Opinião

O centenário do Coronel Hipopota

diario da manha
As duplas caipiras no programa com as Hipopotecas

A saudade tem um lugar e ela é viva, latente, persistente. O lugar da minha saudade, hoje, recuado no tempo, é uma casa velha de roça, perdida lá no sertão, que nem mais existe. Desapareceu a casa e o sertão. Agora eles existem apenas dentro da minha lembrança e, às vezes, esta é tão grande e insuportável, que se derrama pelos olhos em dias de imensa tristeza.

A saudade é como um riacho sombreado que, às vezes, transborda e deságua num imenso oceano de tristezas; velhas lembranças numa enchente de emoções.

O lugar geográfico da minha saudade também tem um tempo e se escorre numa manhã de domingo, chuvosa, fria; mas com o calor do fogão de lenha na grande cozinha, com o cheiro das flores do quintal carregado de sombras; com o barulho dos bichos do quintal; com o aroma da cozinha preenchida de sabores tantos, em especial, naquelas tardes, da pamonha picadinha sendo frita numa imensa panela de ferro sobre a chapa escaldante.

Era a hora sagrada em casa, naquela velha casa de janelas de madeira, lá na roça, em que meus pais, as pessoas dali de perto; gente simples de chapéu na cabeça, botinas nos pés, almas de sol, mãos calejadas, vinham, como num ritual, assistir ao programa do Coronel Hipopota, o “Republica Livre do Cerradão”.

Não havia energia elétrica e o pequeno aparelho de televisão funcionava ligado à bateria do trator, que era carregada. Então, os programas eram racionados, selecionados, conforme o gosto, pois a carga da bateria não durava muito. Às vezes, no melhor de uma cena, a danada paf! apagava. Dava uma raiva… não raras vezes escutei minha mãe xingando, disfarçadamente, em resmungos, quando saía da sala.

Eu era menino de uns seis ou sete anos e participava daquele pequeno mundo carregado de significados. Enquanto os adultos, meu pai, os peões, minha mãe, os vizinhos, os compadres, estavam ligados ao programa, eu gostava de ficar assentado no chão, no ladrilho lavado da sala, comendo os pedacinhos fritos de pamonha bem torradinha, que repartia com meu cachorro, o Lulu, e, também, com uns frangos, galinhas, cocás; que, mansos, muitas vezes, cruzavam a sala, na esperança de uns fanicos de comida.

Assim era o universo naqueles domingos ditosos, de pungentes recordações, ligados ao apreciado programa do Coronel Hipopota – um mito entre todos – e a programação rica e variada das modas de viola, dos cantores caipiras, notadamente Silveira e Barrinha, com a música que eu gostava, a “Linda cigana”, de ritmo gostoso, que extrapolava as janelas antigas e se espalhava pelo terreiro varrido, ao amanhecer.

40 anos se passaram disso tudo e, ao fechar os olhos, pelo milagre da saudade, tudo se faz vivo no meu coração. Hoje, sou um jovem senhor de 46 anos de idade a contemplar o céu de minha janela, buscando o infinito…

Coronel Hipopota agradava o público em geral e notadamente o sertanejo. Sua figura era marcante e sua presença se impunha, com seus recursos de apresentador, pioneiro por sinal, dos talentos goianos em programas de auditório; o que não era fácil, dadas as limitações da época. Eu era menino e não sabia disso, mas, naquela velha casa na roça, eu participava de um mundo carregado de significados.

Hoje, com todas as tecnologias e o acelerado ritmo de vida, não há espaço para as recordações. Pouco se lembra e se tem mesmo saudades do futuro. A onda presentista sepultou pessoas que passaram por esse mundo e plantaram histórias dignificantes e se perpetuaram nas recordações caras e pungentes, ao menos aos que ainda cultivam a gratidão.

Hoje, falar do Coronel Hipopota abre um imenso vazio nas novas gerações tão carentes de bons exemplos e bons programas. O frio laconismo das rápidas comunicações ampliou o leque de esquecimentos. Deletar é um verbo que não existia!

