Opinião

Qual a religião verdadeira?

Jávier Godinho,Especial para Diário da Manhã

diario da manha

 

Não é raro se ouvir exclamações assim:

– Com tantas religiões no mundo, é difícil saber qual a verdadeira…

Todas as religiões, desde que induzam a prática do bem, são caminhos para Deus e devem ser respeitadas. No dealbar deste século e deste milênio, havia no mundo cerca de 30 mil religiões. Escolher qual?

Huberto Rohden, um dos grandes pensadores cristãos do século 20, que foi padre jesuíta durante 25 anos e depois criou a Filosofia Univérsica, um novo modo de pensar o Universo, que começa a ser estudado e ensinado em escolas e faculdades, no seu livro Orientando, publicado em 1965, oferece-nos sua longa experiência pessoal sobre esse assunto, pois viveu 87 anos:

– No catecismo tive de aprender que há uma só religião verdadeira, e que esta é, naturalmente, a do autor do catecismo, como não podia deixar de ser. Se o meu catecismo de antanho tivesse sido escrito por um adepto de outra religião, é claro que esta seria a religião verdadeira e única, e Deus seria invocado como o chefe supremo desse partido religioso. Se percorrêssemos todos os credos do orbes terráqueo – centenas e milhares – descobriríamos que há tantas religiões verdadeiras e únicas quantas as igrejas, seitas ou grupos religiosos do mundo.

Requer-se muita ingenuidade e miopia espiritual para admitir que o Deus do Universo tenha resolvido apor precisamente à minha religião o sinete da sua autenticidade e unicidade, excluindo desta aprovação as religiões de todos os outros homens.

Jesus não fundou religião alguma Autor de mais de 60 obras e dezenas de anos de palestras, conferências e cursos no Brasil e fora dele, Rohden continua:

– As numerosas igrejas e seitas afirmam que foram fundadas por Jesus Cristo. Entretanto Jesus não fundou religião alguma, muito menos milhares delas. Todas as igrejas são de fundação humana e, como tais, têm a sua finalidade pedagógica e educativa.

Jesus proclamou o “reino de Deus”, que não é uma organização externa, visível, de caráter jurídico, porque “o reino de Deus está dentro de vós”. O reino de Deus é uma experiência divina dentro da alma humana, experiência que, depois de revelada na vida desse homem como verdade, santidade, amor, caridade, pureza, benevolência, alegria espiritual. O reino de Deus é “verdade, justiça e alegria no Espírito Santo” – segundo Paulo Apóstolo. A expressão “igreja” ocorre raríssimas vezes nos Evangelhos, ao passo que o termo “reino de Deus” ou “reino dos céus” é freqüentíssimo, A igreja deve ser educadora do povo – mas não intermediária entre o homem e Deus, fazendo depender da sua atuação ou não-atuação o efeito da redenção do Cristo ou da sua frustração. Mas para compreender coisa tão grande requer-se grande liberdade de espírito.

Por que excetuada a minha todas as outras religiões são “falsas”? De todos os tipos de egoísmo – individual, nacional, eclesiástico – este último é, sem dúvida, o mais funesto, porque é um “egoísmo sagrado”, mantido e praticado “por motivos de consciência”, e em nome desse egoísmo eclesiástico têm sido cometidos os mais pavorosos crimes, em todos os tempos e países.

No Ocidente cristão, essa cegueira e esse egoísmo são atribuídos ao maior gênio espiritual que o mundo conhece. Para que os adeptos desta ou daquela religião organizada não percam a sua estreiteza e intolerância sectária, são eles rigorosamente proibidos de ler as palavras diretas do Cristo, como brilham nas páginas do Evangelho, ou, quando têm permissão de ler esse livro sacro, os chefes da respectiva seita não lhes permitem entenderem e interpretarem essas palavras segundo a sua consciência individual.

Em face desta triste situação, houve quem lançasse aos quatro ventos o slogan: “religião é ópio para o povo”, entendendo por religião essas criações humanas e ignorando a realidade divina da Religião, que faz parte da própria natureza humana. Ainda no segundo século, escrevia Tertuliano que a “alma humana é crística por sua própria natureza”.

Um ser em perene evolução Finaliza Rohden, o brasileiro que estudou Pesquisas Científicas na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, convivendo com Albert Einstein, o pai da Teoria da Relatividade:

– Qual é, pois, a verdadeira religião? É aquela que ajuda o homem a encontrar Deus, sobretudo o reino de Deus, dentro de si mesmo.

Possivelmente, a forma externa da religião passará por diversos estágios, como o próprio homem.

Se me perguntassem qual a vida verdadeira, se foi a da minha infância, a da minha adolescência ou a da minha maturidade, eu não hesitaria em responder que todas essas três formas de vida são igualmente verdadeiras para mim, porque por detrás de todas elas está a minha única vida verdadeira. Mas, do fato de eu, em criança, ter brincado com soldadinhos de chumbo ou figurinhas de cera ou de barro, não se segue absolutamente que deva fazer o mesmo hoje em dia. Do fato de eu, como jovem, ter vivido num mundo de aventuras pitorescas e até perigosas, não se segue que deva fazer o mesmo durante o resto da minha vida.

Considero verdadeiro e bom o que fiz na infância, na adolescência e o que estou fazendo hoje, no tempo da minha maturidade porque, tratando-se de um ser em perene evolução, a vida verdadeira não é um determinado estado.

 

(Jávier Godinho, jornalista)

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