Opinião

Ensaio sobre a estupidez

Rafael Ribeiro Rubro ,Especial para Opinião Pública

diario da manha
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Desde que nasci, fui aprendendo com a família e com as pessoas que me cercavam, na minha pequena cidade do interior, e fui aprendendo com a vida que tinha que amar as pessoas. Ou, pelo menos, tinha que aprender a amar as pessoas. Porque amar tanto se concebe na atitude mais positiva, intensa e intestina da prática do amor no seio da família e com os amigos, como se concebe também na atitude do respeito, da gentileza, do trato carinhoso e cortês à pessoa mais desconhecida que seja, com quem talvez tenhamos um único contato em toda a vida e que talvez nunca mais vejamos.

Amar as pessoas é tão vital como respirar, como beber água, como nos alimentar. É uma necessidade quase biológica. Mas mesmo que não fosse uma necessidade dessa estirpe, quero frisar a necessidade espiritual que envolve essa reentrância da vida, que é amar o próximo. Algo que se encontra na essência, no cerne, no âmago da nossa humanidade, do nosso ser humano. Assim que amar as pessoas é vital para que o espírito respire, para que a alma beba água, para que o profundo do nosso ser se alimente. Inclusive os sábios dirão que aí reside dos maiores pilares da verdadeira felicidade. Dirão que ser feliz de verdade é amar alguém, o que também significa fazer alguém feliz.

Respiramos, bebemos e comemos para viver, para a manutenção da vida. Também amamos para viver, pois assim estamos tratando bem do nosso espírito, que se alimenta e se alegra com os maiores gestos de ternura, assim como, não raro, com as menores ações de amor.

Uma semente só germina sadia se for regada e tratada com carinho. E só virará broto e só se tornará árvore frondosa e só renderá bons frutos se for tratada com amor, se em sua raiz forem colocados bons adubos. Do mesmo modo, uma pessoa só cresce no amor se a semente do amor for regada e tratada com carinho em seu coração. E essa semente só virará broto e só se tornará árvore frondosa e só renderá bons frutos se for tratada com ternura, se em sua raiz forem depositados bons adubos.

Coloco-me diante do hoje. Olho apenas para o hoje e converso com ele sem pretensões de doutrina e autoridade, até mesmo não me importando se algo sempre foi assim ou se a conversa não é nova, lugar-comum. Apenas faço uma conversa franca de abrir a ele o que sinto, livre, sem catecismos, em razão da simples necessidade poética e humana de expressar-me.

Vejo hoje que muitas pessoas não estão cultivando o amar as pessoas. Muitas pessoas no mundo inteiro não estão amando seu próximo. Assim é que muitos irmãos não estão crescendo no amor, pois não estão regando a semente e tampouco a tratando com carinho em seu coração. Essa semente vai, assim, se atrofiando. E se havia incipiente broto de amor, é sufocado. Doutro lado, a semente do ódio, do desrespeito, da intolerância, da rispidez, encontra campo fértil para crescer nos corações que não cultivam o amor. E essa semente vira broto e se torna árvore e rende frutos, tudo de ódio. E os inúmeros galhos dessa árvore vil, horrenda, abjeta, vão tomando conta do ser, a ponto de se naturalizarem os atos de ódio, a ponto de se ver como normal a estupidez humana – e o que me preocupa – a ponto de se enaltecer a estupidez, louvar a grosseria, exaltar o desrespeito, bendizer o desamor. E essa árvore cresceu então no lugar onde deveria vicejar uma linda árvore, outra árvore.

O trato está seco. O coração está cego e frio, mesmo sob 40º. O dinheiro sempre à frente, o império das máscaras, as ordens irresistíveis do ego não adubam com carinho a semente do amor. Adubam com ódio, adubam com intolerância, impaciência, antipatia, escárnio ao irmão humano ao seu menor deslize ou à menor diferença.