Não se pode deletar da história da televisão goiana a figura de Maximiliano Carneiro, o eterno e único Coronel Hipopota!

Na velha e pitoresca Araguari, no Triângulo Mineiro, antigo Sertão do Novo Sul ou Sertão da Farinha Podre, sacudida pelo resfolegar da Estrada de Ferro Goyaz, nascia há cem anos, a três de julho de 1916, Maximiliano Carneiro, filho de Miguel Carneiro e Aciba Carneiro, de origem árabe. Teve ele vários irmãos: Omar, Camel, Almir, Sérgio, Ivan e Miguel.

Nascido num dia de sol e de vento, o seu nascimento suscitou no meio familiar muita festa, foguetório e alegria, prenúncio de homem festeiro e alegre que seria por toda a vida. Sua existência foi uma festa aos olhos e ao coração.

Ele foi, de fato, um menino prodígio. Aos dois anos em Araguari, em 1918, ele já comia quibe cru, falava árabe e tinha a habilidade de fazer contas de somar e multiplicar. Muita gente se reunia para ver sua inteligência e assombrar-se do fato.

 

Coronel Hipopota e suas Hipopotecas. Alegria constante
Coronel Hipopota e suas Hipopotecas. Alegria constante

Bento Fleury 2

O Coronel no traço de Jorge Braga para o DM de 1981
O Coronel no traço de Jorge Braga para o DM de 1981

 

De físico hígido e atlético no seu tempo, participava da vida de sua cidade, no interior, com seus festejos e eventos. Cursou o Ginásio Diocesano, famoso em sua terra e, atendendo ao gosto do pai, foi cursar Medicina no Rio de Janeiro, mas ficou apenas um ano e, em 1935, voltou para junto da família que, em busca de melhoras, transferiu residência para São Paulo.

Desistindo do curso de Medicina, fez o de Ciências Exatas e Filosofia, mas gostava mesmo de arte e de estar em contato com público, das artes populares por sinal. Foi professor de Português e Matemática e tinha pleno domínio da língua árabe, além de inglês, francês e espanhol. Lecionou ainda Direito Comercial.

Habilidoso e trabalhador como todo bom árabe, Maximiliano Carneiro foi comerciante de laticínios e cereais em São Paulo, sorveteiro em Jaú, comprador de batatas em Campinas (São Paulo), ampliando seus horizontes em diversas áreas, dada a sua contagiante alegria e carisma.

Ainda em São Paulo fez tentativas na área do cinema e do teatro, sem sucesso. Depois tentou a área do jornalismo falado e escrito, editando alguns jornais e participando de diversos programas, na parte de edição.

No ano de 1942 retornou ao Triângulo Mineiro onde passou a residir em Uberlândia, antiga São Pedro de Uberabinha. Ali, com seu corpo pesado e grande, ganhou o apelido de hipopótamo na posição de ponta direita, no futebol que tanto amava. Mais tarde, sua performance aderiu outra alcunha, a de “Coronel”, dada a sua postura a lembrar as autoridades policiais de seu tempo. Também, em Uberlândia, participava como Rei Momo de maior destaque em muitos carnavais.

Amante do futebol, no Praia Clube criava apelidos certeiros que se aderiam aos apelidados, como Jacaré, que era goleiro; dromedário, que era o centro avante; a si mesmo sugeriu Cavalo d’água por conta do corpazil, depois adaptado para hipopótamo e, por corruptela natural, passou a ser “Hipopota do Nossa Fazenda”. Uniram-se os nomes e o programa.

Nessa bela cidade de Minas fundou os jornais Praia Clube e O choro, realizando muito pela cultura local, tornando-se, também, conhecido por sua dedicação e permanente entusiasmo pela vida. Fez muita coisa dentro da cultura oficial, erudita. Fundou até cursinho, mas achava muito vil a forma de exploração às pessoas que se dedicavam ao conhecimento.

