Opinião

A virtude, a fortuna e a herança da dominação carismática

Maurício Frozaglia ,Especial para Diário da Manhã

diario da manha

 

De forma que não se faz possível compreender e narrar todas as demandas e sentidos que se expressaram nas recentes manifestações, proponho aqui uma análise pontual sobre dois conceitos políticos úteis para o entendimento e a avaliação dos recentes acontecimentos. O primeiro deles faz referência à questão da virtude e da fortuna abordada por Maquiavel. O segundo refere-se às características e consequências da dominação carismática descritas por Max Weber.

Em O Príncipe, Maquiavel discorre sobre os principados novos que se conquistam com armas e virtudes de outrem. Esses novos príncipes teriam um difícil governo por sua legitimidade estar associada a quem lhe concedeu o poder. Faltar-lhes-ia a sabedoria e a capacidade política para manterem-se no poder. Se nunca governaram, não seria razoável conceber que saibam comandar com a força e virtude necessárias.

O que torna Maquiavel um clássico é sua arte de descrever as atividades políticas como elas são e não como deveriam ser. A analogia pode ser feita com a eleição de Dilma Rousseff, viabilizada pelo carisma de outrem, o ex-presidente Lula. Governar o País mostrou-se uma tarefa mais difícil do que vencer a eleição. Por essa perspectiva, alguns dos problemas enfrentados pela presidente residiriam na falta de virtude própria. Ausente a virtude, o governante depende então da fortuna, que, segundo Maquiavel, é extremamente volúvel e instável. São poucos os que conseguem aliar virtude e fortuna. Não há como governar sem a maioria no Congresso. Conquistar e mantê-la exige mais do que ministérios e cargos, exige uma virtude que a presidente e sua equipe mais próxima não demonstram ter. O descompasso com o Congresso, desde o início do segundo mandato, é emblemático.

O outro conceito, complementar ao primeiro, reside nas características da dominação carismática tratadas por Weber, fundamentadas na crença dos seguidores a respeito das qualidades excepcionais de um líder, expressando-se em obediência e devoção. A presidência de Lula assentou-se, muitas vezes, nessas fortes ligações subjetivas. Em geral, governos populistas apoiam-se nessa forma de dominação (exemplos históricos são abundantes na América Latina). Não se trata da simples manipulação de uma parcela da população, mas da construção do equilíbrio entre políticas de inclusão das classes carentes (outrora marginalizadas) e as forças econômicas predominantes.

A dominação carismática, valendo-se da ligação emotiva, expressa-se como paixão, diminuindo (senão excluindo) a racionalidade no debate político. Apoio e oposição manifestam-se passionalmente. Não há debates: há defesas e ofensas. Como substituta, escolhida pelo líder carismático, Dilma teve e tem que lidar com as altas expectativas dos seus apoiadores e com a forte repulsa dos seus opositores. Assim, é possível compreender, em parte, a enorme rejeição e a raiva direcionadas a ambos, nas recentes manifestações.

 

(Maurício Loboda Fronzaglia, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, graduado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo –  FFLCH/USP–1997, mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas IFCH/Unicamp–2005 e doutor em Ciência Política pelo IFCH/Unicamp–2011)

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