Opinião

A banana que humilhou o racismo

diario da manha

Em 8 de maio de 2014 publiquei nesse combativo jornal artigo denominado “A banana gostosa que humilhou o racismo”, dando-lhe uma necessária reprimenda, no intuito de humilhá-lo e, quem sabe, pelo menos reduzir a sua torpe arrogância e cínico oportunismo, como o que está acontecendo agora na vida política nacional, onde essa “praxe de tirar proveito” chega ser intolerável, nojenta, sobretudo entre não sei quantos políticos aliados da presidente Dilma, a começar do seu vice-presidente Michel Temer que, certamente, ficará como o maior conspirador de nossa história política recente. Consta que já discute até nova composição de seu gabinete de “união nacional”, declinando nomes de ministros. Aroma da República velha é o que não falta. O título epigrafado, contudo, exige coerência.
Pouco importando origem, cor, espécie, se sul-americana ou européia, prata ou maçã, o gesto inteligente e brilhante do jogador de futebol Daniel Alves, comendo uma banana na Espanha, aflorou o nosso profundo sentimento de combate e repúdio ao racismo no mundo, fomentando também o mais vivo sentimento de indignação nacional, justamente onde o sistema racista – diferente do Jim Craw americano e apartheid sul-africano – se realça como um dos piores do Universo, por ser mascarado e incrivelmente hipócrita, mais difícil, portanto, de ser detectado, combatido e extirpado, exigindo, pois, firme coerência no seu combate, nunca podendo ser desviado esse foco, sobretudo nestes momentos emocionais e efêmeros, sempre perigosos, como acontece hoje em dia.
Movido por campanhas midiáticas e publicitárias fundadas no imediatismo do processo de globalização “pós-tudo”, corremos o risco de esconder o racismo em vez de combatê-lo, por incrível que pareça, até alegando que “somos todos negros”, sem poder esquecer mais emblemática dessas campanhas, iniciativa do querido Neimar Jr, de enorme repercussão de que “somos todos macacos”, assunto cuja polêmica começa na própria análise e explicação da tese evolucionista das espécies, onde, segundo o professor de história, Douglas Douglas Belchior, “a associação de negros a macacos é uma reprodução do racismo do racismo”, tema que exige muito cuidado e estudo na sua propagação, mesmo não se podendo tirar os méritos da solidária campanha proposta pelo extraordinário jogador mencionado. O alerta quer evitar o mal, em vez de escondê-lo.
De todo modo, no episódio do a-tleta Daniel, em razão da maneira humilde e irônica como agiu, saboreando ou degustando uma banana, além da maestria do gesto, colocou os racistas do mundo em xeque, por certo envergonhando-os como nunca se viu, sobretudo porque o esporte tem como princípio pedagógico essencial, a união dos povos, culturas, civilizações, aprimorando educação e emergindo paz, jamais causando guerra ou crime, como aconteceu; restando, contudo, na história do combate ao racismo, a humilhação pública de ordem moral, talvez a forma mais econômica e eficiente de repudiá-lo e combatê-lo, uma vez que a pior pena da moral, é exatamente a desmoralização pública que, além de humilhar, degrada, deprime, levando o humilhado à situação vexatória, à vala comum, como começou a acontecer no dia 27 de abril do ano acima citado, em desfavor dos racistas do mundo, num jogo entre o Barcelona e Villarreal, pelo Campeonato Espanhol. Certamente, a desmoralização só não foi pior porque o racismo, pouco importando origens históricas, filosóficas, religiosas, etc., já nasceu desmoralizado, sem nenhum fundamento científico convincente de justiça e de direito, para existir, vendo-se que não é tão difícil de humilhá-lo, visando erradicá-lo e eliminá-lo. Notem que bastou o humorismo superior de um forte, de que fala Euclides da Cunha, para vê-lo completamente desmoralizado, sem nenhuma guerra ou violência física, havendo apenas a força da forte simbologia da humildade, da arte e do diferenciado estado de espírito de um jogador como o lateral brasileiro, referenciado, de que falo no parágrafo seguinte.
Sem qualquer gesto obsceno ou ação arrogante, Daniel Alves, dotado de forte sabedoria baiana, surpreendeu a todos ao comer uma banana jogada no campo, por um torcedor racista, no jogo acima referido, querendo tê-lo como “macaco” e identificá-lo como “negro”, antes de chutar um “tiro de canto” em favor do seu time. Como visto nos meios de comunicação, não imaginava que seu gesto natural, contudo grandioso e indelével, seria um marco contra o racismo. Não pensou que alcançasse repercussão tão grande, tão oportuna, tão necessária e imprescindível, a ponto de receber os mais importantes apoios de todas as partes do Universo, começando pelo dos colegas de futebol, como o do amigo e compadre, goleiro Márcio, do Atlético Goianiense, com amizade iniciada em Salvador, na Bahia, ao mais simbólico, do companheiro de equipe, Neymar, admitindo com adequada ironia, que agora “somos todos macacos”.
Considero como mais importante nesse acontecimento inesperado e infeliz, como de certo modo abordado, o fato de Daniel Alves ter agido com paciência de Jó, grandeza dos humildes, serenidade rara, digna de ser chamada de a “mais impolítica das virtudes”, no dizer do filósofo Norberto Bobbio, notando-se que pegou a banana no chão, descascou e comeu um pedaço e, ainda, sem qualquer aceno insolente, cobrou o escanteio como se nada tivesse acontecido; restando para todos nós, gregos e troianos, a impressão, pra não dizer a certeza, de que ignorou o fato, atitude grandiosa que, decerto, ajudará a mudar o pensamento das pessoas impregnadas de racismo, como David Campayo Lleo, torcedor do time Villareal, preso em flagrante na Espanha, como autor do ato racista contra Daniel Alves,sujeito, portanto, a responder pelo crime de racismo na Justiça daquela país, podendo inclusive ser condenado a cumprir pena de 3 anos, mais R$ 9 mil a R$ 12 mil referentes a uma multa fixada pela lei antiviolência de lá.
Penso que a pena pior e mais grave em desfavor de David Campayo, já aconteceu, fundada na Moral, em seus três níveis ou configurações: arrependimento, remorso e desmoralização pública no mundo, só havendo chance de reincidência na hipótese de ser um lombrosiano congênito, incurável, ou torcedor fanático irrecuperável.

(Martiniano J. Silva, advogado, escritor, membro da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGGO, Ubego, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM – [email protected])

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