Opinião

Jesus entre aspas

Pedro Nolasco de Araujo ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

Foi numa vila na Chapada dos Buritis, famosa naquele tempo pela fé exaltada de seu povo na padroeira, a Nossa Senhora dos Desconsolados, e pela fé em outros santos e anjos do Senhor. Era um povo rezador, santo e ordeiro. Muito crente. Contam que, não há muito tempo, por lá apareceu um falso pregador, um tal de Idelê, se isso é nome de gente direita, que, ciente da fé arrebatada dos habitantes dalí, se fazia passar de religioso a fim de conquistar a simpatia pública e poder melhor praticar seus golpes e enganar os fiéis. Não bastasse isso, a velhacaria dele, o finório era caído por um rabo de saia. Enfim, bilontra e finório. Nem respeitava mulher casada nem moça com promessa de casamento no dedo. Mal uma passava, Idelê se assanhava todo e seus olhos luziam, faiscavam que nem brasa. A igreja em que Idelê oficiava seu culto, era frequentada por Rosilda, bonita e gostosa de doê, mas moça muita direita e rezadeira. Agarrada aos santos preceitos do Evangelho e a uma vida reta e ordeira. Uma santa! Apesar de bonita e gostosa. Idelê logo se encantou profundamente com a moça e passou a desejá-la ardentemente. Nem dormia mais de tão aceso. Mas Rosilda nem por sombra sonhava e suspeitava disso. Ah se suspeitasse do pastor! Dava-lhe um coice ou coisa pior. Um dia, por sorte, ou azar dela, Rosilda se aproximou em particular de Idelê, a fim de pedir uma orientação espiritual, e disse:

“Ah, pregadô, preciso duns conselho seu, faz pra mais de quatro anos que namoro um rapaz rico, o Nhozinho, daqui mesmo da região da Chapada, trabalhador como quê, uma fera, do qual meu pai faz muito gosto pra me casá, sabe, e apesar de todo esse tempo, nada de casório. Nem promessa disso. Nem sei mais o que fazê, pregadô. Não posso mais esperar não, porque o tempo vai correndo e vou ficando pra titia.”

“Ah, sei, sei, sei…?”, falou Idelê, o pastor, vidrado no decote dela ? “Mas achei uma solução: deixa a janela do seu quarto aberta, que hoje, lá pela meia-noite ou uma hora, Jesus vai te visitar pra mode te dá uns conselho; te dá uma orientação espiritual.”

Rosilda, muito ingênua e santa, que de nada suspeitava, nem de longe, não se conteve em si de tanta alegria, ao que falou o pastor, e foi correndo contar tudo ao pai dela, João das Candeia, um dos fazendeirões mais abastados dalí daquela Chapada e homem valente de doê, com cinco mortes já na cacunda. João das Candeia, que não era bobo nem nada, sequer ingênuo, mas muito ladino, pois já ouvira uns comentários sobre aquele tal de Idelê, logo desconfiou e achou estranha aquela visita inesperada de Jesus. E pensou: “Ah, aí tem treta! Visita de Jesus ao quarto de Rosilda de madrugada? Essa eu quero vê.”

Disse pois à filha, naquela sua voz de trovão, a ribombar de longe, que até metia medo:

“Jesus na minha casa? Mas isso é uma coisa muito boa, Rosilda! De qualquer jeito, filha, hoje ocê vai dormir no meu quarto com a sua mãe. Deixa que eu mesmo aguardo Jesus chegá, pois tô precisando duns conselho Dele também, mais até que ocê.”

João das Candeia pegou a carabina, vestiu a camisola e a toca de dormir de Rosilda ? Imagine só o valente do João das Candeia de camisola e toca!? E se deitou na cama dela, cobrindo-se com o lençol até o pescoço e lá ficou, aguardando Jesus dar as caras, lá ficou de tocaia.

Lá pela uma hora, João ouviu, do lado de fora, um rumor de folhagem no jardim. Era certamente o gatuno do Idelê que se aproximava.

Mal aquele lobo sarnento e asqueroso pôs os pés no quarto de Rosilda, sedento pra botar as patas dele na massa, melhor, as patas dele na moça, o pai da jovem se levantou da cama, de camisola e toca, e foi dizendo, a trovejar:

“Uai, tô aqui esperando Jesus chegá e é ocê que aparece, seu Idelê? Toma lá, cão excomungado!” E o pai já se apressava a armar a carabina e mandar chumbo, quando Idelê foi mais rápido, saltou por sorte a janela de Rosilda e caiu no mundo.

Contam que Idelê se sumiu dali, da Chapada dos Buritis, pra nunca mais aparecer, muito menos como Jesus.

 

(Pedro Nolasco de Araujo, mestre, pela PUC-Goiás, em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)

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