Opinião

As contas do Ábaco e do Rosário

diario da manha

O consulente vai achar no providencial Dicionário Analógico da Língua Portuguesa do professor Ferreira, ao qual a gente sempre recorre em nossas angústias ortográficas e ânsias de melhor exprimir as coisas, quanto à palavra Ábaco, aquele milenar mecanismo usado pra fazer contas, página 35, edição da Lexicon Editora Digital Ltda., 2010, sob subtítulo entre parênteses, instrumentos para calcular, um mundo particular de sinônimos, tais como…

“…contador mecânico, logômetro, régua de cálculo, máquina de calcular, aritmógrafo de Galley, aritmômetro de Thomas; mesolábio, calculadora, computador…”

O professor Ferreira reúne ainda, em seu léxico, todo um mundo particular de ideias afins com o Ábaco. Atentem só para essa rica profusão de adjetivos, com ele relacionados: “Numeral, numérico, aritmético, analítico, algébrico, matemático, trigonométrico, estatístico, numerável, computável, comensurável, incomensurável & v; somatório.”

Resta igualmente um mundo inteiro de verbos particularmente íntimos dele, na engenhosa obra de Ferreira…

“…numerar, contar, computar, dinumerar, inventariar, paginar, balancear, recensear, chamar, fazer chamada, avaliar, medir, pesar, calcular, suputar, apodar =esmar=orçar=estimar, somar, subtrair, multiplicar, dividir, dimidiar, mear, extrair raiz, potenciar, interpolar, inserir meios, permutar, apurar, liquidar, examinar, provar, demonstrar.”

O Ábaco apresenta, desde a mais remota antiguidade, quase que a mesma configuração tradicional, com aquela sua moldura, seja ela de madeira ou outra matéria-prima qualquer, e aqueles seus bastões ou arames paralelos, dispostos no sentido vertical, correspondentes, cada um deles, às unidades, dezenas, centenas, unidades de milhar, dezenas de milhar, e nos quais se acham os elementos ou unidades de contagem (fichas, bolas, contas) que podem fazer-se deslizar livremente. O instrumento emprega um processo de cálculo com sistema decimal, atribuindo a cada haste um múltiplo de dez.

“Todas as nações contam pela notação de escala decimal, ao que foram levadas, sem dúvida, pela conveniência de contar os 10 dígitos das mãos.”

E por falar em escala decimal, a gente vai surpreender manifesta coincidência ou afinidade de função entre o Ábaco e o Santo Rosário, uma vez que ambos se prestam quase que ao mesmo fim: que é o de contar grandezas numéricas, mas com propósitos diversos. Há entre eles até os mesmos elementos de contagem: aquelas contas ou nós, ou seja, aquelas bolinhas de madeira, marfim ou outro material menos nobre, coloridas ou não. Natural que se dois dispositivos contém aqueles carocinhos chamados de contas é porque se destinam a contar algo, ou aqueles glóbulos alí não se chamariam contas não, embora as bem enfiadas pérolas de um colar, em guisa de contas, não se destinem a somar nem subtrair não, mas a ornamentar o colo da mulher amada.

Aurélio Buarque de Holanda bem define o Rosário qual “conjunto de contas que perfazem o número de quinze dezenas de ave-marias e quinze padre-nossos, que se rezam como prática religiosa; (V. Biurá)”.

O Rosário, como não podia absolutamente deixar de ser, usa igualmente a escala decimal, enquanto aquelas suas contas ou nós vão se fazendo escorregar mistica e fervorosamente nas mãos crentes da gente  católica. Grande novidade!

Para o chefe-geral da Embrapa Monitoramento por Satélite, Evaristo de Miranda,  o terço e o rosário “não são apenas um cadarço cheio de bolinhas. Envolvem alta tecnologia e necessitam explicações técnicas e matemáticas para não iniciados. O rosário católico é composto por uma fileira de 165 pequenas contas dispostas de maneira sucessiva. Cada uma delas representa uma oração. Já o terço, como o nome indica, corresponde à terça parte do rosário, composta de cinco dezenas de contas, para a reza da Ave-Maria, intercaladas por cinco contas, correspondentes ao Pai Nosso. No rosário bizantino (kombuskini), feito de fios de lã, o número de contas varia: 50, 100 ou 150. A cada 10 contas há uma separação por uma conta maior, em que reza o Pai Nosso. Os círculos fechados dos rosários cristãos, budistas e islâmicos evocam o infinito, a oração que nunca acaba, o sem-fim, como disse S.Paulo: ‘Orai incessantemente’ (1Tes. 5,17).” (…) “O design do rosário é resultado final de uma elaboração de séculos. Como o palito de fósforo, o prego ou o guarda-chuva, essa tecnologia dificilmente poderá ser aperfeiçoada. É um belo resultado. Ele surgiu lá pelo ano 800 à sombra dos mosteiros, como um saltério dos leigos. Os monges rezavam os salmos (150), os leigos, em geral analfabetos, rezavam 150 Pai Nossos. Com o tempo se formaram outros saltérios com Ave-Marias, louvores em honra a Jesus e louvores em honra a Maria. Em 1365, a Igreja combinou esses saltérios, dividindo 150 Ave-Marias em 15 dezenas, com um Pai-Nosso no início de cada uma. Em 1500, para cada dezena passou-se a meditar um episódio ou mistério da vida de Jesus ou Maria.”

“Na repetição aritmética das orações, no desfilar das contas, a oração flui pelo fiel. Quando os católicos rezam juntos, a oração passa por eles, aquieta a mente, esvazia o pensamento, limita a tirania do cérebro que não para de pensar. Os fiéis entram em estado contemplativo, ao repetir os ‘mantras’ das diversas formas de rezar o rosário. Para os católicos, o rosário é como uma corrente, uma escada, uma tecnologia que leva e eleva aos céus.”

Como visto, haveria, no rosário e no terço, tal como se dá certamente no ábaco, um raciocínio matemático que os anima e motiva. No terço, como a gente já revelou, que corresponde à terça parte do rosário, notamos a predominância dos números 10 e 5, melhor, 5 dezenas de contas menores, para as Ave-Marias, intercaladas por cinco contas maiores, para os Padre-Nossos. Notem só a incrível ligação visceral entre o 10 e o 5 na obra Os Números seu Poder Oculto e suas Virtudes Místicas de W. Wynn Westcott . Westcott relaciona o 10 com “com a fonte da natureza eterna, porque se lhe tomamos a metade, cinco como número médio, e adicionamos o número imediatamente superior e o número imediatamente inferior, isto é, 6 e 4, perfazemos 10, e os dois seguintes de maneira semelhante; 7 e 3 perfazem 10 e, assim, sucessivamente 8 e 2 e 9 e 1 dão o mesmo resultado”.

O cristão vai, na sua récita de 5 unidades e 5 dezenas, somando fielmente Padre-Nossos, Ave-Marias, na Terra, pra ver se subtrai suas faltas no Céu.

 

(Pedro Nolasco de Araujo, mestre, pela PUC-Goiás em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)

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