Opinião

Preferi ouvir uma boa música

diario da manha

Por que falar de música? Sequer sou músico, sequer sei tocar algum instrumento, nem cuíca, zabumba ou uma Gibson. Minha voz afugenta até muriçoca acaçapada na parede. Porque sim, porque música me faz bem, e além do mais, ter alguma aptidão musical não é condição indispensável para apreciar uma boa canção, basta ouvi-la e decifrá-la ao seu íntimo prazer. E é assim que respaldo, e me compenso por essa pecha de nunca ter ousado a atravessar na prática, esse trevo cultural, e então me atrevo a embriagar-me na entoada mágica do ruído bom de algum solo, ou banda que valha a pena. Indagam-me porque ouço apenas rock, então, responsavelmente, respondo que o que faço, é ouvir a boa música, seja de que estilo for, e ainda que ao meu imutável e cauteloso conceito, a notável maioria daquilo que estimo boa música, reitero, meu conceito! Meu juízo, e minha reles análise consumidora, sejam artefatos do rock, então, por esse singelo motivo, quando me flagram num momento lúdico de uma audição, é quase impraticável que não seja algo forjado nesse gênero. Cresci ungido e avocado em meio a um torrão sertanejo, o Centro-Oeste brasileiro, nos troncos tortuosos e ásperos do Cerrado, nos rincões dos afamados solos férteis do Vale do São Patrício, na frustração inevitável de uma utopia “Getuliana” alcunhada de Cang, e atualizada de Ceres, uma cidade extremamente prática e aprazível, de pretensões tecidas por sua vocação em um circuito na área da saúde prazerosamente invejável e nobremente acessível. Bom, voltemos à música, e ainda confessado de batismo campesino, fiz-me desgarrado musicalmente, enveredei-me a um atalho desapegado de raízes, tradições e convenções, e meu córtex auditivo cumpriu e cumprirá de maneira inabalável o seu papel, e não é intransigente, impiedoso e egoísta, pois, ainda que esfomeado, é igualmente paciencioso e acolhedor. O rock está em mim de uma forma instituída, que não se aliena, intransferível, cravejado de múltiplas pedras de uns imperdoáveis culpados, que delatarei agora, uma malta soberana que me embebedaram com seus aperitivos de alta fermentação sonora, gente como Buddy Guy, Elvis, Jerry Lee Lewis, Buddy Holly, Chucky Berry, Robert Johnson, que nos confiaram aquele que viria a ser o gênero musical mais disseminado, democrático e popular da história da raça humana: o Rock’n’Roll. A partir disso, fui sendo tomado visceralmente por uma embriaguês recorrente, quase cotidiana, de canções insolúveis e perpetuadas, de Creedence, Cash, Mutantes, Novos Baianos, Dead Kennedys, Stones, Plebe Rude, Lynyrd Skynyrd, enfim, uma infinidade de sumidades do mundo musical. Tenho minhas predileções, cinco bandas que asseguram um lugar sem qualquer chance de substituição em mim: Joy Division, The Who, Sonic Youth, Ramones e Mutantes. Adoro listas de “maiores” e “melhores” de todos os tempos, e paradoxalmente, acho-as frívolas. Gostar não é necessariamente achar que seja relevante, é apreciar momentaneamente e posteriormente descartá-las. Os ingleses fazem esse expediente com frequência, então, resolvi despretensiosamente, e sem nenhum respaldo analítico profissional de minha parte, porque, definitivamente, não tenho nenhum, trata-se tão somente de uma expressão prófuga de quem consome a música, enfim, optei por elaborar uma lista, na minha opinião, do famigerado cancioneiro nacional. Estranho? Talvez, anteriormente citei tantos cardeais internacionais, agora venho apresentar um rol de lendas brasileiras. E porque não? O Brasil é a nação mais diversificada do mundo, musicalmente falando. Um certo Sir Paul Maccartney, declarou certa vez que nosso país era sofrivelmente subestimado nesse circo, pois, segundo ele, temos a mais perfeita escola musical do planeta. Então confio a ele toda a minha confirmação. E nesse gancho, e sem misera pretensão, faço meu arrolamento a seguir das melhores músicas nacionais: