Opinião

Ainda vale a pena ser médico? Como governos, empresas, entidades de classe e os próprios médicos vêm acabando com este sonho...

diario da manha

Uns estudantes (C.A. de Medicina da PUC-GO) caíram na besteira de me chamar para um evento onde eu falaria de “carreira em psiquiatria” (auditório da área IV da PUC – vide cartaz em anexo). Já vou avisando que vou fazer o “Advogado-do-Diabo”; Vou detonar com a psiquiatria atual, com o que o Governo, médicos, entidades, Caps, convênios, residências, profissionais de saúde antimédicos, etc, vêm fazendo com ela (e inclusive com o que ela vem fazendo consigo mesma). Para a carreira de psiquiatra, então, vai sobrar mesmo só quem tem vocação para samaritano (ou então para doido). Então, em resumo, vou fazer uma antiapresentação. Ôôôôô pessooal da PUC, ainda tá em tempo de vocês me desconvidarem. Depois não digam que não avisei, que se arrependeram, vindo com mimimimi, blá-blá-blá.

1- Vou começar a palestra mostrando documentos que mostram  como o trabalho psiquiátrico vem se deteriorando com o tempo. Consultas ambulatoriais a 6 reais, diárias de internação hospitalar a 33 reais (dos quais apenas 5 reais vai para o médico), concursos públicos pagando 1.000 reais por mês.

2- Nós vivemos dois momentos desta situação. Há uns anos atrás havia “reserva de mercado”, médicos e suas entidades não deixavam abrir cursos de Medicina, não deixavam abrir residências médicas (especialização pós-graduada  na área médica). Colocavam mil empecilhos para isso, autorizavam só aquelas unidades que eram “mais amigas do rei do que outras” (geralmente ligadas a grandes grupos médicos). Este é o problema da humanidade: quando o governo fica na mão da direita, os poderosos, os empresários donos do poder prejudicam o povo, aí vem os esquerdistas e pregam o contrário, fazem o que veremos aí abaixo.

3- Com o PT, a política mudou:  o interesse é o de abrir faculdades a rodo, mesmo aquelas faculdades de papel, que não têm nem consultórios e muito menos hospitais para formar seus alunos. O mesmo acontece com as tais “residências médicas”: para se ter uma ideia, o governo já está abrindo um punhado de residências em psiquiatria em locais onde não há um leito de internação psiquiátrica sequer. Como formar um bom psiquiatra aí ? O interesse é em “aumentar a oferta e baratear o preço” do médico do SUS. Isso já vem dando resultado, ou seja, concursos a mil reais, como mostrei acima. A tendência é a de pagar cada vez menos para os médicos do SUS, uma vez que a oferta será cada vez maior, tanto é que aparecem médicos para estes concursos de mil reais.

4- Mas não é só a abertura de faculdades de papel do Governo-PT que explicam o “barateamento do médico”. Há também a destruição da medicina liberal promovida pelo governo comunista, que asfixia e esmaga a Iniciativa Privada. Com esta asfixia, a maioria dos médicos com pequena ou média competência  acaba fechando seus empreendimentos na área privada, e aí migram para o SUS. Na área privada só sobram os “médicos de alta competência” ( os “tipo alfa”), os  “hospitais para ricos” e, seguindo a lei da oferta e da procura, estes tendem a cobrar muito caro.

5- Mesmo assim, com todas as “faculdade de papel”, ainda não é muito fácil entrar em um curso de Medicina, a concorrência ainda é difícil, o curso não é, de modo geral, muito fácil. Depois têm as provas de Residência, depois os títulos de especialista, etc. Tudo isto ainda é muito difícil, exigem-se muitos anos de estudo, e de estudo muito pesado. Com tanto estudo assim, não vale a pena trabalhar por mil reais… Com tanto capacidade de foco e de execução, para tal aluno é  muito mais negócio estudar-se e formar-se, por exemplo, em Direito, fazer concursos, nos quais estes alunos esforçados passariam com facilidade, para carreiras de Estado que dão muito mais dinheiro, benesses, estabilidade, glamour, poder, tranquilidade, etc, do que a carreira médica (uma carreira onde, além das infecções, cuspes na cara, agressões, processos, noites sem dormir com medo do paciente morrer, ameaças, etc, o cara ainda vai ganhar muito mal).

6- Como mostrado nos itens anteriores, ainda não há, como o governo queria, uma profusão de médicos baratos para o SUS. No entanto, na medida em que o governo vem fechando os postos de  trabalho na medicina privada, só está restando para os médicos “beta-menos” o “trabalho no SUS”. Daí, de agora para frente, assistiremos salários cada vez mais achatados.

