Opinião

Encontro de amigos – Dr. Luiz Rassi e H. Moreira

Helio Moreira ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

 

Semana passada, como acontece com muita frequência, visitei meu amigo Dr. Luiz Rassi em seu apartamento aqui no Setor Oeste; conversamos, como das outras vezes, sobre uma gama variada de assuntos, especialmente sobre a nossa profissão de médicos.

Falamos sobre a falta que o nosso amigo comum, Dr. Joffre Marcondes de Rezende, nos faz, lembramos das suas últimas semanas de vida quando, muitas vezes, coincidia nosso horário de visitas ao mesmo e tentávamos, os dois, transmitir-lhe palavras de encorajamento e, principalmente, expressávamos a ele nosso carinho.

Dr. Luiz relembra que conheceu o Dr. Joffre no segundo semestre de 1954, pouco tempo depois dele, Dr. Joffre, vir para Goiânia; no primeiro encontro (Dr. Joffre foi fazer uma visita de cortesia ao “Hospital Dr. Rassi”, de propriedade dos irmãos Drs. Alberto e Luiz) já sentiram mutua empatia e que o tempo transformou este sentimento em sincera amizade.

Dr. Luiz fala, até com certa emoção na voz, daqueles tempos em Goiânia, quando os profissionais da medicina careciam de instrumentais, medicamentos e aparelhos mais “modernos” para atender os seus pacientes (Goiânia tinha, na época, uma população estimada em cerca de 90 a 100.000 habitantes).

Para desanuviar o ambiente, contei-lhe um fato hilário acontecido entre o Dr. Joffre e o Dr. José Peixoto da Silveira, na época Secretário da Saúde no governo de Mauro Borges, que o Dr. Joffre me contou, na ocasião em que eu preparava a redação da sua biografia, transcrevo o que ele me disse:

“Conheci Peixoto da Silveira quando eu trabalhava na Divisão Técnica da Secretaria da Saúde; era uma pessoa simples e educada e, no cargo, centrou sua administração na resolução dos problemas que surgiam com a assistência médica do interior do estado.

No início do governo de Mauro Borges, tive o privilégio da sua convivência mais próxima, quando trocávamos ideias sobre alguns projetos que estavam sendo desenvolvidos, tendo sido convidado para ajudá-lo a elaborar o Plano de Saúde do Governo; neste plano, segundo sua diretriz, foi dado ênfase ao Serviço Itinerante de Saúde; faziam-se, um médico e um enfermeiro, visitas periódicas a pequenas cidades do interior, utilizando um avião teco-teco como meio de transporte, quando se davam consultas médicas e distribuíam-se medicamentos gratuitamente, principalmente vermífugos, antianêmicos e pomadas para tratamento da sarna.

Os comprimidos antianêmicos possuíam duas cores diferentes, rosa e azul; se usar a mesma cor para ambos os sexos, os homens não tomam o remédio, ensinava ele; a bula do remédio para sarna trazia o modo de usar: 1) tomar um banho pela manhã e só depois usar a pomada, 2) fazer o mesmo durante três dias seguidos, 3) continuar tomando banho pela manhã durante 30 dias; ao ser questionado do por que estes banhos por mais 30 dias, esclareceu – Depois de 30 dias a pessoa vai descobrir que é muito melhor andar limpa.

Era assim Peixoto da Silveira. Até nas pequenas coisas demonstrava a sua inteligência e argúcia, conclui o Dr. Joffre, acrescentando: Minha admiração por Peixoto da Silveira era tamanha que me levou a escolher o seu nome para patrono da minha cadeira na Academia Goiana de Medicina, a de número 7.”

Como não poderia ser diferente, demos boas risadas pela inventividade do Dr. Peixoto e o Dr. Luiz, de imediato, se lembrou de outro acontecimento, também hilário, envolvendo o Dr. Peixoto, agora no governo do Dr. Pedro Ludovico, o qual, resumidamente, transcrevo para os leitores:

Dr. Luiz era o Presidente da Associação Médica de Goiás e a classe médica estava em “pé de guerra” com os curandeiros e ele, como Presidente da entidade, era o escoadouro destas manifestações; procurou ajuda junto ao seu amigo Dr. Peixoto da Silveira, no sentido dele levar ao conhecimento do g overnador estes reclamos e o Dr. Pedro, após ouvir o relato, se viu em dificuldades, porque este pessoal, que tinha muita força política junto ao “povão” , era seu cabo eleitoral.

Após pensar um pouco, Dr. Pedro sugeriu que se fizesse uma reunião entre a classe médica e os curandeiros, intermediada pelo Dr. Peixoto, alertando-o, no entanto, que convidasse no máximo dois a três curandeiros (se for muita gente, disse Dr. Pedro, eles ficam muito fortes e aí fica mais difícil solucionar o problema) e tente apaziguar a situação.

No dia aprazado, compareceram os três curandeiros, mais o Dr. Luiz Rassi, Dr. Rodovalho Dominice, Dr. Aldemar Câmara e Dr. Eduardo Jacobson, além do Dr. Peixoto, que falou em primeiro lugar: “O Dr. Pedro está sofrendo uma grande pressão dos médicos e vocês, que são seus amigos, não podem deixá-lo sofrer sozinho por defendê-los, acho que vocês deveriam ‘maneirar a barra’ e deixarem de fazer propaganda dos seus resultados, pois como vocês sabem, nós, médicos, estudamos muito e mesmo assim costumamos errar, então vocês têm muito mais chances de errarem e se isto acontecer e os médicos fizerem uma denuncia na justiça contra vocês, o governador não poderá ajudá-los.”

Dr. Luiz também falou: “Olha meus amigos curandeiros, os médicos goianos estão sofrendo uma grande pressão da nossa entidade central do Rio de Janeiro para ‘apertá-los’ por aqui, não gostaríamos de fazer isto, porém, seremos obrigados , se vocês continuarem tão agressivos na propaganda dos seus feitos e desrespeitando a lei …”

Quando estava terminando o encontro, um dos curandeiros, que trajava, de maneira acintosa, um avental que chegava, em comprimento, junto aos seus pés, pediu a palavra e prometeu que iria conversar com os companheiros para não prejudicarem o Dr. Pedro e em seguida, tirou do bolso do avental um maço de folhas de alguma planta e disse ao Dr. Peixoto.

– Se o senhor tiver oportunidade, experimente mandar fazer um chá com estas folhas e receite para algum paciente seu que esteja sofrendo dos rins, garanto que o resultado será muito bom.

Após sonoras gargalhadas, todos saíram da reunião com a sensação de que os médicos políticos carismáticos, como eram o Dr. Peixoto e Dr. Pedro e o Dr. Luiz, sempre vencerão os embates, por mais difíceis que sejam.

 

(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)

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