Opinião

O rebelde da democracia alvinegra

diario da manha

Rimbaud, Baudelaire, Allen Ginsberg, Jack Keroauc, Jim Morrison e outros malucos que transgrediram as regras. O que eles têm em comum? Simples: fizeram de suas respectivas vidas o palco de seus inconformismos, e seguiram à risca o ensinamento de Ginsberg. “O universo morre conosco.”

No caso de Casagrande, foi um pouco diferente. Ele não morreu, mas passou perto. Viu a cara da morte algumas vezes, e teve de virar as costas e ir embora. “Durante minha vida o diabo me deu muitos toques, porque eu acreditava nele. Mas ele me fez mal, muito mal”, relata.

Casagrande marcou época no Corinthians, no início dos anos 80. Ao lado de Sócrates e Wladimir foi um dos mentores da Democracia Corintiana. Em 2012, ele se emocionou quando o seu Corinthians ganhou o Mundial de Clubes e, de acordo com o amigo Marcelo Rubens Paiva, Casão ficava no celular avisando todo mundo que a finalíssima iria começar.

Sua vida dá um livro. Dá um filme. Dá, até, uma ópera rock sob a supervisão de Luiz Carlini, Nasi, Lobão, Lee Marcucci e Titãs, galera bem conhecida de seu ciclo de amizades. Ópera que, aliás, começaria com ele sozinho em seu apê no bairro Alto Pinheiros, em São Paulo.

Janelas fechadas há dias, e as portas, trancadas. Acende um Marlboro Light, dá um trago. Por que sempre queremos mais?

O protagonista Casão, de bermuda, tranca as portas. Coloca um DVD do The Doors e vê Jim Morrison cantar, pela enésima vez, The End. Primeiro, estica uma carreira e dá um tiro. Toma uns comprimidos pra acelerar o barato. Faz um torniquete, e procura alguma veia que ainda aguente o tranco. E pra dar a liga final, acende um baseado.

Ele se deita no chão sobre um mandala, abraçando um crucifixo. “This is the end, my only friend, the end of our/elaborate plans, the end of everything that/stands, the end, no safety or surprise, the end…” Difícil de ser imaginada, essa cena era bem comum nos últimos dias de uma viajem ao fim do mundo.

Graças a intervenção da família, Casão é levado a uma clínica de reabilitação e fica os primeiros meses sem jornal, nem tv. De presente, ele pediu a um colega de clínica a biografia de Eric Clapton – deus supremo do rock que também enfrentou problemas com drogas.

Ao todo, o tratamento durou um ano.

Repensa. Relembra. Aos dezoito anos, faz quatro gols na estreia pelo Corinthians. E sobre o Palmeiras – maior rival do alvinegro. Parece sonho de um guri que aspira ser jogador, mas Casagrande começou assim.

Corta. Ponto. Parágrafo. Agora estamos no comício das Diretas Já, em 1984. Ele, Sócrates, Wladimir e Zenon diante de 1 milhão de pessoas, no Vale do Anhangabaú. “Queremos eleições diretas”, gritam ao lado de Osmar Santos.

Em outro flashback aparece com dois amigos levando batida da Rota, na Marginal Tietê. Os caras procuravam flagrante, que Casão dispensara segundos atrás. Já famoso e articulador da Democracia Corintiana, o jogador apanhara da polícia e, dias depois, foi preso no aeroporto Santos Drumont pela Polícia Federal – braço da ditadura militar, que anunciara sua prisão com alarde.

Colecionador de histórias inusitadas, Casão é considerado um dos maiores ídolos do Corinthians – clube que torce desde pequeno. Fã de MPB e literatura, o comentarista tentou produzir alguns shows de Raul Seixas, no início dos anos 80. “Fiquei puto. Não ter o Raul Seixas em um festival de rock no Brasil foi foda. Tinha que ter de qualquer maneira, o tempo que ele aguentasse”, afirmou ele, após ficar sabendo que Raul não tocaria no Rock in Rio, de 1985.

Em entrevista à Revista Trip, o ex-jogador contou como conheceu os Novos Baianos. Ele estava na Bahia, com vontade de pitar um baseado quando encontrou “três cabeludos”. “Falei: vou atrás desses caras. Comecei a conversar com os caras, disse que queria fumar um. Eles: “beleza, vem aí com a gente”. Fui atrás e entramos no quarto do Paulinho Boca de Cantor. Conheci o pessoal dos Novos Baianos assim”, descreve.

Muitos acharão que o autor deste roteiro exagerou nas teclas, para ampliar os pontos de virada do enredo. Sim, tudo isso aconteceu. Segundo Marcelo Rubens Paiva, autor do prefácio da biografia de Casagrande, Casagrande e seus demônios, quem descreveu essas cenas foi o próprio Casão.

Doidão, culto e rebelde, Casagrande mora no lado esquerdo do peito da Fiel. Sobre farpas verborrágicas e desconfianças pelo seu jeitão rebelde, ele conseguiu se ajeitar e abandonou a dependência química que, por pouco, quase lhe custou a vida.

Não tem outro jeito. Deixo com a Fiel, Casão: “Doutor, eu não me engano, Casagrande é corintiano.”

 

(Marcus Vinícius Beck, estudante de Jornalismo e corintiano)

Comentários

Mais de Opinião

27 de outubro de 2018 as 21:44

A estratégia de Pedro

27 de outubro de 2018 as 21:18

Bom dia, Brasil

26 de outubro de 2018 as 21:35

As propostas de Bolsonaro

26 de outubro de 2018 as 21:34

Ensaio sobre a criação do espaço

26 de outubro de 2018 as 21:33

Um amor de Goiânia

26 de outubro de 2018 as 21:32

Brasil e totalitarismo

26 de outubro de 2018 as 21:07

Esses corregedores do CNJ são uma piada

26 de outubro de 2018 as 21:00

O voo do DM

26 de outubro de 2018 as 20:57

Casos de câncer de mama sobem no País

26 de outubro de 2018 as 20:53

O Brasil pede socorro à CNBB!

26 de outubro de 2018 as 20:49

O direito de sonhar

26 de outubro de 2018 as 20:47

O STF legisla demais