Opinião

Consciência negra no Brasil

diario da manha

Que importa o cabelo pixaim, os lábios carnudos, o nariz achatado? O racismo enrustido? O próprio negro responderia: Eu sou um negro, senhor! O negro dos Quilombos de Palmares. Do Rei Zumbi. Do Teatro e Auto de Zumbi. Tenho carta de princípios. Sei o que estou fazendo. Notem que, segundo Karl Marx, “um negro é um negro. Só sob determinadas condições, ele se torna um escravo”. Aliás, o poeta negro Solano Trindade, enfático, ensina:

 

“Eita negro!

Quem foi que disse

Que a gente não é gente?

Quem foi esse demente,

Se tem olhos não vê…”

 

Este “Consciência Negra no Brasil”, certamente dotado dos requisitos expostos, autoria de Raimunda Nilma de Melo Bentes (do CEDENPA); arte de Rosário Cabral (Djosa) – Cabo Verde; retoque, Liege Solange Amorim Brito, Belém do Pará; é uma relíquia dos meus arquivos, resultado das lutas do povo negro brasileiro de que participo, orgulhosamente.  São 13 parágrafos impactantes, dignos de transcrição:

“Ter consciência negra, significa compreender que somos diferentes, pois temos mais melanina na pele, cabelo pixaim, lábios carnudos e nariz achatado, mas que essas diferenças não significam inferioridade. Que ser negro não significa defeito, significa apenas pertencer a uma raça que não é pior e nem melhor que outra, e sim, igual.

Ter consciência negra, significa compreender que somos tratados como subumanos, para que acreditemos ser inferiores passíveis de exploração, sem direitos de exigir tratamento exatamente igual aos dos não-negros.

Ter consciência negra, significa compreender que somos discriminados duas vezes: uma porque somos negros, outra porque somos pobres, e, quando mulheres, ainda mais uma vez, por sermos mulheres negras, sujeitas a todas as humilhações da sociedade.

Ter consciência negra, significa compreender que não se trata de passar da posição de explorados para a posição de exploradores e sim de lutar, junto com os demais oprimidos, para fundar uma sociedade sem explorados nem exploradores. Uma sociedade onde todos tenhamos, na prática, iguais direitos e iguais deveres.

Ter consciência negra, significa combater todas as tentativas dos opressores em nos dividir, não somente entre nós mesmos, mas também dos demais segmentos que lutam por uma sociedade de iguais.

Ter consciência negra, significa compreender que a luta contra o racismo, não é uma luta somente dos negros e sim de toda a sociedade livre onde exista racismo.

Ter consciência negra, significa constatar a força de nossa cultura, de nossa gente, que mesmo sob chicote, fez-nos sobreviver e continuar essa luta, desde as escolas onde somos poucos, até aos presídios onde somos muitos e todos psicologicamente massacrados.

Ter consciência negra, significa compreender que para ter consciência negra não basta ser negro e até se achar bonito, e sim que, além disso, sinta necessidade de lutar contra as discriminações raciais, sociais e sexuais, onde quer que se manifestem.

Ter consciência negra, significa compreender que nós negros construímos, praticamente sozinhos, as bases deste Brasil e hoje somos mais da metade da população, temos direitos, portanto, de exigir do segmento não-negro o pagamento de parte desses débitos, já que o desrespeito moral, as humilhações a nossos antepassados jamais poderão ser reparados.

Ter consciência negra, significa compreender que a organização é fundamental na luta contra o racismo e que, como a maioria de nós pertence à chamada classe baixa da população, a causa dos chamados delinqüentes,marginais e prostitutas é também a nossa causa.

Ter consciência negra, significa compreender que a luta contra o racismo é longa e árdua, mas que nela devemos depositar a máxima energia possível, para que futuras gerações de negros, possam viver livres das humilhações que marcaram a vida de nossos antepassados e marcam as nossas hoje.

Ter consciência negra, significa juntar às nossas forças, a força milenar da crença, nas transformações de Exu, na justiça de Xangô, na tenacidade guerreira de Ogum, Iansã, Oxossi e todos os Deuses das religiões africanas, para levar a luta até a vitória total.

Ter consciência negra, significa, sobretudo, sentir a emoção indescritível, que vem do choque, em nosso peito, da tristeza do tanto sofrer, com o desejo férreo de alcançar a igualdade, para que se faça justiça ao nosso Povo, à nossa Raça.” AXÉ

 

(Martiniano J. Silva, advogado, escritor, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras Mineirense de Letras e Artes, IHGG, UBEGO, mestre em História Social pela UFG, professor universitário.([email protected]))

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