7- Da mesma forma, o Governo opta por substituir o trabalho médico por profissionais não-médicos. Por exemplo, no SUS é aceito, é comum, que psicólogos forneçam laudos médicos, ou seja, com diagnóstico de doenças. É comum que “técnicos em Medicina” (“cubanos”) repitam receitas psiquiátricas. É comum que enfermeiros prescrevam, colham exames, peçam exames, etc. Nos centros de psicologia-social do governo, onde deveria haver ambulatório de psiquiatria, 95% deles não têm médicos psiquiatras.  Tudo isso contribui para a deterioração do trabalho psiquiátrico.

8- As “entidades de classe médica” também não ajudam muito. Cito um exemplo: ainda em 1996, o Conselho Federal de Psicologia soltou uma “resolução” que permitia aos psicólogos darem diagnósticos médicos (critérios  do Código Internacional de Doenças). Pois bem, até onde eu sei, nenhuma “entidade médica” (conselhos de Medicina, sindicatos médicos, associações psiquiátricas, etc) recorreu juridicamente deste absurdo. De modo geral, durante décadas, as tais entidades ficaram aparelhadas por uma série de interesses não-médicos, ora de “esquerda” (aparelhamento das entidades pelo governo, pelegos, aparelhamento pelas ideologias socialistas, “defesa do SUS”, etc), ora de “direita” (aparelhamento das entidades para protegerem determinados médicos, determinados grandes grupos médicos, reservas de mercado, etc). Muitos médicos psiquiatras não se preocupam com esta “invasão de não-médicos” porque estão interessados apenas em medicar (o que muitos chamam “dopar”) e depois encaminhá-los para “conversar  com o psicólogo”. Tornam-se assim apêndices prescritores de outros profissionais, profissionais que exercem a função humanista que eles não querem exercer. O problema é que, como já dizia Maquiavel, tais profissionais não irão querer ficar só no “humanismo”, irão partir logo para querer darem diagnósticos médicos, pedirem e avaliarem exames médicos, medicarem, etc. Irão tender a “virar psiquiatras” e os psiquiatras que os estimularam a isto não terão força moral para contraporem-se a este movimento. Talvez por isto muitos médicos não se insurgiram contra esta resolução psicológica que transformou não-psiquiatras em psiquiatras. O problema é que, “quanto menos o psiquiatra conversa”, mais ele detona com a própria profissão, entre outras coisas porque, se fosse apenas para “medicar”, os próprios pacientes preferem muito mais os neurologistas para esta função (nenhum paciente gosta de ser rotulado como “doente mental”, pervertido, viciado, fraco de caráter, “louco”, desequilibrado, retardado, etc).

9- Na medida em que faz parte da política médica geral  a “Defesa do SUS” (todo manifesto de entidade médica geralmente tem isso), indiretamente constata-se que tais políticas estão em “defesa do governo”. Isso não é difícil de entender pois toda a classe média brasileira – e a classe médica não é diferente – tem interesse em ter seu concurso público, seu emprego público (estabilidade, benesses, trabalho “tranquilo”, sem estresse, etc), sua “boquinha pública”. Estando em “defesa do governo”, as entidades são obrigadas a concluir que apoiam as políticas governamentais, entre elas a destruição da medicina liberal. Por isso esta destruição nunca é nem tocada pelas atuais políticas médicas. Lutam pelo “médico no SUS” mas não vislumbram que este médico do SUS já está “morto”, pelo que foi dito acima. Não vislumbram que o fechamento de postos fora do SUS está matando o médico liberal, tornando-o um proletário do SUS.

10- O governo tem uma clara política antipsiquiátrica, que é a destruição do local onde o médico psiquiatra pode trabalhar com mais profundidade diagnostica, terapêutica, o hospital psiquiátrico. A maioria fechou ou está fechando. Ao médico psiquiatra recém-formado só tem sobrado o “consultório”, local onde sua prática fica limitada, local onde sofre concorrência de psicólogos, psicanalistas, neurologistas, ginecologistas, cardiologistas, etc (todos que podem “meter a mão no paciente enquanto ele ainda não tem risco de vida”). Com isso o consultório de muitos psiquiatras está às moscas.

11- Com tanto obstáculo, só vai mesmo sobrar para a psiquiatria aquele estudante que não pensa em dinheiro, aquele que tem paciência e gosta de conversas intermináveis com o paciente e com a família, aquele que tem vocação para o aprofundamento no psíquico, na alma humana, aquele que sabe aliar, em sua mente, o que Pascal denominava de “espírito de finesse” ao “espírito geométrico”. Ou seja, vai sobrar, ao final de minha palestra, muito pouca gente…

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra)

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