Opinião

Heroína nordestina, exemplo de superação

diario da manha

Quando explodiu a Revolução de 1930, um exército de heroínas lutou bravamente numa guerra tão terrível quanto aquela que imortalizou João Pessoa e matou milhares de homens na Paraíba. Entre aqueles que não morreram em combate muitos renegaram a família e nunca mais voltaram para casa. No mesmo ano, nascia Ana Gomes Ferreira, nordestina da gema, cuja história instigante, em contraste com seu corpo franzino, se identifica com a saga daquelas guerreiras destemidas, que assumiram as responsabilidades de chefes de família. Por causa desta luta cruel pela sobrevivência dos órfãos da guerra a pequenina e feminina Paraíba é chamada de terra de “Mulher Macho”.
No viver de seus sonhos, Ana deixou a terra natal na década de 1960 para acompanhar o marido em peregrinação por Brasília, São Paulo, Ouro Verde de Goiás e finalmente Anápolis, onde reside até hoje, aos 86 anos de idade. Décadas de dificuldades e renúncias marcaram a vida de uma mulher que ficou sozinha, sem ter sequer um teto para abrigar os oito filhos. Uma história de trabalho duro, desde os tempos que morava na zona rural, e uma trajetória inimaginável de superação. O somatório de necessidades não afetava a sua fé em Deus nem a sua perseverança tampouco a sua garra. Ela nunca desistia. Apegada à família, quanto mais aumentava a sua responsabilidade mais tempo dedicava aos filhos.
A mudança para Anápolis, na década de 1970, foi em busca de um futuro melhor para os filhos e os sobrinhos, acolhidos pelo seu frágil coração agigantado de amor. Com o passar do tempo, a mãe exemplar, que forjara o futuro de seus descendentes nos princípios da Cristandade e na senda do trabalho já não era mais a única provedora da casa, mas continuava lavando roupa pra fora. Vivia com retidão e simplicidade, ensinando aos filhos a valorizar cada centavo que ganhavam.
A fragilidade do coração, todavia, manifestou uma doença grave que dona Ana enfrentou com a coragem e a forca de uma pessoa jovem e sadia. Calejada no sofrimento e na resignação, a nordestina valente absorveu a debilidade física sem perder a alegria de viver. Como um coração tão frágil sobrevive apenas com um sopro de vida? Um caso a ser estudado pela medicina que pode ser explicado pela compleição do corpo leve como uma pluma. Em compensação, quanto mais o tempo passa, mais o cérebro dela surpreende. Perfeitamente lúcida, não se deixa enganar por ninguém. Enquanto enxerga perfeitamente e tudo escuta, sua memória invejável retrata fielmente passagens da uma juventude tão distante e ao mesmo tão próxima. Para quem o tempo nunca passa, o ontem é agora e o amanhã também.
Agora aposentada e com a família estruturada, finalmente mora em casa própria – presente de Deus e dos filhos – onde acolhe a todos, com o seu jeito nordestino, apesar de viver décadas em Goiás. Roupas, batom e esmalte coloridos, quadros, fotos e objetos típicos, carne de panela chegada na pimenta, pirão, buchada, rapadura, farinha e cumbuca de doce de mamão. Apesar dela comer pouco como um passarinho sua mesa é farta. Gonzagão, xaxado, forró do sertão.Tudo na casa evoca as suas tradições. Voz estralada e mãos inquietas, leveza do corpo esguio e passos suaves no compasso de sua longevidade. É assim que a protagonista desta história notável vive em Anápolis. Com orgulho de ser nordestina. Oxente! Ela não disfarça o sotaque nem esconde suas origens, visse?
Como uma menina, agacha-se e levanta-se sem apoiar em nada. Hábito dos tempos da fazenda da tia que a criou, onde comia com as mãos em um canto qualquer da cozinha e brincava com boneca de pano. Ali, uma professora particular ministrou poucas lições à moça de inteligência rara, que mesmo sem ter acesso a cursos regulares empenhou-se em aprender na faculdade da vida por imposição do destino. Os cabelos, inexplicavelmente enegrecidos até hoje, enrolados no alto da cabeça serviam de apoio para a trouxa das roupas daquela moça dançadeira que fazia, com braçadas curtas porém firmes, a travessia da represa próxima do lugar onde morava. Coragem e ousadia nunca faltaram a ela apesar da pequena estatura.
Fatos pitorescos da história da uma vida real de sofrimentos ao transpor inúmeras barreiras e de alegrias ao alcançar finalmente a superação. O quanto Ana Gomes Ferreira sofreu e lutou para vencer faz parte do resgate de um exemplo de vida singular a ser passado às próximas gerações e de um legado de valor inestimável aos seus descendentes. Uma porta para a história dos filhos e uma janela para o futuro dos netos.
Cada vez mais impressionado com a trajetória de Ana reverencio a memória de outra heroína – Fiúca – minha amada e saudosa genitora, e proclamo que Eliana, minha esposa, é uma grande mulher e uma conceituada professora porque foi criada e educada por uma mãe excepcional.

(Manoel Vanderic é jornalista)

Comentários

Mais de Opinião

27 de outubro de 2018 as 22:23

Brasília – Prazo de validade vencido

27 de outubro de 2018 as 21:44

A estratégia de Pedro

27 de outubro de 2018 as 21:18

Bom dia, Brasil

26 de outubro de 2018 as 21:35

As propostas de Bolsonaro

26 de outubro de 2018 as 21:34

Ensaio sobre a criação do espaço

26 de outubro de 2018 as 21:33

Um amor de Goiânia

26 de outubro de 2018 as 21:32

Brasil e totalitarismo

26 de outubro de 2018 as 21:07

Esses corregedores do CNJ são uma piada

26 de outubro de 2018 as 21:00

O voo do DM

26 de outubro de 2018 as 20:57

Casos de câncer de mama sobem no País

26 de outubro de 2018 as 20:53

O Brasil pede socorro à CNBB!

26 de outubro de 2018 as 20:49

O direito de sonhar