Pessoas espancam pessoas por mera rivalidade futebolesca. Pessoas fazem talhos na cara de pessoas e arrancam tampos das cabeças de pessoas por isso. Pessoas matam pessoas por isso. Pessoas se irritam com pessoas por causa duma seta errada ou duma parada equivocada no trânsito ou por um acidente, chegando a dar porradas em pessoas. Pessoas matam pessoas por isso. Pessoas exageram no uso do poder de polícia, abusam da força conferida pelo Estado, e espancam, atiram sem necessidade, jogam bombas de efeitos moral e imoral, agridem com truculência pessoas sem culpa ou sem defesa, que protestam por seus direitos, pessoas que se manifestam democrática e pacificamente para não perder direitos, pessoas que, às vezes, são até professores. Pessoas matam pessoas por isso. Pessoas roubam bilhões de uma nação, deturpam a nobreza de que deveria ser constituída a política, roubam da segurança, da saúde, da educação do seu povo. Pessoas matam pessoas por isso. Pessoas humilham pessoas em seu local de trabalho, usam de arrogância, prepotência, xingamentos desfilam infames à farta, prepondera o assédio moral. Pessoas matam pessoas no trabalho. Pessoas não toleram pessoas por suas escolhas de toda ordem. Pessoas não aceitam pessoas por exercer seu livre arbítrio, por conduzir com liberdade as rédeas de suas vidas. Pessoas não respeitam pessoas por suas opiniões, por suas ideias, pela livre manifestação do pensamento. Pessoas matam pessoas por suas ideias. Pessoas troçam, agridem, torturam e matam pessoas por suas religiões. Pessoas reverenciam o mercado, a grana, as compras, e deturpam as belas essências da Páscoa, do Dia das Mães, do Natal, e ignoram e ultrajam os sentidos, e destroem o cerne fazendo de tudo ovos, de tudo caixas, de tudo cascas. Pessoas morrem por falta de essência, por falta de amor. Pessoas viram coisas. Coisas viram as pessoas. Coisas dominam as pessoas. Pessoas morrem por isso. Pessoas escarnecem pessoas por suas origens, seja de origem pobre, seja de origem favela, seja de origem do interior. Pessoas matam pessoas por suas origens. Pessoas têm milhões para gastar por dia até os cem anos, enquanto pessoas não têm um milho para comer, enquanto pessoas mourejam duríssimo horas por dia para ganhar um salário mínimo desprezível. Pessoas morrem por causa das desigualdades. Pessoas veem pessoas com outros olhos por causa das cores das peles e dos cabelos, e desrespeitam e maltratam e menosprezam. Pessoas ainda matam pessoas por causa das cores com que cada qual nasceu pintado. Pessoas alunas cospem, achincalham, espancam professores em sala de aula. Pessoas matam pessoas em sala de aula. Pessoas desaprendem a conversar, desaprendem a resolver seus problemas pelo diálogo, ignoram o bom senso. Pessoas processam pessoas por qualquer bagatela. Pessoas matam pessoas por briga dos seus cachorros. Pessoas do Estado processam e prendem quem furta pão para matar a fome dos filhos. Pessoas do Estado (raramente) processam, mas não condenam, se condenam não prendem pessoas do Estado que assaltam o dinheiro sofrido do povo, suado do povo, lutado do povo, e se prendem, logo concedem ou habeas corpus, ou progressão de regime, ou indulto, ou prisão domiciliar. Enquanto isso, pessoas pobres que já fazem jus a sair da cadeia, lá apodrecem, aguardando ad aeternum a Justiça que tarda e que falha. Pessoas morrem por isso. Pessoas jogam lixo nas ruas, nas matas, nos rios. Pessoas matam animais, plantas, florestas, poluem rios, poluem terras, poluem ares. Pessoas matam a natureza e matam pessoas por isso – pois que somos natureza. Pessoas dão cinquenta tiros em pessoas. Pessoas dão tiros em pessoas, dão facadas, dão chicotadas com o azorrague e com a língua. Pessoas matam pessoas. Matam o corpo. Matam a alma em corpo vivo.

E vivemos na era dos sabidos. Todos são sabidos em tudo. Todos têm a razão de tudo. Todos são bons em tudo. Mesmo diante de todas as torpezas destes tempos, todos nunca foram senão príncipes e princesas na vida… O hino desta era está no “Poema em linha reta” – ressalvada a ironia deste título para nossos dias… Álvaro de Campos se surpreenderia com os semideuses de hoje. A sutil diferença é que ele nunca conheceu quem tivesse levado porrada, e hoje tudo se resolve com porrada na cara. Na cara da cara e na casa de dentro. E uma era de tantas tecnologias, de tantas evoluções, de inúmeras possibilidades. Uma era de tanto conhecimento científico e acadêmico, mas que, muito paradoxalmente, parece confundir-se com uma era de ignorância do espírito, de analfabetismo do amor, de anencefalia da humildade.

E vivemos na era dos carentes. Um tempo em que os que não têm acesso às condições dignas de vida e às tecnologias, ficando à margem da sociedade e da famosa globalização, estão carentes de mais oportunidades e de efetivação dos seus direitos fartamente assegurados nos papeis das leis. E um tempo em que os que têm abundante acesso às condições dignas de vida e às tecnologias, totalmente dentro da sociedade e da famosa globalização, estão carentes das coisas essenciais do espírito, as que realmente importam e, no fim das contas, sobrepõem-se às frivolidades e efemeridades do mundo, tão frágeis.

Nunca se viu tanta carência e tanta ostentação ao mesmo tempo. Aliás, jamais se viu um tempo de tanta ostentação. E da pior espécie: a ostentação do inostentável. A veneração da desonra. A jactância das baixarias. O triunfo das nulidades, no dizer de Rui Barbosa. A pompa e a soberba tirânicas das cortes absolutistas perdem feio para a mesquinha ostentação de hoje. Ostenta-se muito, mas é pouca a ternura.

