Opinião

Com a abolição de marcos regulatórios firmes na medicina, pacientes correm riscos

Marcelo Caixeta ,Especial para Opinião Pública

diario da manha
doctor is measuring the pulse of her patient

 

Numa discussão com alunos de medicina e recém-formados eu lhes dei um conselho polêmico:

“Conselho simples para os que estão em início de carreira: trabalhe em coisa que “morre”. Onde não morre. a picaretagem já tá grande e vai ficar bem maior.”

Aí uma aluna X comentou: “É, mas onde  ‘morre gente’ está pipocando de processos contra médicos e hospitais.”

Um aluno Y retrucou: Eu entendo o que o Marcelo quer dizer: onde morre gente, nenhum profissional não-médico tenta posar de médico. A coragem que eles têm para prescrever amoxicilina  para resfriado, por exemplo, em farmácia ou posto/centro de saúde do Governo, desaparece. Não prescrevem nem paracetamol nos locais onde morre gente.

Um aluno Z  perguntou: “Mas e em consultas particulares, não está tendo paciente não?”

Aí eu disse: tentando ser mais claro. Vamos pegar minha área, a psiquiatria. Hoje o paciente deprimido começa indo na Igreja (depois de ter ido muito à praia e, a conselhos, “ter descansado muito”), na comadre, no pai-de-santo, no centro espírita, na sessão de descarrego da Universal, etc. Depois passa pela psicóloga, vai para o clínico geral, é medicado pelo ginecologista, geriatra, neurologista, pediatra, ortopedista, cardiologista.

Ainda no meio disso tudo vai para os Caps, postinhos de saúde,  “quase-médicos cubanos”, os Pronto Socorros da vida, vários, etc. Só chega no psiquiatra quando está na hora de internar, tentou morrer, tentou matar.

Só na hora que “ninguém” mais deu conta, só na hora que “precisa internar mesmo”, que o psiquiatra é valorizado de verdade. Mesmo assim ainda dizem: “Eu não queria estar aqui no hospital de doido, com medico de doido, fiz o possível para evitar isto.”

E  o Governo comunga desta mesma opinião, desta mesma atitude,  ou seja, faz “todo o possível” para evitar que o paciente seja atendido por um especialista, num hospital especializado (o objetivo dele é acabar com tais hospitais).

Só quando o “caldo entorna” prá valer é que eu, como psiquiatra, me sinto valorizado, meu hospital psiquiátrico se sente valorizado. Vejo inúmeros colegas com consultórios às moscas, justamente por causa do que eu disse acima. Enquanto isto, a procura de nosso hospital (que é o “lugar onde morre gente”) cresce exponencialmente.

Eventuais picaretagens que acontecem com o paciente antes dele chegar no hospital psiquiátrico, grave, não são descobertas pela família ou pelo “sistema”. Se são descobertas, não são denunciadas ; se são denunciadas, não dão em nada. Se não dão em nada, o sistema não melhora, não se auto-corrige. Não se auto-corrigindo, não há “saída para o médico ambulatorial”, médico de consultório ( estou dizendo da minha experiencia, na minha especialidade, na minha localidade, etc).

É como disse o aluno Y aí acima ; onde se está morrendo, enfermeiro, psicólogo, farmacêutico, cubano,  médico não-especialista, recém-formado, etc, não dá nem um paracetamol… E o médico e o serviço são valorizados, infelizmente só nestas horas. É disto que estou falando.

Como bem disseram os amigos ai acima, há um grave efeito colateral: onde morre gente tem muito processo. Por isto é que minha cabeça fica quente o tempo todo. Mas isso sempre ficou, então é melhor ficar quente sendo valorizado, tendo pacientes e entrando um pouquinho de dinheiro para o hospital  do que esquentar a cabeça sem nada disto.

É  por causa dos “processos onde morre gente” que os médicos também estão abandonando a iniciativa privada e preferindo ficar sob a “tutela do Governo”, pois no âmbito do Governo, onde morre gente, a culpa “não é do médico” (ele pode esconder-se atrás do governo) e acaba não sendo de ninguém pois a burocracia estatal tem exatamente este objetivo: esconder culpas e responsabilidades.

