Opinião

A íntima relação da dor com a arte

diario da manha

Muito amplo e ambíguo, o verdadeiro significado de uma obra de arte pode muitas vezes ser claro apenas para seu próprio autor.

Muitos dizem que a beleza está nos olhos de quem vê. Mas penso que se tratando de arte, essa afirmação não é totalmente verdadeira. Creio que uma obra sem profundidade sentimental e emocional, quase nunca seja capaz de atrair olhares, pois a beleza está – e essa é uma inferência pessoal mas que sei, muitos a dividem – não tanto na técnica, mas sim, na expressão.

Artistas que sofrem e se martirizam, conseguem transpor em suas obras um significado esplendendo de seus sentimentos e fantasmas pessoais. A técnica diz muito, revolucionou e ainda revoluciona os conceitos artísticos. Porém, obras criadas na dor, na angústia e, em algumas vezes, sem técnicas aparentes, ficam marcadas e muitas vezes, são mais lembradas pelo agente receptor. Na condição humana, onde curiosidade e simples afeição a dor e martírio alheio sempre atrai muito a atenção, tais obras são colírios para os olhares menos afincos. E se tratando de arte contemporânea, essa segmentação de expressionismo (no sentido literal) sobrepondo a técnica, tem sido evidentemente muito utilizado. E isso ocorre em toda e qualquer vertente da arte, como por exemplo no minimalismo e no abstrato.

Não quero eu separar técnica de expressão, até porque, sei que em algumas obras, se não fosse pela técnica não existiria expressão. Minha intenção é demonstrar que toda obra de arte, seja pintada, esculpida, encenada ou musicada, tem um “algo mais” se for criada através de um sentimento maior do que apenas o intuito comercial (com exceção da Capela da Sistina de Michelangelo ou a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, mas ai estamos falando de gênios da renascença). Nisso, as obras criadas na dor, angustia, ódio e medo, são mais fortes, chocantes, interessantes e belas.

Os quadros de Munch, por exemplo, são belíssimos. Entre eles, A mãe morta, Morte em Helm e o famoso O grito, são exemplos perfeitos em que expressão sobrepõe técnica. Quando jovem,Munch formulou um tipo de manifesto, um lema para ele mesmo e seus jovens companheiros de pintura em Christiania:

“Queremos mais do que uma mera fotografia da natureza. Não queremos pintar quadros bonitos para serem pendurados nas paredes das salas de visitas. Queremos criar uma arte que dê algo a humanidade, ou ao menos assentar suas fundações. Uma arte que atraia a atenção e absorva. Uma arte criada no âmago do coração.”

Ou seja, uma obra feita com alto teor de sentimentalismo. E devido aos acontecimentos de sua vida, que acabaram influenciando sua obra, seu trabalho acabou cumprindo tal manifesto. Quase sempre, o amor traz junto a dor que acaba gerando obras inigualáveis como as de Beethoven. E é muito difícil uma obra que tenha como o tema o amor, não ter sido criada a partir de uma desilusão, que é só uma das manifestações da dor. Em outras situações, a dor física é mais forte que a sentimental e dela surgem obras incontestavelmente maravilhosas como as da pintora Frida Kahlo. A dor, de uma forma ou de outra, se manifesta no artista, mesmo que pela frustração de nem sempre conseguir passar para o papel, para a tela ou para o bloco de mármore suas ideias. Através da dor nos identificamos com pinturas, músicas e obras literárias. No rock, por exemplo, temos os mártires que, seja nas letras ou no palco, conseguiram transformar a dor em arte e que depois de suas trágicas mortes tomaram postos de santidades, como por exemplo Kurt Cobain,Janes Joplin, Amy winehouse e outros do famigerado “clube dos 27”.

Talvez analisando essas questões, seja possível entender a catártica comoção coletiva que ocorre quando um artista morre, mesmo que este em vida, não tenha sido notável. Mas para isso temos a mídia, que tendo enxergado essa relação, consegue transformar qualquer um em mártir, abusando do sensacionalismo para fazer da trágica vida ou da morte deste uma obra de arte.

 

(Simião Mendes, goiano, poeta e vocalista da banda Vandalismo Poético.Graduando do curso de Letras da Universidade Federal de Goiás.)

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