No ano de 1956, ainda em Uberlândia, Moraes Cesar, grande nome do rádio, deixou a Rádio Educadora para ser astro da Rádio Anhanguera em Goiânia. O ainda professor Maximiliano ficou responsável pelo seu programa “Nossa Fazenda” e logo descobriu que o mundo da comunicação popular era o seu caminho. Sentia-se feliz com as coisas dos simples, da gente miúda e sertaneja.

Casou-se, em 1961, com Maria José Rodrigues, a Zezé, e transferiu mudança para Goiânia, onde já se encontrava parte de sua família. Aqui criou sua única filha, Jane Nacare, que, mais tarde, lhe deu três netos. Nessa cidade, assumiu a direção da Rádio Anhanguera, que seria embrião, mais tarde para o seu programa de auditório. E os apelidos em casa também variaram por conta da esposa: Max, Nenê, Dundum e Popota, finalmente, num casamento bonito até o fim.

Em meados de 1963, o programa passou a ser apresentado na Televisão Anhanguera, tendo sido pioneiro em música sertaneja na época. Ele uniu seus apelidos anteriores, de Coronel e a mudança para hipopota, de onde nasceu a definição que o eternizou “Coronel Hipopota”, líder de audiência em seu tempo, principalmente no carisma da gente sertaneja e cabocla do coração do Brasil, do Brasil Central, do Centro Oeste.

Ele esteve no ar por 17 anos, apenas com duas interrupções; uma quando da censura da repressão militar, em punição à frase que dizia, ao vender as linguiças feitas por sua esposa, no jargão “quem quer a linguiça da primeira dama?”, o programa ficou fora do ar uma semana e a outra foi motivada por sua morte, já que faleceu num sábado, mas já tinha gravado o programa; porém, faltou luz na TV Anhanguera na manhã de domingo seguinte. Fora essas interrupções, ele seguiu impávido por todos esses anos.

Seu programa foi apresentado primeiro às quintas feiras, depois aos sábados e, finalmente, aos domingos. Não era imitação do Abelardo Barbosa porque o antecedeu no tempo, até mesmo com as Hipopotecas, pois muito depois é que surgiram as chacretes e, ainda, as Boletes, no programa do Bolinha, da TV Bandeirante.

Numa terra de muitos silêncios, ele foi a voz!

Dono de invejável cultural humanística e grande cabedal científico, ficou longe dos artificialismos do erudito, tantas vezes excludente, e preferiu estar ao lado dos simples e dos puros, tornando-se ídolo. Seu público era a moça simples, empregada doméstica, passadeira de roupa, atendente de balcão; de roupas simples, maneiras singelas, mas de um grande alegria; nascida nas modas e músicas, nas piadas do Coronel, sem obscenidades, mas ao gosto da moçada.

Seu programa tinha a estrutura dos que o antecederam na era do rádio. Os programas de auditório faziam grande sucesso. Tudo girava em torno do próprio Coronel, que criou para si e seus amados, uma República única, onde ele reinava intensamente; tanto é que não foi substituído.

E ele se fazia cada vez mais surpreendente com fatos inusitados e inesperados que criavam situações jocosas, engraçadas e até embaraçosas, como despejar uma carroça de abóboras para seu público, distribuição de brindes exóticos como entradas de cinema e um macaco. Certa feita, ele deu um macaco de brinde! Também certas competições esdrúxulas como quem seria capaz de comer duas dúzias de bananas com mais velocidade. Tudo diante da animação do seu apresentador.

Ele era um sol. Em torno dele giravam os calouros ali presentes para cantar os sucessos do radinho de pilha, na ambição de chegarem a um Odair José ou Amado Batista, ídolos da nossa terra. Também, as Hipopotecas ali giravam pelo palco, bonitas e simples, esperançosas de sucesso como bailarinas, dançarinas, misses, reconhecimento popular.

Apelidadas de “primas pobres das chacretes” pelo jornalista Dourivan Lima, na edição do DM Revista, de 26 de fevereiro de 1981, pouco tempo antes da morte do Coronel, as moças foram assim descritas com seus “colants de lamê azul, a maquiagem forte e o eterno sorriso postiço. Durante as gravações elas se mantém paradas, enquanto o Coronel, com sua voz grossa e pastosa, anuncia produtos Go-Go”.

