Opinião

Lembranças dos tempos de escola - parte XXXVI

diario da manha

Um dia, Edu, Roney, Maick, Érick e eu resolvemos passar um domingo fora da cidade e decidimos que o local seria a gruta. Vani, parente dos donos das terras onde a gruta se encontrava, decidiu ir conosco, chamou suas irmãs e algumas de suas colegas de aula. Daqueles que foram, eu era quem mais conhecia o local, pois desde pequeno eu já frequentava aquele ambiente. Vani, por ser parente dos donos, também conhecia o local muito bem. Partimos para lá ainda cedo, antes de o sol dissolver a última névoa que camuflava a relva dos leitos da estrada. Levamos carnes, farofas, biscoitos, refrigerantes e outras coisas favoráveis a um piquenique.
Chegando lá fomos acender as velas, depois entramos… Era muito escuro e, para penetrar, precisávamos de claridade. Mesmo com as velas acesas quase não enxergávamos nada. Então, fomos colocando velas desde a entrada, nos pilares naturais esculpidos pela natureza. Não enxergávamos um palmo adiante, porém, era como se enxergássemos tudo. O medo de animais peçonhentos, como sapos, cobras, morcegos e animais ferozes como onças, não existia, pois apesar de serem constantes, esses tipos de animais, estar ali era uma grande satisfação para nós, prova disso é que periodicamente íamos lá. Não para correr riscos, e sim, para nos “revitalizar”, divertir e quem sabe até namorar, ou melhor, ficar.
Fomos até a última sala que ficava a vários metros abaixo da superfície da terra, naquela região. Era uma das minhas salas prediletas, uma vez que estando no centro dela e olhando para cima avistava uma suposta estrela no céu. Na verdade, o que existia de fato era uma brechinha entre uma pedra e outra e quando as pessoas olhavam entre elas viam-se um pedacinho do Universo, em forma de estrela. Tanto aquela sala quanto todas as outras eu a conhecia como a minha estância. Então ali eu entrava sem medo, totalmente no escuro, se precisasse. Só tinha uma estreita passagem, também usada para sair, ficava depois de umas escadarias de pedras, lá no alto. O clima era fresco e as paredes brilhantes. Quando a luz ofuscava nas paredes todo o ambiente ficava reluzente feito ouro.
Levamos todos para a última sala. Maick e eu combinamos para fazer uma brincadeira com algumas das meninas, e escolhemos duas delas, ou melhor, escolhemos não, elas que sobraram para isso. No fundo elas queriam estar sozinhas conosco ali naquela sala em trevas, percebemos. Depois de contemplarmos bastante o local, íamos subindo nas escadas em direção à saída para outras salas… Maick e eu dissemos para elas que conhecíamos muito bem o local e que sairíamos dali até mesmo sem tocha, ou velas, enfim, sem claridade. De início elas não acreditaram e nos colocaram às provas, os demais aventureiros já tinham se curvados e ultrapassado a estreita abertura, Maick e eu íamos atrás e mais atrás ainda iam as duas meninas. Aí nos quatro voltamos ao fundo do salão e todos de uma só vez apagamos as luzes, as labaredas das velas. Depois de apagadas, fingimos de assustados e lembramos as duas que não poderíamos mais acender o fogo, mas era uma inverdade, o acendedor estava escondido na algibeira das minhas calças e não com os demais meninos, pois era parte do plano.
Elas gritavam chamando os meninos para que eles as tirassem de lá, mas no íntimo, notamos que elas estavam realmente gostando de ficar conosco e mesmo que não fosse isso, seus gritos eram em vão, eles não as ouviam, pois já estavam longe, em outras repartições. As duas sugeriram para que fôssemos em direção à saída, para que elas nos acompanhassem. Maick lhe respondeu que, na verdade, ele não conhecia muito bem o local, mas que confiava em mim para tirá-los de lá. Isso era realmente verdade. Cinicamente, eu lhe respondi que ficava lisonjeado de ser merecedor de tamanha confiança, mas que infelizmente teria que decepcioná-los, pois já tinha muito tempo que havia ido lá e, portanto, não sabia mais onde exatamente ficava a direção precisa da saída, principalmente naquela escuridão. Elas entraram em pânico e começaram a gritar por aqueles que talvez já nos esperassem do lado de fora da gruta. Daí em diante fomos nós quem começamos a ficar preocupados com o alvoroço das duas. Claro, apesar de sabermos da impossibilidade dos outros ouvirem os gritos, tememos estarmos errados e ao ouvirem aqueles alvoroços eles pensarem em algo que não estava acontecendo, afinal não éramos tão malvados assim.
Eu tentei consolá-las pedindo calma e em seguida falando que tudo aquilo era somente uma brincadeira e que eu sabia exatamente onde era a saída mesmo no escuro e, ainda assim, caso não conseguíssemos sair devido ao negrume, eu estava com o acendedor. Elas se acalmaram e nos sugeriram para sairmos logo de lá de dentro. Maick abraçou uma e a outra me abraçou ainda trêmula, ofegante e nós nos beijamos longamente. Depois fomos para fora, nos juntamos aos outros e como já era tarde voltamos para a cidade. De volta fomos abraçados e conversando, Amelly, a garota que eu a beijei, me perguntou se realmente eu conhecia tudo aquilo ali, tão bem assim como eu havia falado. Eu a respondi que sim, pois quase sempre eu ia lá com os meus colegas. Ela insistiu em perguntar se todas as vezes que eu ia lá, ficava com uma garota diferente. Eu poderia ter lhe respondido que nem sempre íamos lá com garotas, mas optei por deixá-la sem resposta e a convidei para sairmos à noite. Ela aceitou o convite, mas precisava da autorização dos seus pais, coisa que acredito não ter acontecido, uma vez que à noite ela me deixou plantado no local combinado e não compareceu. Creio que o leitor deve está imaginando: a gata deu o bolo no cara! Exatamente, fui mandado para a segunda divisão! Mas aquela noite não foi tão ruim assim, meus colegas e eu nos divertimos muito. Verdade é que depois nem a procurei para saber o motivo certo pelo qual ela não compareceu ao nosso encontro e para falar a verdade acredito nunca mais tê-la visto, até mesmo o seu nome, só lembro porque Maick a conhecia e sempre falava, informalmente.

(Gilson Vasco é escritor)

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