verdadeiro renascer da historiografia anhanguerina, significativamente reconhecida nos meios cultos, granjeou-lhe, como se lê em recente registro deste Diário da Manhã, os mais vivos e relevantes encômios. Basta revelar ter o Conselho Estadual de Cultura, em torno de 1999, lhe conferido homenagem de Personalidade Cultural do Ano.

Antônio César levou ao prelo Tronco & Vergônteas – Ensaio Genealógico (1995), realizado a quatro mãos com Zanoni de Goiáz Pinheiro. Um ano depois, traz ao lume da publicidade Estórias e Sonhos – Crônicas e Poesia, em co-autoria também com Zanoni de Goiáz Pinheiro. Onze anos após a primeira obra, eis Diário de Viagem do Barão de Mossâmedes1771-1772, uma transcrição e análise documental realizada a quatro mãos com Gustavo Neiva Coelho. Segue-se História de Itaberaí – Desfazendo os Enganos (2010); depois, O Tempo Mítico das Cidades Goianas – mitos de origem e invenção das tradições (2011). Para encerrar, o livro de poemas Amor e Tempo, Confissões da Existência (2011).

Bem, Antônio César veio à luz, a 29 de julho de 1967, na cidade de Itaberaí, Goiás, antigo Arraial do Curralinho, no abençoado e aureolado lar de Hélio Caldas Pinheiro e Maria José da Piedade Couto. Através do sobrenome “Couto”, oriundo de sua mãe, advem-lhe, como afiançou diversas vezes, ligações de sangue com Aninha, aquela mesma menina feia e doceira da casa da ponte, a admirável e imortal tecelã dos Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais; e igualmente com o poeta romântico e parnasiano Luiz Ramos de Oliveira Couto, inspirado autor das Violetas (1904), que se cultivam frescas e amoráveis no coração das goianas.

O presente homenageado pertence ao Instituto Histórico e Geográfico de Goiás – IHGG, ao Conselho Estadual de Cultura, à Associação dos Amigos dos Arquivos de Goiás – Amago; sócio efetivo da Ordem Nacional dos Escritores – ONE; é fundador e ex-presidente da Academia Itaberina de Letras e Artes – Aila; sócio-correspondente das academias de Letras e Artes de Bela Vista de Goiás, Catalão, Trindade e Inhumas. Sem falar de outros sodalícios.

Graduado em Direito pela UFG (1989), especialista e mestre em história na mesma autarquia, Antonio César cursa atualmente Doutorado em Documentação na Universidad de Salamanca, Espanha. Vem proferindo diversas palestras algures e conferências em sua área, urbi et orbi.

Com tantos méritos, louros e galardões, o céu é o limite ou César só podia acabar mesmo na Academia Goiana de Letras, cuja posse aconteceu às 17 horas do dia 22 de maio do corrente ano. Como o assunto aqui é o passado, por ser Caldas visceralmente vinculado ao que se foi, muito mais que ao presente, recordo-me do que fez o magistral Mário de Andrade no seu Macunaíma (1928). Pôs seu herói epônimo em contato com as personagens do passado. Fico a fantasiar o mesmo em relação ao Antônio.

Ora, ora, lê-se em o Diário da Manhã, edição de 24 de maio, ter a investidura de Antônio Caldas na AGL, da qual estive ausente, sido mui concorrida. Pois bem, como adiantei atrás, entro a fantasiar (como soem fazer esses célebres autores do realismo mágico) que, naquele dia e um pouco adiante do momento da cerimônia, o monumento da Praça do Bandeirante adquire vida como que por encanto. O Anhanguera de bronze desce do seu pedestal de mármore, através de uma corda, põe a bateia e o bacamarte de lado e, em seguida, vai apressadamente, com o seu chapéu de abas largas e o velho gibão, para  o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Para tanto, vai rangendo as longas botas, ao longo da Avenida Goiás. O sabre dele vai oscilando pra cá e pra lá. Ao chegar à Praça Cívica, sente já bem perto o IHGG. Uns passos mais adiante e ei-lo já à porta daquela veneranda casa de estudos. Bartolomeu entra resolutamente nela, procura o auditório, e segue aos encontrões, a enfrentar a multidão que se acotovela para cumprimentar o novo imortal, e quando chega a sua hora vai logo dizendo na bucha: “Meu caro Antônio César Caldas, bem sabes que estamos em época de Copa do Mundo. Portanto, não podia deixar de aqui comparecer, a fim de lhe afirmar sinceramente que, com a sua eleição, a Casa de Colemar marcou um gol de placa. Meus efusivos cumprimentos” Diz o Bartolomeu Bueno de bronze, estreitando o filho de Itaberaí num terno abraço.

 

(Pedro Nolasco de Araujo, mestre, pela PUC-Goiás, em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)

Comentários

Mais de Opinião

27 de outubro de 2018 as 21:44

A estratégia de Pedro

27 de outubro de 2018 as 21:18

Bom dia, Brasil

26 de outubro de 2018 as 21:35

As propostas de Bolsonaro

26 de outubro de 2018 as 21:34

Ensaio sobre a criação do espaço

26 de outubro de 2018 as 21:33

Um amor de Goiânia

26 de outubro de 2018 as 21:32

Brasil e totalitarismo

26 de outubro de 2018 as 21:07

Esses corregedores do CNJ são uma piada

26 de outubro de 2018 as 21:00

O voo do DM

26 de outubro de 2018 as 20:57

Casos de câncer de mama sobem no País

26 de outubro de 2018 as 20:53

O Brasil pede socorro à CNBB!

26 de outubro de 2018 as 20:49

O direito de sonhar

26 de outubro de 2018 as 20:47

O STF legisla demais