Nada nos dias hodiernos pode sair do politicamente correto – ainda que na realidade cruenta e escancarada assim não o seja. Pois as máscaras da hipocrisia são veneradas. E assim é que todos se ofendem muito facilmente. Toda a moral é abalada. Jamais se viu e viveu um tempo em que as imoralidades exigem tanto respeito à sua moral. Os maiores deturpadores da ética são os que mais exigem respeito, são os que têm os escrúpulos mais à flor da pele. Os mais graduados patifes são os primeiros a invocarem com veemência a defesa ao seu decoro inviolável. Têm os melhores – ou piores – malandros a decência mais sagrada. Aliás, não pode faltar no hinário desta era os versos de “Por consoantes que se deram forçados”, muito maviosos ao caráter dos nossos dias, em que Gregório de Matos contunde: “Neste mundo é mais rico o que mais rapa:/ Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;/ Com sua língua, ao nobre o vil decepa:/ O velhaco maior sempre tem capa./ Mostra o patife da nobreza o mapa: Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa:/ Quem menos falar pode, mais increpa (…)/ A flor baixa, se inculca por tulipa:/ Bengala hoje na mão, ontem garlopa:/ Mais isento se mostra o que mais chupa (…)”.

Tudo hoje avaria a moral. De modo que todos querem propor ações por danos à moral perante o Judiciário abarrotado de perlengas ínfimas, sem sentido, enquanto demandas há décadas rastejando frangalhadas não recebem qualquer resposta da Justiça. Aliás, a moral tem sido deveras mais atacada? Ou está mais fraca a moral?

O melindre ganha status de sagrado e todos possuem uma moral sagrada e incorruptível (muito embora assim não a possuam todos deveras). Mas o esforço é insignificante para impedir a língua de desferir seus golpes e suas vilezas. As pessoas se ofendem muito facilmente. Mas não empenham o menor esforço para não ofender. Sentem sua moral muito lanhada a qualquer arranhão, mas não hesitam em malferir de morte a dignidade de um patrício. É desprezível o esforço para conter vitupérios e palavras de intolerância. Os ouvidos são supersensíveis ao que entra, mas a língua é insensível ao que sai.

Os professores já não têm mais autoridade em sala de aula. Os pais sem tempo para seus filhos não os educam, e passam mais essa função para os professores, que não são valorizados no mínimo que merecem – não são valorizados –, e ainda têm que aguentar toda a sorte de ignomínias de alunos, de pais, de patrões, da sociedade, do Estado.

Parece que o coração ficou estagnado. Parece que o coração se subdesenvolve à medida em que se desenvolvem as tecnologias, os aparelhos eletrônicos e a infinita gama de apetrechos e parafernálias da internet. Ficaram muito vidrados nas postagens e na compra de um smartphone novo a cada mês, e se olvidaram de colocar óleo lubrificante nas engrenagens do coração. Lubrificante do coração que se chama amor.

Será que cogitaram que o avanço estratosférico das tecnologias causaria nas pessoas endurecer o sentimento?

O que me alivia é que o Pessoa não matou pessoas – no máximo, deu umas boas bofetadas no espírito… Quero dizer, dá ainda, sempre dará…

O que me alivia é que amar as pessoas é tão vital como respirar, como beber água, como nos alimentar. É que as pessoas são o melhor que existe.

Alivia-me que amar tanto se concebe na atitude mais positiva, intensa e intestina da prática do amor no seio da família e com os amigos, como se concebe também na atitude do respeito, da gentileza, do trato carinhoso e cortês à pessoa mais desconhecida que seja, com quem talvez tenhamos um único contato em toda a vida e que talvez nunca mais vejamos. O que me anima é que hoje amanheci com um sol lindo, cheio de brilho e luz, e que hoje dei vários bons-dias, muitos sorrisos e recebi outro tanto. E me alivia que Louis Armstrong ainda canta “What a Wonderful World”, falando que “As cores do arco-íris, tão bonitas no céu/ Estão também nos rostos das pessoas a passar” e que “Eu vejo amigos se cumprimentando, dizendo: ‘Como vai você?’” quando “Eles estão realmente dizendo: ‘Eu te amo’”.

Creio que um ensaio sobre a estupidez poderá dar lugar a um ensaio sobre a ternura.

Outra coisa que me alivia – nem sei se deveria concluir este ensaio desta forma, mas algo me fez tomar este rumo e algo mo impele – é que, apesar de tudo, creio na humanidade, creio na superação dos obstáculos e das mazelas, na evolução do ser, na vitória da vida. E o amor, apesar de tudo, é a força mais poderosa do mundo.

“Vejo hoje que muitas pessoas não estão cultivando o amar as pessoas. Muitas pessoas no mundo inteiro não estão amando seu próximo. Assim é que muitos irmãos não estão crescendo no amor, pois não estão regando a semente e tampouco a tratando com carinho em seu coração. Essa semente vai, assim, se atrofiando. E se havia incipiente broto de amor, é sufocado.”

(Rafael Ribeiro Bueno Fleury de Passos, nome literário Rafael Ribeiro Rubro, advogado, escritor, poeta e cantor. Colaborador do jornal “O Vilaboense”, articulista do Diário da Manhã, Membro da Ovat (Organização Vilaboense de Artes e Tradições), da UBE – Seção Goiás (União Brasileira de Escritores) e presidente da Comissão Permanente de Licitação do Município de Goiás. ([email protected]))

 

 

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