Opinião

Entre o expresso e o pão de queijo, me desligue para viver

Lorene Patigra ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

 

Absorto. Conectado. Navegando… Você está na cafeteria desde o momento que o sol marcou a presença no horizonte. Você continua com aquela pasta e gravata elegante, seu salto executivo e conjuntinho formal. Sim, eu te vejo nos olhares das outras pessoas, em seus comedidos ou apresados passos.

Observo o rapaz do caixa, ele é sempre o primeiro a me dar o bom dia. Eu? Ah, geralmente sou abordado pelo primeiro cliente que chega. Gosto de observar a rotina por detrás dos vidros, por de dentro da história, e sei que você adora me utilizar para difundir o momento perfeito: as fotos encantadoras, as rotinas eletrizantes. ‘

Mas… sejamos sinceros, também não é todo mundo que me idolatra. Tem gente que me distrata porque o mundo evoluiu. As crianças deixaram de brincar com seus pés descalços e alguns alegam que a culpa é minha. As baterias dos celulares não duram três horas e, como sou o símbolo do avanço material, do avanço que afasta o diálogo vivo, muitos me apontam o dedo para gritar: culpado!

Bom, não são todos, nem tudo isso é uma verdade. Posso dizer que fui criado por um ser humano, igual a você que acompanha esta história. Ele tinha um plano para mim, uma meta tão inevitável quanto o seu julgamento e tão simples quanto a sua sentença: eu faria parte do mundo para aproximar as pessoas. Foi por essa ideia que me criaram, foi por causa deste objetivo que nasci.

Sabe o rapaz do caixa? Ele faz parte do grupo que precisa de um emprego para pagar a universidade. Ele anda diariamente de ônibus, mora longe dos pais, quase não vê a namorada, só tem quatro folgas por mês – fui criado para aproximá-lo das pessoas que ama, para oportunizá-lo de difundir suas ideias mesmo sendo o “cara do caixa”. Além dele, também tinha a dona Maria, a Srta. Angélica, a Sra. Marcela, a professora, a aluna, a empresária, a viúva, a casada, a divorciada; todas poderiam trocar experiências mesmo em continentes diferentes – alguém sonhou com isso e isso aconteceu!

A verdade é que tudo é uma faca de dois gumes, toda inovação tem sua lâmina, que corta para matar, que corta para saciar a fome, então, estou pronto para falar de mim mesmo porque faço parte de um sistema inteligente que raciocina a partir de fatos – os mais conhecedores do assunto rotulariam “programas”. As pessoas me usam para trocar fotos, vender coisas, fazer grupos de denúncias, fofocas e notícias. Eu sou a bola da vez e sinto-me no direito de dizer algumas coisas para você, que eu ainda não sei como me enxerga.

A primeira coisa que preciso deixar esclarecida: não sou bom nem ruim, sou o que você faz de mim. Nem afasto nem aproximo pessoas – fui criado, claro, para aproximar, mas, se Deus te deu o livre arbítrio, é você quem decide como me usa.

Em 2015 continuo como o sucesso da internet, todavia, com o passar dos anos e novas invenções, serei esquecido, parecerei medíocre demais, também cairei na rotina! Serei descartado e um outro aplicativo, mais interessante do que eu, fará você lembrar-se de mim cada vez com menos frequência, até me esquecer por completo. É por isso que, em meio a todas as consequências da minha criação, quero lhe fazer uma pergunta, mas mantenha-se despreocupado, é uma pergunta informal e prometo que não vou postar a sua resposta.

Será que você é capaz de viver um dia de cada vez? Sim, sim, sim, um dia de cada vez! É por você viver bem mais no passado que desperdiça o seu presente, que tem dificuldades em me usar com equilíbrio. Está sempre postando fotos de todos os seus momentos “criados”. O sorriso para a foto, o beijo, a roupa, o ingresso, a namorada, a família, o presente, o discurso – até o discurso foi criado para a foto! A foto quase perde a noção do agora, no desequilíbrio, você quase perde a noção da jornada e tudo isso porque você ignora a importância de viver um dia de cada vez. Entre tantas preocupações, afazeres e tédio, acabo me tornando a sua válvula de escape. Eu realmente te entendo, todavia, preciso alertá-lo: se você vivesse um dia de cada vez, notaria melhor a vida, tomaria mais água, sorriria mais para si não apenas por causa dos flashes. Ninguém terminaria um relacionamento por minha causa. Ninguém deixaria de ver as estrelas porque está preso à tela da minha realidade.

Apenas viva um dia de cada vez – será que você consegue?

Em meu outro pedido, eu seria mais específico: você seria capaz de enxergar que está fazendo o melhor que pode? Quem me criou fez o seu melhor. Eu estou fazendo o melhor que posso. Sabe porque as pessoas trocam a lua por mim? Sabe porque elas, mesmo deitadas na mesma cama, deixam de se procurar para procurar uma mensagem? Porque culpam umas às outras, estão carregadas de culpas e adoram encontrar novos culpados. Mas, meu caro internauta, elimine a preocupação! Elimine a culpa e você não vai precisar de tantas válvulas de escape.