O jornalista descreve a rotina do programa, com as moças a dançarem conforme o ritmo. O Coronel chegou a ter oito hipopotecas, na faixa dos 14 aos 20 anos de idade. Uma das primeiras e, mais famosa, foi Dinair Gonçalves, que, depois, passou a secretária, maquiadora, selecionadora e professora de dança das hipopotecas do programa. Começou em 1970 a ficou até 1981. Outras passaram como Selma, Vera Lúcia, Aparecida, Clarice e Samanta, além de outras.

Em grande maioria, moças de origem simples, residentes na periferia de Goiânia, viam na chance de aparecer no programa uma oportunidade de se fazerem conhecidas, abrir algum possível espaço artístico ou mesmo fugir do marasmo da cidade naquela época. Todas eram tratadas com respeito paternal pelo Coronel, que não admitia falta de educação, liberalidade e tinha a concordância dos pais das que eram menores.

A platéia era composta por moças simples, gente do povo, que, com vaias ou aplausos, decidiam o destino dos calouros. E se faziam importantes, porque em suas vidas comuns, o programa era o único momento de extravasamento, de catarse e o faziam com ímpeto.

Muito parecido com o Chacrinha, guardadas as devidas proporções, o mesmo era de agrado do grande público e rejeitado, é claro, pela elite intelectual. Regado a muito riso, alegria e divertimento, o povo simples adorava o Coronel.

Com meus olhos infantes, lá na roça, eu sabia disso, quando os vizinhos ou os peões riam alegres, alguns de bocas banguelas, com os acontecimentos do programa ou quando assistiam uma moda boa, de seus cantores caipiras preferidos. Havia delírio na sala quando se anunciava André e Andrade!

Quando de sua morte inesperada aos 64 anos de idade, em 1981, uma verdadeira multidão desolada e triste, o acompanhou até a sepultura, ciente que perdia um mito inimitável e insubstituível e que fechava-se, ali, uma página alegre da vida goiana por tantos anos.

No jornal Diário da Manhã do dia 15 de abril de 1981, o jornalista Batista Custódio escreveu uma linda crônica intitulada “Morre um parente de Deus”, em que destacou, poeticamente sua presença marcante na TV goiana, desmentindo ser o mesmo apenas um “Chacrinha caboclo”, pois afrontou o seu tempo com sua desusada coragem.

Também o jornalista Oscar Dias, a edição do Diário da Manhã de 16 de abril de 1981 destacou Maximiliano Carneiro como “Hipopota, a alegria do povo”, ao se referir ao seu carisma e entusiasmo inigualáveis. Evocou a necessidade de ídolos alegres contra a tristeza do povo goianiense, das dificuldades da vida.

Disse o jornalista ser o Coronel um homem que não se afastava do povo e que estava distante da concorrência acirrada da mídia e dos interesses financeiros escusos e injustos e escolheu morrer junto ao povo, numa feira livre, cheia de gente; o seu povo, o seu público.

Solidário e humano, condoía-se do sofrimento alheio. Alegre, foi Rei Momo, Papai Noel, Sherife nas festas juninas. Amava a festa e festejava a vida.

Antes do seu República, trabalhou em programas como o “Nossa Fazenda”, substituindo Moraes Cesar, depois o “Mamãe é que manda no rádio”, em que era o personagem “Filho Maxim”, resolvendo, por telefone, problemas e questionamentos de dezenas de mães, ao lado de Magda Santos, Antonio Humberto e J. Junior.

Participou ainda de uma agência de publicidade em Goiânia, a Publimax e na Rádio Anhanguera começou fazendo programas sertanejos e no começo do Canal 2, as dificuldades eram várias.

Apresentava-se ao vivo, ao lado de Lindomar Castilho, que, na época era o Lindomar Cabral, uma propaganda de colchão. O Lindomar com sua voz inigualável cantava: ” Deitar na cama/num colchão de mola/vê se não amola/deixar eu dormir toda hora”. E o Coronel Hipopota, num simulacro de sono, deixava cair seu corpazil sobre o colchão, num desabamento. E era um imenso homem, calvo, rotundo, 130 quilos e 1,81 m de altura. Era um sucesso!

