Opinião

Saudade da senhora, mãezinha!

Ângela Jungmann ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

Quando eu era pouco mais que uma criança, gostava de ler umas revistas que o papai comprava para a senhora: Jornal das Moças e Fon-Fon (lembra-se?). Procurava sempre alguma poesia, alguma crônica romântica, que falavam de amor. De Olegário Mariano eram as minhas preferidas. Um dia li (não me recordo se em alguma crônica dele) que o autor pedira a uma menina que lhe dissesse o que entendia por saudade, e ela lhe respondera: “Saudade é a vontade de ver de novo.” Essa definição de saudade tocou-me muito, e guardei-a na memória, de onde nunca mais ela saiu e tem-me acompanhado pela vida em fora. Muitas outras definições, conceitos de saudade ouvi ou li principalmente nas trovinhas que sempre muito apreciei.

 

Saudade, ressonância

De uma cantiga sentida

Que, embalando nossa infância,

Nos segue por toda a vida.

(D. C. e Silva)

 

A saudade é chama ardente

Mágoas dourando o arrebol

Angústia tingindo o poente

Tristezas brilhando ao sol.

(Autor desconhecido)

 

Saudade é o perfume triste de uma flor que não se vê.

(Menotti del Picchia)

 

Saudade é a sempre-viva do coração, presa a suas ruínas e a crescer na solidão.

(Joaquim Nabuco)

 

Catulo da Paixão Cearense, aquele do nosso tão cantado Luar do Sertão, escreveu sobre a saudade uma trovinha que se tornou famosa e figura sempre em nossos cancioneiros populares. Quem não a sabe de cor?

 

Saudade, palavra doce,

Que traduz tanto amargor,

Saudade é como se fosse

Espinho beijando a flor.

 

Saudade é mesmo palavra doce (Nem sei por que os teóricos de literatura não usam esse verso como exemplo de cinestesia!). O ditongo decrescente aberto da primeira sílaba, o prolongamento da vogal média aberta da sílaba tônica conferem-lhe alto grau de sonoridade. É, sem dúvida, uma palavra doce, melodiosa…

A antítese doce/amargor, entretanto, não me parece caracterizar o sentimento que a palavra invoca. É doce, mas não traduz amargor. Quem sente saudade relembra alguém que ama, um tempo bom, um momento de glória, de alegria, de felicidade, de ternura. Ninguém tem saudade do que não foi bom. Se me recordo de uma pessoa amada, que se foi, que está longe de mim, sinto saudade dela, tenho vontade de vê-la novamente, de estar cm ela, de lhe falar, de tocá-la… Invade-me um misto de ternura, de amor, de carinho… Então, não posso sentir amargor.

A saudade traz a pessoa ausente para perto, para junto. Por isso gosto de sentir saudade da senhora mãezinha. A saudade a traz para junto de mim, fazendo-me até sentir sua presença física, seu cheirinho tão bom, tão querido… Hoje, por exemplo, como sempre ou mais que todos os dias, senti saudade da senhora (ou melhor, senti mais saudade da senhora). Fechei os olhos e a carreguei no pensamento e a sentei ao meu lado. Vi-a tão nitidamente que quase lhe percebi a respiração, o calor do hálito… Evoquei sua presença, e uma proximidade bastante concreta transportou-me para a sala de televisão de seu apartamento, e nos vi lado a lado, eu, segurando-lhe as mãos, aparando-lhe as unhas; a senhora, assentada na cadeira de balanço, olhando-me de forma brejeira e amorosa como sempre fazia…

Chegaram-me aos ouvidos versos de uma de suas canções prediletas, e nossa tão apreciada Ely Camargo cantava: “Meiga flor que ao morrer deixou/o delicado aroma que jamais passou…” Não é só seu perfume (Fleur de Rocaille) que a brisa da saudade aspergiu em meu olfato, mas todos os bons aromas que me perfumaram a infância, a juventude e agora na quase ancianidade se transforma em saudade: de um bife acebolado, do peixe assado, do arroz com pequi, do bolinho frito, do café fumegante passado no coador de pano, a sopa de legumes borbulhante, até da tinta que usava para pintar rosas que pareciam recém-colhidas e que estão em cada canto de meu apartamento… Todo esse delicioso aroma jamais passou. É só invocar a saudade, e a vontade de sentir de novo traz cada um deles a minha memória olfativa, e eu os sinto novamente e com eles me chega mais vívida ainda sua lembrança que se aninha no peito, se aconchega no meu pensamento, e me faz sonhar. Ely continua cantando:

 

Fui rever o lar

Onde feliz vivi

A quadra mais ditosa desta vida.

Mas só encontrei saudade,

Saudade de ti, querida.

Ali tudo era triste

Ao lembrar-me dos carinhos teus

Tudo repetiu saudade

Volta, pelo amor de Deus

 

Embalada pela canção, deixei-me levar pelo sonho azul da recordação ao lar de minha infância, de minha adolescência. Lá nada era triste, como dizia a canção, porque lá a senhora era presente, cosendo-me os vestidos que eu queria variar a cada domingo, preparando-nos o chocolate quente (vejo-a raspando a barra de chocolate e derretendo-o com o leite fervente), nas tardes chuvosas, assando bolo no fogareiro a álcool (que cheirinho de saudade!!)… Ressoou-me nos ouvidos sua risada alegre e franca (onde a senhora está, ainda pode rir assim?), escutei-lhe a voz firme e braba a passar-me um “pito” por alguma de minhas tão frequentes “artes”.

Agucei o ouvido, mas o tique-taque do tempo repercutiu mais alto, perturbando-me a audição. Firmei o olhar em direção ao passado que não passa, porém as lágrimas turvaram-me a visão e só encontrei saudade, saudade da senhora, querida. Tudo então se tornou triste, faltaram-me os seus carinhos, carinhos que a senhora punha nos gestos, nos agrados, no olhar… E a canção gritou-me nos ouvidos: Volta, pelo amor de Deus!

Aos poucos, porém, uma ternura imensa foi-me invadindo a alma e cantou comigo a canção de Roberto Carlos:

 

“Das lembranças que eu

Trago na vida

Você é a saudade que eu gosto de ter

Só assim

Sinto você bem perto

De mim outra vez”

 

Não me trouxe a saudade amargor algum, mãezinha. Trouxe-me ternura, carinho, gratidão, amor, sentimentos que a senhora sempre despertou em mim. Por isso gosto de ter (e tenho) constante saudade da senhora. Tenho sempre vontade de vê-la de novo. Fecho os olhos e acalento-a dentro de meu coração; aguçando os sentidos da memória, aspiro-lhe o perfume, e, no conforto de seu carinho, sento-a bem perto de mim outra vez.

 

(Ângela Jungmann, Cadeira nº 23)

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