Opinião

Caminhando pelas ruas de Londres na companhia de Couto de Magalhães

diario da manha

No segundo semestre do ano de 1876, Couto de Magalhães, após ter governado os estados (Províncias) de Goiás, Mato Grosso e Pará, foi para Londres, onde viveu por dois anos; sua missão era conseguir convencer alguns banqueiros daquele centro financeiro, na época o mais importante do mundo, a comprarem uma concessão que ele havia recebido do Imperador Dom Pedro II, para construir uma estrada de ferro (Rio and Minas Railway).
Em 2005 publiquei o livro-biográfico (Couto de Magalhães, o Último desbravador do Império, Ed. Kelps, pp 267) e dividi a narrativa em 3 capítulos, sendo que no segundo destrincho a rotina de vida de Couto de Magalhães em Londres.

A narrativa que faço naquele livro é baseada no “Diário” que ele escreveu durante esse tempo de sua permanência em Londres e que foi descoberto, fortuitamente, nas dependências do Arquivo do Estado de São Paulo, como informa a Professora Maria Helena P.T. Machado e que após organizado pela citada pesquisadora, foi editado pela Cia. das Letras, em 1998, com o título de “Diário Íntimo”.
Durante alguns dias, como ele descreve no “Diário”, procurou conhecer a cidade e para isso fazia grandes caminhadas pelas suas ruas, principalmente as mais centrais.
Em uma destas caminhadas ele foi parar na “New Bond Street” e, ao ali chegar, “entrou em uma galeria de artes, cujo nome, Galeria do Doré, chamou-lhe a atenção pelos dizeres dos cartazes colocados na porta, alertando os transeuntes para a exposição de quadros de um pintor de nome “Manet” que estava fazendo algum sucesso em Londres, principalmente pelos elogios frequentes partidos do célebre romancista francês. Emile Zola.
Couto foi tentado a comprar um quadro com uma bela paisagem policrômica, porém, por qualquer motivo que não o financeiro, desistiu, depois de, inclusive sentar-se, demoradamente, de frente a uma pintura do citado artista que lhe chamou especialmente a atenção, tendo discutido com o “marchant” alguns detalhes da técnica que estava sendo empregada pelo pintor na produção daquele particular trabalho.
– Quero que o senhor conheça “Olympia”, disse o marchant, obra realista onde o artista expõe toda sua visão anticonformista sem se preocupar com o possível escândalo iria provocar no gosto dos burguêses, uma vez que, ele mesmo, pertence a esta classe social; Olympia, fala já um pouco agitado o marchant, é mais escandalosa do que muitas obras realistas que conhecemos, inclusive, com mensagem social explícita.
Pelo que estou percebendo, o senhor gosta muito de pinturas, não deixe de passar, de vez em quando, na National Gallery que está localizada na Trafalgar Square; ali o senhor terá a oportunidade de conhecer muitas e maravilhosas pinturas.
Couto agradeceu, despediu-se e continuou sua caminhada; antes de demandar um “Tilburi”, entrou em uma farmácia e comprou um purgante de sulfato de magnésia.
Ao chegar em casa, logo após trocar de roupa e colocar um traje mais confortável, acendeu a lareira, sentou-se confortavelmente e passou a fazer uma autoanálise do estado geral da sua saúde, como sempre fora seu costume; depois, quase que reflexamente, passou a procurar nos livros de medicina que possuía, explicações e possíveis tratamentos para este ou aquele sintoma”
Os leitores que tiveram a oportunidade de ler o “Diário Intimo” podem observar pela narrativa que faço no livro, que embora tenha sido fiel ao que ele registrou no seu “Diário”, romanciei um pouco o que ele fazia no seu dia-a-dia, inclusive alguns diálogos.

Hélio Moreira
Há alguns anos, meu filho Hélio Junior e eu fomos a Londres e, em ali estando, resolvemos fazer algumas caminhadas, repetindo alguns percursos feitos por Couto de Magalhães naquele longínquo ano de 1876, como narrados no seu “Diário”; como estávamos na famosa Oxford Circus, entramos na rua “New Bond Street” a procura do numero 35, local onde existia, naquela época, a famosa Galeria do Doré (Doré Gallery).
Qual não foi a nossa surpresa ao depararmos com o prédio de numero 35 (três andares) e, embora estivesse fechado, pudemos observar que dos dois lados da sua entrada, na sua parte térrea (comercial) haviam vitrinas, onde eram expostas algumas gravuras.
Ao voltar ao Brasil, fui pesquisar no google e tive a surpresa de saber que, realmente, estivemos no local onde Couto de Magalhães esteve em 1876; resumo o que li na internet:
“A Galeria Doré, situada na Bond Street nr. 35, foi originariamente aberta no ano de 1874 para exibir e divulgar o trabalho do artista francês Gustave Doré, que nasceu em 1832 e morreu em 1883; portanto quando Couto esteve ali, estava recém inaugurada.
Esta galeria encerrou suas atividades no ano de 1913; confirmo esta informação ao folhear o livro de bolso para turistas (karl baedeker) editado em 1911 e que adquiri em um “sebo” em Londres, que registra na sessão indicativa de exposições artísticas, a Galeria do Doré, situada na New Bond street, 35.
Lembro-me, ainda com emoção, que Hélio Junior e eu tiramos algumas fotografias em frente ao prédio e fomos tomar um chop em um “pub”, já nosso conhecido, nas imediações do Picadily.
Foi bom!

(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)

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