Opinião

A reencarnação a serviço da justiça

João Caetano de Almeida ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

Afirmam os palestrantes espíritas: os bons espíritos purificados nem sempre são preservados, pois a mandos espirituais superiores voltam a serviço da purificação de outros espíritos que serão reencarnados.  Já os criminosos e golpistas poderão reencarnar uma ou duas vezes e sofrerão as agruras da vida material, bem como de um corpo emprestado até pagarem o que devem. Ao ouvir tais colocações em palestras, voltei à minha infância, a alguns sessenta anos atrás. Morávamos hoje na imaginária fazenda Roncador, beira chão de terras férteis das encostas do riacho Fartura e do córrego Passa Três, onde nasci em berço de ouro, filho de um próspero fazendeiro, criador de gado solteiro e leiteiro. Apesar de garoto, ainda recordo, com detalhes, essas histórias. Era uma tarde, quando papai apartando as vacas leiteiras dos bezerros, e eu em cima do curral assistindo, o sol caindo atrás de uma imensa mata virgem, e chega no curral um desconhecido cidadão com mala e cuia nas costas.  Segundo ele, vinha de Campinas, hoje bairro de Goiânia, procurando trabalho e era o de que mais papai precisava. Além de ter outros peões chamados Daia, João Matapau, Abel e João Tolentino e outras famílias que trabalhavam de agregadas. Como outros peões, o cidadão chegante também dormia na nossa casa e se alimentava com o jantar da mamãe.  Esse cidadão começou a fazer roça e depois das colheitas fazia reformas de chiqueiros, cercas de arame e batia pastos e o preço da empreitada papai aceitava. A cada ano mais empreitadas a preços exorbitantes, e o papai aceitava e ficava devendo ao cidadão, e o cidadão não importava, mas cobrava juros de 10% sobre juros. Então a dívida virava uma bola de neve.  O papai pagava a dívida com alguns alqueires de terras. Esses acontecimentos duraram uns dez anos, mesmo assim, a amizade entre os dois continuava. Mamãe dizia a papai: “esse cidadão vai arrancar os seus olhos e lamber os buracos”. Apesar disso, nos finais de semana os dois pescavam juntos até viraram compadres aqui e ali. E uma cerca das divisas das terras ia se aproximando de nossa casa. O dia em que esse cidadão tomou as terras do papai desonestamente a amizade do papai se desfez. Ao saber que não tinha mais terras, pois meu primo Natalino Caetano aconselhou minha mãe a dar seu gado em troca de dez alqueires de terras. Nessa época morávamos e estudávamos em Mossâmedes, passando por dificuldades por falta de uma boa alimentação. Ai, tomei a decisão que passou pela aprovação da minha mãe, quem ajuntou minhas roupas e as pôs nas costas e me despedi dela, que me disse “vá com Deus”, e segui o caminho do roçado, de onde produzia nossa alimentação. Caminhando e pensando, eu tinha que cuidar, trabalhar a terra e esperar até quatro meses para a colheita. De longe, avistei a nossa bela casa branca e em tapera e silêncio nas imediações, pois faltava o mugir das vacas e dos bezerros, os porcos no chiqueiro e as galinhas nos terreiros, que estavam cheios de mato, onde a minha mãe todos os dias banava o arroz socado no pilão para o nosso jantar. Quanta saudade! Meus olhos marejavam de lágrimas, que pingavam no chão, revoltado, pensava, a culpa é daquele cidadão que enganou meu pai durante dez anos. Apesar de ser um homem adolescente, nada pude fazer. Já escurecendo adentrei a casa e a tuia vazia. Acendi o fogão e uma candeia de óleo de mamona para enxergar o arroz cozinhando, com raiva do cidadão. Com essa raiva, dormir como? Outro dia acordei assustado. Como já tinha amolado o machado e escolhido o lugar da primeira roça, onde colhi vinte sacas de arroz e a amizade do meu inesquecível lavrador Divino Ferreira que me dava abóbora de porco madura para comer com arroz e me ensinou o horário de caçar tatu e o ouriço-caixeiro e armar arapuca para apanhar jaó, pois precisava de uma boa alimentação, mesmo vindo de espécies diversas. Ainda ganhei dele um frango e uma franga para começar nova povoação e o tio Nego me deu uma leitoa amojando. E todos diziam: a culpa é, do cidadão. Até nos mutirões havia gozação. Certa feita, o Braz Torquato, criado do meu avô, a mim ele disse: “Neném, passe sangue de morcego no rosto; que nasce barba e aprenda a pitar que você vira homem”. Assim terá coragem de dar uma surra no cidadão que cortava o arame da cerca de nossa divisa para seu gado comer da minha roça”. Ele queria ainda passar a camioneta por cima da minha roça mudando o lugar de uma cancela. Então, voltei a cancela ao seu lugar e mandei-lhe um recado que eu o estava esperando a mudar de novo a cancela. Só sei que até hoje não o vi, ou desencarnou e voltará reencarnado para pagar o que fez com meu pai. Como também fui vítima, como voltarei à reencarnação?

 

(João Caetano de Almeida, lavrador, ambientalista, ativista, incentivador das mangueiras nas praças. Criador dos Bosques Cajueiros I, II e III e o quarto em formação na BR-153, entrada de Goiânia)

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