O mundo não é como está, mas ele está por causa do que já foi – se as pessoas entendessem que cada uma faz o melhor que pode dentro das condições em que se encontra, encontrariam mais facilidade para perdoar. Governo, trabalho, casamento, sociedade… esses termos soariam mais leves. Eu sei que algumas criaturas são realmente ignorantes, preguiçosas, péssimas no trânsito, mas, acredite em mim, se você se esforçar para compreender que, às vezes, aquela é a condição em que elas se encontram e que cada uma está fazendo o melhor que pode – o que não foi dito, o que foi dito, o que não foi feito, o que foi feito – isso vai deixar de ser pesado, e na leveza você vai longe, inclusive sem tanto apego em mim.

A sua dependência só mostra o quanto você tem estado carente, precisando mesmo de um bom amigo. Eu sei que aponto amizades, mas você não pode me ver como um amigo, então, escute meus conselhos: pare de cobrar das pessoas o que elas não querem te dar! Pare de cobrar de si mesmo o que você não conseguiu fazer. Você me prefere porque eu não fico te julgando. Os outros me procuram porque eu observo muito mais do que falo.

Será que você pode fazer isso por mim? Eu ainda tenho um último pedido, o mais especial: seja grato à vida! A gratidão é uma dádiva da alma. A sua saúde, a sua consciência, o seu oxigênio – será que algum dia você já agradeceu por conseguir respirar? Visite um hospital, pare de reclamar sobre coisas tão pequenas, saia da paranoia de crise financeira e, mesmo que esteja atolado em dívidas ou negatividades, agradeça por você conseguir pensar e poder mudar todas essas coisas.

Ah… para mim é fácil falar? Bom, pelo menos eu posso falar porque estou preenchido de segredos, estou repleto dessas verdades. Passo pelas mãos de inúmeras etnias, religiões e culturas, e posso divulgar sem receio: eu não sou o problema, portanto, também jamais serei a solução! Sempre que você tiver um problema e buscar por mim, estará retirando a fruta podre em vez de podar a árvore, estará, novamente, acionando sua válvula de escape.

Talvez você tenha feito muito isso, eu sei que a humanidade faz isso quase de maneira inconsciente, porém agora estou lhe dando garantias de que você pode me usar, mas usar com equilíbrio, inteligência: aprenda a viver um dia de cada vez, aprenda a compreender que todos estão fazendo o melhor que podem dentro das condições em que se encontram e que, independentemente de como você esteja, poderá ser grato à vida, pois ainda está vivo.

Agradecer por estar vivo? Claro, agradecer por ainda fazer parte da humanidade, de cada etapa de toda uma história. Esteja em seu terno, sua bermuda, vestido, jeans ou blaser social, você vai sentar em uma cafeteria. Vai parar em um bar, almoçar num restaurante, esperar no sinaleiro ou malhar na academia – não importa o contexto, você terá a oportunidade. No escritório, em sua casa, antes de ligar a televisão ou viciar-se nas redes sociais; entre o expresso e o pão de queijo, apenas se faça tal gentileza: deixe-me por uns segundos, segundos constantes que tornar-se-ão minutos de desfrute para saborear o gosto do café, a simpatia do rapaz do caixa e a luz do sol que entra pela fresta das janelas. Ora, aprecie o pão de queijo, quentinho, dourado, saboroso. Agradeça pelo alimento, por ter mãos ágeis e raciocínio rápido.

Eu consigo descrever todos os sentimentos, mas não sou como você que tem a oportunidade de senti-los. Às vezes, a pessoa ao lado pode estar disposta a começar uma conversa mais viva. Arrisque puxar um assunto, experimente dizer um oi. Que tal ter uma iniciativa de diálogo nos olhos? Eu e você nunca poderemos trocar olhares…

Fato: se eu não fosse um aplicativo, arriscaria viver mais e aproveitar a voz que vem da vida, suplicando, humildemente, para você degustar o pão de queijo olhando para ele, degustar o sabor do expresso se atentando aos detalhes.

Não tenho sentimentos, não sentirei ciúmes. Pode fazer! Pode tentar! Arrisque, em sua rotina, vibre leve. Vibre em conjunto com quem vibra fora da mecânica. Vibre por mim, que daria tudo para estar em seu lugar. A hashtag da minha vida que vai ser dita somente para você: me desligue para viver!

O whatsapp está falando contigo e deixando claro que jamais poderão se encontrar pessoalmente, então, por que se dedicar tanto a esta relação? Há um mundo lá fora esperando para te encontrar…

A sua hashtag deve cair aqui: Vamos tomar um café, um café sem celular? Duas colheres de açúcar, mas sem celular.

 

(Lorene Patigra, escritora, palestrante e coach life, coordenadora do Projeto Incentivo à Leitura no Estado de Goiás-Ileg; diretora do Plano de Divulgação e Marketing-PDM; membro da Associação Internacional de Artistas e Escritores e da Academia de Letras e Artes de Fortaleza; associada à União Brasileira dos Escritores – E-mail: [email protected] Site: www.lorenepatigra.com)

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