Na medida em que os “marcos regulatórios da Medicina no Brasil” foram destruídos pelo governo (não-médicos fazendo medicina, cubanos, fim do Ato Médico, ataques a médicos, apoio aos “coitadinhos”, etc ) o único “regulador” será a morte, a sequela.

Para todo paciente que chega “sequelado ou quase morto” em nosso hospital, meu primeiro trabalho é de “psicologia médica”, ou seja, explicar que, caso ele morra, sequele, não é culpa nossa, faremos todo o possível para tentar remendar as cagadas que os outros fizeram até aquele momento (e enumero-as detalhadamente).

Isto já é um “preparo contra processo”, passando a bola para o governo, para os picaretas, eventualmente para a família, que não procurou ou não quis atendimento medico adequado até ali.

Com o fim dos “marcos regulatórios” da Medicina, vivemos uma época de “anomia”, completa falta de lei, de perplexidade , de “todo mundo metendo a mão”, de “todo mundo contra a prepotência do médico”. Isto vai durar muito tempo, sobretudo porque o Brasil não é acostumado com rigidez punitiva ou fiscalizatória.

Diante disto, o único “marcador eficaz” será a complexidade do atendimento. E complexidade, em medicina, implica em “perigo de vida”. Só aí é que a ciência médica transparece integralmente. Antes daí, é só na base da raizada e reza braba mesmo…

Em resumo: tudo o que eu disse é fruto de minha experiencia local atual: hospital cheio e consultórios vazios… E não é só em psiquiatria que tenho visto isto; colegas pediatras mesmo tem me dito que os hospitais , pronto-socorros, pediátricos viraram os “verdadeiros consultórios”, ou seja, onde está pipocando problemas. E alguns estão aproveitando o “desespero da hora da morte” para serem valorizados ou para poderem pelo menos ganhar um pouco mais dignamente do que a “consultinha ddo convenio lhes paga”.

Quanto às consultas em tempo de crise, o que tenho visto em psiquiatria? Muitos colegas me dizem; os clientes sumiram, estão todos indo repetir receitas em Caps, em postinhos de saúde, cubanos, Cais, etc. Ou então ficam seis meses sem aparecer, aparecem graves, quando eu fico sabendo estão internados. Alguns “suicidados”, outros já com discinesia tardia, outros em utis por causa de intoxicação por lítio, etc, e por aí vai… É o que eu disse acima, onde não “está morrendo gente”, o brasileiro, que tem pouca instrução, sabe que reclamar e denunciar não adianta, vai continuar tentando resolver na “meia boca”. É  claro que pacientes ricos irão continuar pagando, indo em consultas particulares, etc, mas quantos hoje no brasil são “ricos”? (e a gente sabe que, nos próximos tempos, os “ricos” vão diminuir…)

Há uma semana mesmo, um paciente em delirium tremens alcoólico foi para um caps, grave, o caps horrorizou, mandou para um centro de saúde, este horrorizou, mandou para um pronto socorro psiquiátrico, este horrorizou, mandou para uma clínica psiquiátrica do sus, horrorizou, ninguém queria colocar a mão no paciente (convulsões, desequilíbrio hidroeletrolítico, etc). Resultado: a família, que é pobre, teve de “vender tudo que tinha” para tratar num hospital adequado. Depois de quatro dias, melhora do paciente, disse: agora vamos levar ele para o SUS.

Resumo da ópera: o destrambelhamento da Medicina, causado pelo Governo, vai enrolando, vai enrolando, até a “merda” acontecer na Medicina, que, infelizmente, chama-se morte. Nisto, nem o Governo nem paramédicos, nem cubanos, psicólogos, cartomantes, pastores, etc põem a mão. Aí é hora do médico sentir-se valorizado, ganhar seu suado dindim, sentir realização profissional, pois no resto ele só leva fumo.

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra)

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