Opinião

Alugam-se e compram-se mulheres

João Joaquim,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

Muito já se falou nesse mundo, continua a ser falado, hão de falar por séculos e milênios  sobre o tráfico de pessoas. Acho dispensável falar por exemplo sobre o tráfico negreiro. Aquele negócio hediondo de que o Brasil foi o último a renunciar a fazê-lo em fins do século XIX. Isto pelo menos de forma oficial e no papel, quando se transportava os negros da África para outros continentes como se fosse uma boiada. Será que acabou mesmo a escravidão?

É oportuno questionar porque volta e meia somos surpreendidos com notícias de que a compra e venda de gente ainda existe em muitos rincões e outros cantões onde o vento faz a curva ou o Judas perdeu as botas. Quem nos dão conta desse ainda ignóbil mercado, aqui no Brasil, são as delegacias regionais do trabalho(DRT) e o próprio ministério do trabalho. Uma vergonha ainda em pleno século XXI. Quando será que tal crime deixará de existir por aqui e pelo mundo? Mas, deixemos esse repulsivo tipo de comércio de humanos que parece sempre existir e falemos de um outro tipo de negócio que prevalece desde que o mundo é mundo.

Não estou a falar do mercado de crianças, nem da venda de órgãos para transplantes, nem de pais e mães  em algumas plagas do globo que vendem os filhos a preço vil, por questões de cultura e de sobrevivência. Também não quero perder tempo a citar os casos de aliciamento de jovens por fanáticos e terroristas do Boko Haram (Nigéria, Niger) ou do estado islâmico (isis). Meus caros leitores, eu estou querendo me referir ao tráfico de mulheres por pura opção, prazer e livre-arbítrio das próprias mulheres. Se esse tráfico ainda lhes passa despercebido eu quero exortar e esclarecer a todos o quanto ele agora mais do que antes se dá, às escâncaras, para todo mundo ouvir, ver e dele participar se assim o desejar. E olha que tem muita gente que deseja e participa.

Esse mercado de mulheres também não se refere àquele do mesmo gênero da época dos navios negreiros, quando as meninas, moças e mulheres eram também mercadorias de compra e venda por monarcas, ricos, nobres e proprietários de terras e engenhos de cana-de-açúcar. Eu quero falar mais estrita e seletivamente do mercado do corpo das mulheres. Do corpo como um todo ou partes dele. Um bumbum, um rosto, um par de coxas, um par de peitos, ou o aluguel, digo melhor, uma locação para o uso dessas mulheres. Pode ser por uma noite, uma estada em uma hospedagem qualquer, uma companhia para dormir, uma exibição em shows diversos , uma temporada em prostituição em países da Europa, em turismo sexual no Brasil  e coisas do gênero.

Como se dá essa compra e venda do corpo das mulheres? Em tudo, ou quase tudo na vida. Esse comércio ou indústria da mulher não se dá apenas nos shoppings e lojas de sexo e erotismo que existem em todas as cidades. Ele se faz em quase todas as utilidades e futilidades da vida social e comercial.

A questão se estabelece mais ou menos assim: tem uma indústria de escova de dentes e do creme dental, como se faz para vender mais. Simples, coloca uma mulher pelada e com ótimos dotes físicos fazendo uso do produto. Aí tanto a mulherada como os homens vão consumir mais aquele produto. As mulheres consumidoras vão comprar mais aquela marca porque querem parecer com aquela bonitona da estampa. Já os homens vão preferir mais aquela escova e aquele dentifrício, porque sentem mais revigorados na sua libido. Ou seja puro erotismo e sensualidade. No caso de marcas de pneu. O que tem a ver pneu de automóvel com corpo de mulher? É o mesmo espírito da escova de dentes e dentifrício. Andar sobre dois ou quatro pneus que lembram uma mulher nua e bem siliconada traz a sensação de mais sucesso, mais energia e de mais performance seja na cama, mesa ou banho.

O que tem a ver produtos alimentícios com mulher de biquíni ou em trajes sumários? A princípio parece que não há nenhum nexo ou sexo  nas relações. Mas, as fábricas de alimentos acharam uma proximidade muito grande. Se bem que em nossos gestos de comer, os publicitários dessas propagandas devem empregar um princípio metafórico ou metonímico. Bem, pode parecer meio obscura esta última frase. Seria aquela mútua troca de sentidos da parte pelo todo ou do conteúdo pelo continente. No caso de uma caixa de biscoitos de maisena por exemplo, se as bolachas não são lá muito apetitosas tem o consolo de uma nua e bela mulher no rótulo.

Agora se tem dois setores onde se empregam as imagens do corpo das mulheres em abundância são a moda e os esportes em geral. Roupas e calçados. Haja o emprego de figuras femininas. Numa partida de futebol, pugilismo, UFC, MMA ou artes marciais, como se abusam das peladonas como atração para o público masculino. Porquanto no octógono, os lutadores parecem canibais. São socos, bofetões, coices de fazer inveja a qualquer asno ou cavalo. Pelas regras só não vale usar os dentes nem morder as orelhas do adversário. Como lenitivo para gladiadores e público têm as mulheres peladonas que desfilam nos intervalos dos rounds. Certamente a exibição dessas mulheres em poses e trajes muito eróticos vai aguçar ainda mais o apetite canibalesco dos contendores. Vence a luta quem for mais canibal. Detalhe, o vencedor só não dá os chutes e socos mortais (de misericórdia) porque nessa hora tem um mediador (que chamam de juiz, que ironia) e impede o massacre mortal do perdedor.

Nos shows artísticos e musicais os mais diversos abundam (sem trocadilho) as participações das mulheres seminuas. E aqui a figura feminina vale mais quanto mais atrativas forem sua intimidade (peitos, coxas, bumbuns) e sua dinâmica e gestos nas coreografias de apresentação (dança, rebolado, strip-tease). E como arremate é oportuno e justo que realce que todo esse tráfico e negócio envolvendo a figura feminina se dá com a absoluta e o livre-arbítrio delas, mulheres, que têm nesse mercado um jeito fácil e livre de sobreviver e ganhar dinheiro. Não perdendo de consideração também que existem todo um engodo, um marketing e aliciamento de quem explora este negócio envolvendo as candidatas. São os caftens ou os rufiões  dos tempos modernos, que se passam por empresários de fachadas; mas no fundo mesmo são exploradores de mulheres. E isto não se dá apenas no Brasil, é um negócio do mundo. Só mesmo os humanos! Maio/2014.

 

(João Joaquim – médico – articulista DM [email protected]www.jjoaquim.blogspot.com)

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