Opinião

Amor, você deveria ficar

João Moreno,Especial para Diário da Manhã

diario da manha

 

Jeff Buckley toca em seu fone de ouvido. Ele canta. Susurra. Inspira. Diz, de forma eloquente, sobre o amor. Sobre como seu amor deveria ficar. Como uma fagulha, a música incedeia suas memórias. Esquecidas. Não tão esquecidas assim. É levado então às páginas perdidas de um livro. Seu favorito. A um momento tão único. Tão dele. Deles.

Uma música. Uma iminente despedida. Um poeta cantando sobre o amor enquanto duas pessoas o redefiniam. Um tocar de lábios. Ascensão ao paraíso. Alcance do Nirvana. Uma lembrança. E ele tenta, em vão, escrever aquele momento tão singelo. Puro. Falha. Falhará infinitamente ao tentar descrever o que superara o conhecido por felicidade.

Falhará com um sorriso gravado em seu olhar. Nos cantos de seus lábios. Afinal, por infinitos breves segundos, reviveu. Revivera aquele beijo doce. Tão doce que não pretendia enjoar. Aquele beijo. Seguido da fusão de almas. Do sussurrar de palavras. De poesias. Do abraço que ela tanto adora receber. Que ele tanto distribuir. Para ela. Apenas ela. E eles se olham. Música continua. Tocando-os de forma jamais percebida. Se olham novamente. Olhares que refletem amor. Um incomensurável amor. Desejo. Desejo de estar todos os próximos infinitos momentos apenas sentindo. Sentindo-a. Refletem. Sorriso. Sorrisos que não cabem num rosto angelical. Perfeitamente desenhado. Delicadamente desenhado. Ele a segura. De forma firme. Gentil. Queria dizer tanta coisa. Talvez gritar. Dizer tudo aquilo que está preso dentro de si. Felicidade que chega a machucar. Aquele êxtase de ouro. Não diz. Não dizem. Pois o que sentem ainda não foi possível traduzir neste idioma. Em qualquer outro. Um sorriso se aflora no canto daqueles lábios. Aquele sorriso que ele prometera a si ser o responsável todos os dias. Até o fim. Além do fim. Novamente se beijam. E como da primeira vez. (Re)Descobriram o amor. Jeff Buckley susurra em seus ouvidos. Sentem as lágrimas de cada um. Do outro. Quentes. Acolhedora. São transportados para um universo paralelo. Uma realidade perfeita. Onde só existe ela. Ele. Eles. Amor. Começam então a dançar. Levados pelo som de uma música. Mais que “apenas” música. Levados pelo som de suas vidas. Pelo som do beijo. De encaixe perfeito. E ele a segura. Abraça-a. Aperta-a. Protege-a de tudo. Todos. Passam-se dez. Quinze. Vinte segundos ou talvez mil anos. É difícil quantificar o tempo quando vivam no amor. Separam-se. Olham-se. Como na primeira vez. (Ele) se perde em seus detalhes. Afoga-se em tamanha beleza. (Re)Descobre Deus. O Divino. Supremo. Em seu paraíso particular. Ela. Novamente se apaixona. Apaixonam. E no refrão final, Buckley afirma. “Amor, você deveria ficar”. Se despedem. Dão às costas um ao outro. Às costas a felicidade. Ficam então com a certeza. Buckley, poeta, estava certo. Ela deveria sempre ficar.

 

(João Moreno, escritor)

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