Participava do programa “Musical no 2” de Fued Nassif, em que comandava o quadro “Casos dolorosos da cidade”. Por meio desse quadro, conseguiam remédios e cadeiras de rodas para necessitados das chamadas “invasões” de Goiânia; o que ele muito gostava de fazer, embora não fosse religioso, praticava muito o bem ao próximo.

Pelo seu programa passaram nomes variados como Gilberto Gil, Vinícius de Moraes, Toquinho, Quatento em Cy, MPB-4, Cauby Peixoto. Muitos hoje famosos cantores ali começaram suas carreiras como André e Andrade, Zezé de Camargo, que cantava com seu irmão Zazá, da dupla Zazá e Zezé. No seu programa Geraldo Vandré cantou o “Pra não dizer que não falei de flores” e, em Goiânia mesmo, o cantor foi preso.

De forma inusitada, muitos recebiam como cachê por suas apresentações, raízes de mandioca, inhame, batata, botinas, doces, queijos, requeijões e bananas, numa valorização da ainda insipiente produção de subsistência do homem do campo, uma propaganda do que Goiás tinha.

Também, realizava programas em festas pelo interior, com sua equipe e as hipopotecas, levando alegria contagiante aos mais distantes rincões, sempre a valorizar os cantores regionais. Gostava de estar nessas festas interioranas, em meio ao povo; também gostava das feiras (tanto que numa delas morreu) e de se misturar com os cheiros e temperos de nossa gente mais autêntica.

Mesmo com acirrada censura do governo militar, Hipopota não parou de trabalhar, nem esmoreceu. Tinha que mostrar com muita antecedência o roteiro da cada programa. Até mesmo as cores das roupas das hipopotecas tinham que ser descritas para e evitar alguma mensagem subversiva camuflada. Houve até implicância com o nome “República livre”, que soava como uma provocação.

Com a mais absoluta dignidade, ele prosseguiu. Sua autodefinição num largo sorriso era majestosa: “Soberano plenipotenciário da República Livre do Cerradão”! Seu último desejo era fazer a festa no que seria a transferência dos veículos da Organização Jaime Câmara para a nova sede, no Setor Serrinha, o que não aconteceu.

Também sonhava em fazer um programa numa fazenda, de forma externa, montado num cavalo, ou abrindo a porteira ao som de uma música sertaneja, mas, à época, não havia maquinários próprios para tal. Ele queria transformar o seu República em um grande show.

Em 1977, recebeu o título de “Homem de televisão do ano”, merecida homenagem do Grêmio Teatral Carlos Gomes. Era amado e venerado pelo povo e isso é que interessava para ele, na sua contagiante alegria.

O programa República Livre do Cerradão resistiu impávido e bravamente `a sanha invasora dos enlatados nacionais e à especulação capitalista dos espaços de mídia. Com a morte súbita do Coronel Hipopota no dia 13 de abril de 1981 o referido programa saiu do ar. Não se procurou nem ao menos substituir o horário com um outro programa produzido nas terras do Anhanguera.

Mesmo a esposa, natural sucessora do Coronel, tentou conseguir que o programa continuasse e que a cultura popular goiana, nele inserida, tivesse um espaço, mas foi em vão; já que de 1963 a 1981 o Coronel não tivera vínculo empregatício com a emissora, apenas comprava o horário e assumia os riscos.

E todas as tentativas foram em vão, desaparecendo para sempre a República Livre do Cerradão, cenário alegre das quintas, depois sábados e domingos dos goianos de outrora, dos artistas locais e da pureza do homem do campo, que tanto se identificava com aquele grande, imenso, destacado homem, que ousou sonhar e distribuir seu sonho com todos os que amava.

