Opinião

Minhas quartas-feiras com Dr. Joffre

Hélio Moreira ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

Naquela quarta-feira, ao adentrar a porta do apartamento do meu compadre Dr. Joffre, vi que alguma coisa acontecera de diferente, ele, ao contrário do que sempre fazia, não me estendeu a mão para nosso cumprimento; tentou, fez com o rosto sinalização de que estava sentindo dores e disse:

– Ontem me enrosquei no tapete e cai e, ao tentar proteger a cabeça, bati com o ombro no chão, felizmente sem nenhuma gravidade, pois pensei que havia fraturado a clavícula, porém, um médico, meu amigo, examinou-me e deu-me a boa notícia: houve apenas deslocamento do ombro, vou imobilizá-lo por alguns dias e a sua recuperação não será demorada.

Só agora observei que ele estava com uma tipóia ortopédica que limitava seus movimentos e, como sempre fazia, ele perguntou-me:

– Cadê os doces de leite?

Todas as minhas visitas, em todas as quartas feiras, ocorriam após o término da minha reunião semanal no Conselho de Administração da Cooperativa de Crédito – Unicred, onde é servido um lanche, acrescido de doces de leite em pedaços e eu levava alguns destes para Dr. |Joffre.

Durante todo o tempo daquelas minhas visitas ao apartamento do Dr. Joffre, nos seus últimos seis meses de vida, nunca o surpreendi deprimido; embora sua saúde estivesse, dia a dia, se depauperando, sempre me recebia com bom humor e com bastante otimismo a respeito do futuro; naquele dia, no entanto, senti que precisava arranjar um assunto para discutirmos, que desanuviasse a sua inquietude momentânea.

Antes que sugerisse qualquer tema, ele abordou-me:

– Como está o andamento do ensaio que você está escrevendo sobre Freud? Já há tempo não temos conversado sobre o assunto!

– Estou com uma pletora incrível de afazeres e sempre vou deixando para trás a continuidade deste trabalho, por outro lado, acho que o tema, embora excitante, é muito difícil, pois, como você sabe, sobre Freud tudo já foi escrito e a abordagem que estou tentando fazer, como já tive oportunidade de discutir com você, penso que será um pouco inovadora: situar o homem Freud na sua convivência com o Império Habsburgo da Áustria.

– Acho o tema empolgante, estive lendo nesta semana que passou, alguma coisa sobre o Imperador Francisco José I, um dos reinados mais prolongados da história, disse o Dr. Joffre, dando-me a oportunidade de falar-lhe sobre as minhas pesquisas, assunto, pelo que senti, amainaria seu estresse.

– Joffre, Francisco José I, como você sabe, assumiu as rédeas do governo do Império, logo depois da revolução de 1848 que abalou quase todas as monarquias da Europa Central e quase derrubou a tricentenária dinastia Habsburgo e exigiu do novo monarca muita inteligência e “jogo de cintura”, uma vez que os liberais, sentindo que o governo estava enfraquecido, tanto política como militarmente, passaram a exigir o direito à auto gestão municipal de Viena.

Os liberais assumiram, então, a prefeitura de Viena, dando início a uma revolução arquitetônica e visual da cidade, sendo a primeira e mais importante obra a Ringsstrasse, uma maravilhosa avenida que cerca todo o centro de Viena e que representava para eles a expressão visual dos valores da classe social liberal que assumiu as rédeas do governo municipal, ávida por fazer a revolução estética e política da cidade.

Os mais famosos arquitetos que viviam em Viena foram chamados a dar uma nova concepção aos projetos arquitetônicos; influenciados pelo modernismo, idealizaram construções de vários estilos ao longo desta avenida, tais como o neo-gótico, neo-barroco, neorrenascentista e o neo-clássico; a primeira destas construções foi uma grande Igreja (Votivkirche), financiada com contribuições públicas, sob a liderança da família real e do alto clero, sequencialmente inúmeras outras edificações foram sendo feitas, das quais devemos citar a “Casa de Óperas – Court Opera House”, concluída em 1869, além da Universidade, alguns museus, centros culturais, livrarias, etc.

Talvez um dos projetos mais audaciosos e importantes para a comunidade foi o da canalização do rio Danúbio para proteger a cidade contra as inundações, além disto fizeram a implementação do sistema de fornecimento de água e criação de parques; no entanto, paradoxalmente, não investiram em moradias de baixo custo para a população carente que vivia nos arredores da cidade, em verdadeiros “guetos” de pobreza, mas construíram casas residenciais que passaram a alojar a nova elite de industriais e comerciantes que emergiam socialmente, confrontando a aristocracia, que já mostrava sinais de enfraquecimento.

A verdade é que este novo desenvolvimento de Viena, concentrado em área geográfica relativamente pequena, superou, visualmente, todas as reconstruções urbanas ocorridas no século XIX, inclusive a de Paris; Viena havia se tornado uma moderna metrópole, com grande movimentação de intelectuais, tanto da literatura como do meio artístico.

Apesar de ter implementado todas estas reformas na cidade, Francisco José I continuava sendo pragmático nas concessões ao progresso, evitou o telefone, o automóvel e a máquina de escrever, assim como a energia elétrica. O Palácio de Hofburg, sua residência oficial era iluminado por lampiões de querosene até o final do seu reinado, além de que mantinha instalações sanitárias inadequadas, chegando ao ponto de irritar sua nora Estefânia que mandou instalar dois banheiros às suas custas.

Depois de ouvir-me, sem nenhuma interrupção, Dr. Joffre encerrou nossa reunião, com uma reflexão:

– Sua jornada será, realmente, muito difícil, pois, como sabemos, Freud nasceu em 1856 e foi com a sua família para Viena em 1860, portanto foi contemporâneo do Imperador Francisco José I e assistiu grande parte das mudanças que foram por ele implementadas, não se esquecendo de dizer que na época em que Freud iniciou sua vida de médico em Viena, assumiu a prefeitura da cidade, Karl Lueger, anti semita declarado que elegeu os judeus como “bodes expiatórios” da grande depressão que assolava o Império.

Espero, arrematou ele, que continuemos esta discussão na próxima quarta-feira.

 

(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)

Comentários

Mais de Opinião

27 de outubro de 2018 as 21:44

A estratégia de Pedro

27 de outubro de 2018 as 21:18

Bom dia, Brasil

26 de outubro de 2018 as 21:35

As propostas de Bolsonaro

26 de outubro de 2018 as 21:34

Ensaio sobre a criação do espaço

26 de outubro de 2018 as 21:33

Um amor de Goiânia

26 de outubro de 2018 as 21:32

Brasil e totalitarismo

26 de outubro de 2018 as 21:07

Esses corregedores do CNJ são uma piada

26 de outubro de 2018 as 21:00

O voo do DM

26 de outubro de 2018 as 20:57

Casos de câncer de mama sobem no País

26 de outubro de 2018 as 20:53

O Brasil pede socorro à CNBB!

26 de outubro de 2018 as 20:49

O direito de sonhar

26 de outubro de 2018 as 20:47

O STF legisla demais