Cotidiano. Não vou dizer da música, mas sim de seu criador, um autor nem um pouco midiático, mas que, respaldado por seu talento incontestável, tornou-se, talvez, o músico mais icônico da cena brasileira. Aí alguém vem e me contesta, me perguntando o porque de Cotididano, e não da mitificada Construção. Simples, essa não é uma lista didática, mas sim uma lista íntima, minha, e, nesse caso, prefiro Cotidiano. Agora, falo de Porto Solidão, essa é Zeca Bahia entupindo Jessé de emoção. Ainda Bem, essa é Marisa Monte e Arnaldo Antunes sendo Marisa Monte e Arnaldo Antunes, baladinha com uma letra de resignação, suave e sem curvas. Ciranda da Rosa Vermelha, é Alçeu Valença copiosamente declarando ser pernambucano, nada poderia ser tão assimétrico em grandeza, enfim, tudo perfeito. Verdade, interpretada por um boa praça chamado Zeca Pagodinho. O cara faz show parecendo estar sentado num boteco com os amigos, de chinelo, com um copo americano cheio de cerveja sobre aquelas mesas de ferro com estampas de cervejarias, enferrujadas, um pratinho com torresmo, com um único garçom, que por sinal, é dono do lugar, com uma flanela sobre o ombro, suado e sorridente, ou seja, um ambiente extremamente honesto e equivalente a simplicidade apaixonante de uma autoridade chamada Zeca Pagodinho. Eu nasci há dez mil anos atrás, a canção que sintetiza toda a multiplicidade autoral de Raul Seixas. Certamente, aquele velhinho sentado na calçada, era nada mais nada menos que o próprio Maluco Beleza, que viveu em várias e variadas épocas, para que pudesse nos proporcionar tantas benesses aos nossos ouvidos. Ainda é Cedo, não é a letra do Renato Russo que a credencia, pois conta uma historinha de um cara mimado e egocêntrico que de repente se vê submergido em angústia em razão de ser abandonado por uma namoradinha mais velha, e mais experiente. O que atrai minha audição nessa canção, é o baixo visceral de Renato Rocha, que bebeu geral na fonte de Peter Hook, ex-baixista do Joy Division e New Order, em suma, faça a coisa certa, esqueça a letra, e aprofunde-se na toada do baixo, impecável. Cachaça Mecânica. Cometi a precipitação mais inevitável quando da primeira vez que eu ouvi essa canção, presunçosamente, já bradei com muita “propriedade”, que fora composta por Chico Buarque, entretanto, minha presunção foi desmascarada quando me corrigiram, e contaram que se tratava de uma obra prima composta por outro mestre: Erasmo Carlos. O poder dessa música é o de te envolver na trama daquele sambista etílico, de tal forma a nos fazer sentir verdadeiramente o impacto trágico de seu desfecho. Ouvi-la, é como ler um livro, o desenrolar da canção nos entremeia na saga carnavalesca de João. Asa Branca, isso já deixou de ser uma canção faz tempo, se tornou, por óbvios motivos, um hino nordestino. Luiz Gonzaga, com sua indumentária original, seus trejeitos inimitáveis, narra a realidade do semi-árido de uma forma fiel e nada sutil. Na minha opinião, é, ao lado de Ariano Suassuna, os cimos da cultura do agreste brasileiro. Por fim, vou dizer de Eu quero é botar meu bloco na rua, a mais densa canção feita no Brasil, por isso a que ouço em toda a minha história, parida por um dos artistas mais subestimados e injustiçados do contexto artístico musical desse país: Sérgio Sampaio, então, a ele, todo o nosso perdão. Enfim, é clarividente que outras joias do nosso cancioneiro por méritos e justiça, deveriam constar na lista acima, contudo, volto a dizer: é uma lista embasada em meus conceitos e apreciação, sem ter, humildemente, nenhum intuito de influência, bem como nenhuma tentativa de preconizar isso ou aquilo. Simplesmente pare pra ouvir aquilo que convém à sua conveniência e deleite.

 

(Fernando Magela da Silva, servidor público, cristão, pecador. Ouvia Redemption Song, de Bob Marley, com Johnny Cash e Joe Strummer, quando escreveu esse texto)

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