Opinião

A professora e o aniversário póstumo

diario da manha

Quando transferida em 1951, para a escola isolada estadual da fazenda Poço, município de Posse, da professora Carolina Maria dos Santos (na intimidade dona Mocinha e afetuosamente Mãezinha, para este escriba), não havia ali prédio público onde funcionasse a referida escola. Com seus próprios esforços e ajuda de familiares, Mãezinha construíu sua casa de residência onde instalou um amplo salão escolar, no qual passou a agasalhar numerosa turma de alunos. Antes de construir esse espaço, teve que lecionar por mais de um ano debaixo de uma frondosa mangueira que existia no quintal. Era tentador, durante a aula, ver cair uma manga na qual a gente ficava de olho para servir de lanche na hora do recreio.

Dona Mocinha ficou famosa como alfabetizadora e lhe traziam crianças de diversas localidades para serem alfabetizadas em sua escola (vale dizer, uma escola isolada estadual), que passou a funcionar como uma espécie de creche, sempre cheia de meninos vivendo em comunidade. Naquele tempo o sertão tinha tudo da natureza, mas nada da tecnologia. Nem o governo estadual nem o municipal forneciam material didático suficiente para as atividades de ensino. Era a professora quem confeccionava os mapas e os cartazes ilustrativos das aulas, onde inseria dados cívicos – como armas e brasões nacionais, hino nacional e hino da bandeira – que eram transmitidos aos seus alunos com sentimento patriótico.

Uma escrevedora

de cartas

Assim como os espíritos precisam de médiuns para psicografar, os moradores do lugar precisavam da professora dona Mocinha para traduzir seus pensamentos em forma de correspondência epistolar. A cultura artesanal da comunidade supria quase todas as necessidades dos habitantes, menos a arte de ler e escrever. Quase todos sabiam um pouco de tudo – da medicina popular, da construção de casas, do fabrico de móveis e utensílios, da produção de alimentos, dos quitutes caseiros – bem como das fórmulas mágicas incluindo crendices e superstições, rezas e benzimentos, com que satisfaziam suas necessidades espirituais.

Mas sempre havia uma barreira no campo da comunicação: era quando chegava a hora de ler ou escrever uma carta. Nessas circunstâncias era preciso recorrer à ajuda da professora do sertão, assim como na cidade se recorre ao médico, ao advogado, ao psicólogo, conforme seja o problema de saúde, de ordem legal ou de crise emocional. A professora Dona Mocinha iniciou uma verdadeira revolução cultural naquela microrregião ainda isolada do progresso. Com o tempo, homens e mulheres e crianças passaram a saber – e a repensar – sua própria história, passaram a reconhecer – e a preservar – a geografia local e regional, passaram a descobrir – e a utilizar – o segredo que estava escondido nas páginas dos livros.

E daquela comunidade horizontal começaram a despontar alguns vultos verticais, que no futuro seriam médicos, engenheiros, advogados, políticos, empresários. Todos que com a professora do sertão haviam aprendido as primeiras letras. Depois de erradicado o analfabetismo, o Brasil do interior nunca mais seria o mesmo. A tecnologia chegou ao sertão distante e foi aos poucos expulsando a cultura artesanal. Já na era da informática e da realidade virtual, os antigos sertanejos tornaram-se internautas, estabeleceram-se em sites e transformaram as românticas cartas em simples e-mail. Em vez de ler e escrever, agora preferem navegar. A professora do sertão foi afinal substituída pela televisão e o sertão virou aldeia global. Mas apesar da virada do tempo, já faz mais de meio século, a imagem iluminada da professora dona Mocinha continua insculpida na memória de sua comunidade.

 

O aniversário póstumo

Cinco de julho de 2015, dia em que Mãezinha teria completado 102 anos de sua vida terrena. Fui visitá-la em sua antiga vivenda onde dialoguei com suas imagens estampadas nas paredes e contendo legendas de seu calendário existencial. Era mesmo necessário existir este lugar, transformado de residência em escola, depois de escola em memorial de família, para aqui guardarmos nossas lembranças indeléveis. Senti o eflúvio suave de sua presença reveladora que o tempo não apaga e revivi momentos de uma infância feliz guiada por seus cuidados generosos. Então postei-me em divagações nesse ponto cósmico de nosso antigo abrigo familiar, onde eu recebia lições de vida e de amor imantadas de seu magnetismo pessoal.

Pedi intimamente a Mãezinha que me perdoasse pelos desvios cometidos nas encruzilhadas da vida e que me iluminasse nas jornadas difíceis de minha peregrinação atual. Então senti sua voz intima falar no fundo da minha consciência, da certeza de nossa sintonia na intersecção de nossos dois mundos. Deixei ali depositado sobre a velha escrivaninha de sua solitária alcova um par de rosas brancas como eram de sua predileção, e voltei confortado ao meu destino domiciliar lembrando e cantarolando uma bela canção italiana com letra de Josuè Carducci: “Coltivo una rosa bianca / in luglio come in genaio / per l’amica sincera / che mi dà la sua mano franca. / Per chi mi vuol male e mi stanca / questo cuore con cui vivo / cardi nè ortiche coltivo / coltivo uma rosa bianca.”

Ao chegar em casa deparei-me com minha netinha que brincava perigosamente na via pública, à frente de uma residência próxima, num ponto de grande circulação de veículos e exposta a perigos iminentes. Atinei como deveria agir sem assustá-la, naquela circunstância especial, assim como faria Mãezinha (espírito interveniente quando da encarnação de Maria Eduarda), que na sua pedagogia exemplar sempre me soube educar professoralmente, psicologicamente, amoravelmente. Enquanto me concentrava no acerto de uma atitude quanto à proteção de minha netinha inocente, eis que surge à porta daquela moradia um prestimoso vizinho e nos ofereceu um delicioso prato de guloseimas que recebemos calorosamente. Senti na alma uma manifestação de Mãezinha por trás daquele gesto, que era um dos mais gratos de sua vida: oferecer um prato de comida a quem batesse à sua porta. Junto com minha netinha, já salva do perigo, saboreamos aquela inusitada refeição, comemorando poeticamente o aniversário póstumo da nossa inesquecível professora.

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – Email: [email protected])

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