Opinião

Cidade x sertão

Liberato Póvoa,Especial para Opinião Pública

diario da manha
M3365P-4503

 

Como dizia meu saudoso amigo e mestre Carmo Bernardes, não se pode conceber uma casa de interior sem o pilão de pilar paçoca e socar café; o tacho de cobre bem areado pra refinar açúcar-da-terra e fazer doce de buriti; o forno de cupim numa meia-água lá fora para assar o bolo-de-arroz, a puba e o biscoito-de-galho, e mesmo a panela de ferro cascuda para se torrar café com tolda.

Não se vá chegar ao extremo de dispensar a geladeira, o fogão a gás, a TV e outras utilidades que vieram trazer conforto à dona de casa.  Mas hoje em dia é até sofisticação ter-se um pilão de pequizeiro, um tacho de cobre, um quibano ou uma peneira de taboca, uma colher-de-pau feita de gameleira, uma panela de barro ou uma gamela. Mas nós só vemos essas utilidades transformadas em adornos, espalhadas pela casa ou dependuradas pelas paredes.

O povo da cidade grande, às vezes até com raízes no interior, teima em negar suas origens, fazendo-se de desconhecedor. Um verniz de civilização foi o bastante para que ele tenha aderido aos pratos modernos, às maioneses, desprezando o tutu com torresmo, o arroz corri linguiça, o palmo e meio de carne de gol assada na brasa e o frango caipira com quiabo gosmento.

Quem, no entanto, nunca viveu numa cidadezinha do interior; quem vegeta nesta selva de pedra sem jegues carregando água nos barris enganchados nas cangalhas, sem andar de pés no chão apanhando caju e puçá no chegar das primeiras águas, não sabe o gosto do doce de leite visguento, cheirando a curral, apurado no tacho de cobre sem se mexer; o pé-de-moleque feito com gergelim torrado, levando uma cabeça de rapadura para dar o ponto certo; uma panelada de feijão com toicinho (com couro e tudo) deixada de molho de um dia para o outro e cozida na lenha numa panela de barro.

Não pode dizer que viveu quem não comeu um prato de paçoca de carne seca do sertão, preparada com pimenta-de-macaco, pegando sete dias de sol e sete de sereno, pilada no pilão com farinha de mandioca, cebola e cheiro verde; não pode dizer que viveu quem não tomou água com a concha da mão ou fazendo das folhas copo num córrego sossegado e gorgolejarite com a água tinindo de fria; não pode dizer que viveu quem não bebeu a escuma doce e sustanciosa, ainda quente, do leite cru, ao romper do dia, quando o galo, o despertador do sertão, acorda o mundo para um novo dia.

Não é que eu abomine as novidades ou faça parte de mal-agradecido com todas as benfeitorias do progresso, mas o furor da indústria e a ganância do lucro estão estrangulando o pouco que ainda existe com cheiro de Brasil. O império dos enlatados e dos embutidos está acabando com tudo. A frieza do computador já assinou a sentença de morte de todos os costumes seculares, como o do fiado pro fim do mês, trazendo atrás de sua pretensa infalibilidade, a frieza de novas atividades sem um mínimo de sabença.

Foi-se embora a filosofia do povo.

Mas é a vida. Aliás, nem sei bem por que estou aqui a desabafar pregando no deserto e, ainda por cima, cutucando feridas de reminiscências, pois o tempo bom é o que se foi, tempo de paz, espírito desarmado contra tudo e contra todos. Hoje, se a gente quer viver, tem é que adotar o “si vis pacem, para bellum” (“Se queres a paz, prepara para a guerra”), porque a coisa anda é feia, medonha, principalmente para nós, indefesos consumidores, que somos o para-raios que recebe todas as cargas e recalques dos grandes produtores e lhes pagamos os impostos, tostão a tostão.

O pior é que se a gente, por acaso, puxado por um saudosismo repentino, tentar voltar para o interior, acaba é decepcionando-se com a invasão das inovações, com tudo quanto existe de novidade, como os produtos de última geração, a internet e outras porcarias que acabaram aposentando as velhas e saudosas radiolas, e até analfabetizando-nos: ninguém sabe mais fazer uma conta de dividir por ou de diminuir, porque as calculadoras nos ensinaram a não raciocinar; o e-mail sepultou as cartas que a gente botava no correio e, lá no destino, ia para a posta-restante, onde era buscada pelo destinatário, pois forante os estafetas que levavam correspondências entre cidades, nem carteiro havia.

Resta-me o consolo de ter tido a oportunidade de gozar uma infância sadia andando a cavalo e comendo fruta do chão, sem lavar ao menos, enquanto o pessoal daqui fica só com a notícia do que de bom existia por lá.

Podem até dizer que é mentira, que isto nunca existiu, mas – por esta luz que está alumiando! – ainda estou com o gosto das coisas rústicas que provei durante os tempos irresponsáveis de menino montando num jegue em pelo e caçando passarinho sem compromisso e hora de voltar pra casa.

 

(Liberato Póvoa, [email protected] (Desembargador aposentado do TJ-TO, escritor, jurista, historiador e advogado))

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