Opinião

A polícia e o policial -a emboscada

Coronel Viveiros,Especial para o Diário da manhã

diario da manha

 

Encontrei com uma pessoa semana passada que me sugeriu escrever um pouco sobre a história da Polícia Militar de Goiás. Alegou que muitas pessoas gostam da PM, mas não conhecem sua história. Julguei válida a sugestão, mas também de muita responsabilidade. É preciso uma pesquisa cuidadosa para, mesmo que de forma muito superficial, falar de uma instituição tão importante. Mas enquanto a idéia amadurece, pensei que poderia descrever aqui, ainda que esporadicamente, alguns casos reais que vi ao longo da carreira para que aqueles que venham conhecer a história da Policia, possam conhecer um pouco da história dos policiais.

A primeira história que conto, ocorreu comigo mesmo, ou não, já que não cuido apenas de minha vida. Era uma segunda feira, dia que invariavelmente saiamos do trabalho um pouco mais tarde. Area conflituosa de atuação, eu ocupavo o posto de capitão, o que me punha diretamente no comando da tropa. Naqueles dias, havia sido presa uma quadrilha de roubo a banco, com atuação em todo país. Eramos então ameaçados pelos remanescentes do grupo.

Naquele dia, saímos mais tarde pois precisavamos atualizar os problemas acumulados no fim de semana. Como sempre, ficaram no quartel o sargenteante e eu, além de uns gatos pingados. Passadas as horas sem que percebessemos, já chegara as 21 horas. Então, cada um para seu canto.

“No meio do caminho que me levaria para casa, percebi que um veiculo parecia me seguir. As ruas mal iluminadas não permitiam divisar que veiculo era. Apenas podia dizer que era um veiculo de cor clara. Fiz então algumas manobras estranhas para ver o que ocorria. O veículo seguia firme no meu encalço. Se eu diminuia, ele diminuia também. Se acelerava, era acompanhado pelos meus seguidores. Se virava à direita, lá vinham os estranhos. Se virava para a esquerda, não me perdiam de vista. Pedir socorro? impossivel. Celular naquela época além de novidade, era para poucos que se dispunham a dormir numa fila da telegoiás e desembolsar uma pequena fortuna.

Já no bairro em que morava, adentrei numa rua sem saida e muitissimamente mal iluminada, mais ou menos como as ruas de hoje em Goiânia. Ao entrar, acelerei até o muro das poucas casas edificadas ali. Desci correndo e me abriguei no muro de uma das casas. O veículo se aproximou e, ao perceber se tratar de rua sem saída, parece ter deixado seus ocupantes sem ação. Aproveitei para abordá-los, ainda que só. Ouvi alguns disparos de arma de fogo. Revidei enquanto retomava meu abrigo. O veiculo suspeito, agora podia perceber, tratava-se de um Uno aparentemente branco e, posso afirmar, com 3 pessoas no seu interior. De imediato saiu em marcha ré. Segui atirando, ao que tudo indica sem sucesso. Minha arma: um revólver 38 de 5 tiros com uma única recarga.

Tendo os agressores alcançado a avenida principal, voltei para meu carro e segui para casa, redobrando os cuidados. Daí por diante, toda familia fora instruida de principios com a própria segurança. Princípios que meus filhos observam ainda hoje. Depois disto, as ameaças cessaram. “Mas por garantia, passei uma boa temporada no interior do Estado onde as ocorrências não foram menos impactantes.”

Conhecer fatos reais de quem faz a nossa segurança não se trata de peça de propaganda. Trata-se de meio de convencimento e de construção de cultura. O policial é um ser humano, mas arrisca a vida todos os dias por pessoas que não conhecem bem. Pior, expõem sua familia por pessoas que nunca viram. Este fato obrigou uma familia a se esconder por um bom tempo. Por isto mesmo me dispus a contar aqui as histórias que meus companheiros voluntariamente me contam, para informar aqueles por quem lutamos.

 

(Coronel Avelar Lopes de Viveiros, comandante do policiamento ambiental de Goiás)

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