Ele se fez presente em muitos lares, milhares de lares pobres e roceiros, das beiras de córrego, das chapadas, serras, cerradões e campinas desse imenso Goiás. Sua voz possante trouxe alegria a muita gente, desprovida de dinheiro, luxo ou ambição; mas crente na alegria singela, nascida do âmago do coração.

Um homem como esse Coronel Hipopota não vai morrendo assim facilmente!

Morreram muitos depois dele e desapareceram para sempre; mas de vez em quando, em certos corações saudosos, ele reaparece brando e perene, trazendo lembranças doces ou amargas, de tempos que se eternizam na imensa saudade que todos carregamos pela vida.

Pensando nele, com ternura, vejo que a morte definitiva é apenas um último ato. Aquela queda na feira em meio ao povo foi apenas uma pausa na vida espiritual imensa que ele já tinha e passou a ter nesses 35 anos em que alcançou outros mundos, numa pátria sem adeus.

Essa morte, último ato espetacular do que chamamos fim, nada mais é que a derradeira cena, a cena final, das mil mortes que vamos morrendo ao longo da vida. Agora, ao reportar-me àquelas manhãs de domingo, chuvosas, lá na casa velha da roça, vejo, com os olhos molhados por aquela chuva, que eu também morri muito, morri imensamente.

Procuro o menino assentado no assoalho lavado da sala imensa, de janelas de madeira, abertas ao quintal, o prato com pedaços de pamonha fritinha, com o cachorro Lulu, os frangos, galinhas, cocás, patos a passarem ali vagarosos e ávidos por fanicos de comida; procuro minha mãe, ainda jovem a sorrir para mim, agora a dormir, tão calada, sob a lápide; meu pai, tão forte e disposto, hoje um velhinho de mãos trêmulas e andar vacilante; os compadres Zefa, Deliro, Fiinha, Tonho Cascavel, onde estão eles agora? E o Coronel, tão vistoso e alegre, naquela pequenina TV movida à bateria do trator?

Morremos todos nós, pela própria morte ou pelo esboroar de um sonho! Pela impossibilidade do tempo!

Continua uma chuva incessante nos meus olhos a se derramarem em tanta tristeza pelo fim das coisas nesse mundo; pelas ausências e pelo peso profundo da palavra “nunca mais”.

Minha alma se eleva a Deus e agradece pelo tempo bonito que Ele me deu. Agradeço pelos meus pais tão queridos. Por aquela vida tão pobre, doce e afetiva, que muitos, hoje, milionários, não possuem.

Eu sou, chorando, aquele menino assentado no assoalho lavado da sala. Meu universo se agiganta e eu olho pela janela e vejo o céu derramado em chuva fininha, que se confunde com as lágrimas de meus olhos. As florzinhas do terreiro, singelas, estão molhadas no aveludado toque de Deus. Ouço o programa República Livre do Cerradão e minha alma se adoça num suave alumbramento.

Deus era mesmo um menino e poetizava amanheceres!

 

(Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, graduado em Letras e Linguística pela UFG, pós-graduado em Literatura Comparada pela UFG, mestre em Literatura pela UFG, mestre em Geografia pela UFG, doutorando em Geografia pela UFG, escritor, professor e poeta – [email protected])

Comentários

Mais de Opinião

27 de outubro de 2018 as 21:44

A estratégia de Pedro

27 de outubro de 2018 as 21:18

Bom dia, Brasil

26 de outubro de 2018 as 21:35

As propostas de Bolsonaro

26 de outubro de 2018 as 21:34

Ensaio sobre a criação do espaço

26 de outubro de 2018 as 21:33

Um amor de Goiânia

26 de outubro de 2018 as 21:32

Brasil e totalitarismo

26 de outubro de 2018 as 21:07

Esses corregedores do CNJ são uma piada

26 de outubro de 2018 as 21:00

O voo do DM

26 de outubro de 2018 as 20:57

Casos de câncer de mama sobem no País

26 de outubro de 2018 as 20:53

O Brasil pede socorro à CNBB!

26 de outubro de 2018 as 20:49

O direito de sonhar

26 de outubro de 2018 as 20:47

O STF legisla demais