Opinião

13º salário: lutas, conquista e impactos

diario da manha

Mais uma vez, nes­te fi­nal de ano, a eco­no­mia bra­si­lei­ra re­ce­be­rá a in­je­ção de mais de R$ 200 bi­lhões de­cor­ren­tes do pa­ga­men­to do 13º sa­lá­rio, re­ce­bi­do por 83 mi­lhões de pes­so­as, tra­ba­lha­do­res as­sa­la­ri­a­dos e be­ne­fi­ciá­rios da pre­vi­dên­cia so­ci­al (apo­sen­ta­dos e pen­si­o­nis­tas). Es­sas e ou­tras es­ti­ma­ti­vas es­tão na No­ta à Im­pren­sa di­vul­ga­da pe­lo Dieese­, Eco­no­mia do pa­ís de­ve re­ce­ber R$ 200,5 bi­lhões com pa­ga­men­to do 13o sa­lá­rio (dis­po­ní­vel em www.di­e­e­se.org.br).

O pa­ga­men­to do 13º sa­la­rio já se in­cor­po­rou à eco­no­mia na­ci­o­nal, am­pli­an­do o mer­ca­do de con­su­mo in­ter­no, com o au­men­to dos gas­tos das fa­mí­lias, e mo­vi­men­tan­do boa par­te do se­tor pro­du­ti­vo. As em­pre­sas pro­gra­mam a pro­du­ção pa­ra aten­der o que o 13o sa­lá­rio cri­a­rá de de­man­da adi­cio­nal. As­sim, o gas­to do em­pre­ga­dor, ao pa­gar os sa­lá­ri­os, re­tor­na ime­di­a­ta­men­te co­mo lu­cro, com o con­su­mo de pro­du­tos ou ser­vi­ços. O em­pre­ga­dor in­ves­te na pro­du­ção, con­tra­tan­do tra­ba­lha­do­res, ge­ran­do em­pre­gos e pa­gan­do sa­lá­ri­os, por­que apos­ta e con­fia que te­rá re­tor­no (lu­cro) a par­tir do con­su­mo, que é re­sul­ta­do da so­ma dos sa­lá­ri­os pa­gos por to­da a eco­no­mia.

Mas não é fá­cil fa­zer a ro­da da eco­no­mia gi­rar a fim de di­na­mi­zar em­pre­gos e sa­lá­ri­os. No ge­ral, são os pró­prios tra­ba­lha­do­res que, ao lu­tar por em­pre­gos e pe­la me­lho­ra dos sa­lá­ri­os, es­ti­mu­lam a eco­no­mia. E mais: com es­sas lu­tas e as con­quis­tas ob­ti­das, con­se­guem me­lho­rar a dis­tri­bui­ção de ren­da e en­fren­tar o pro­ble­ma da de­si­gual­da­de.

Mui­tas con­di­ções e be­ne­fí­ci­os que exis­tem no co­ti­dia­no de to­dos nós e apa­ren­tam ser sim­ples­men­te “di­rei­tos na­tu­ra­is”, pe­re­nes, são, na re­a­li­da­de, re­sul­ta­do de mui­ta lu­ta. O 13º sa­lá­rio é um exem­plo. Im­ple­men­ta­do em 13 de ju­lho de 1962 pe­lo pre­si­den­te Jo­ão Gou­lart, sur­giu da gra­ti­fi­ca­ção na­ta­li­na que mui­tos tra­ba­lha­do­res con­quis­ta­ram du­ran­te a dé­ca­da de 1950 e só se trans­for­mou em lei, num di­rei­to de to­dos, com lon­ga lu­ta ins­ti­tu­ci­o­nal – da mes­ma for­ma, é con­se­quên­cia das lu­tas dos tra­ba­lha­do­res o di­rei­to às fé­rias, às in­de­ni­za­ções por de­mis­sões, à jor­na­da de tra­ba­lho de 44 ho­ras, en­tre tan­tos ou­tros.

As re­a­ções con­trá­ri­as exis­ti­ram sem­pre, co­mo as ma­ni­fes­ta­ções de em­pre­sá­rios que afir­ma­vam que a im­plan­ta­ção do 13o sa­lá­rio se­ria de­sas­tro­sa pa­ra o Bra­sil, in­vi­a­bi­li­za­ria as em­pre­sas etc.

Ho­je to­do o meio em­pre­sa­ri­al in­cor­po­rou a lei e com­pre­en­de a im­por­tân­cia do pa­ga­men­to do 13o sa­lá­rio pa­ra a di­nâ­mi­ca eco­nô­mi­ca.

As mu­dan­ças dis­tri­bu­ti­vas são re­sul­ta­do de lu­tas so­ci­ais re­a­li­za­das pa­ra ven­cer re­sis­tên­cias e con­quis­tar adep­tos. Nes­sas dis­pu­tas, sem­pre foi e se­rá fun­da­men­tal es­cla­re­cer de­ta­lha­da­men­te o ob­je­ti­vo do pro­je­to que se quer cons­tru­ir e no que o pro­je­to con­sis­te.

É im­por­tan­te lem­brar e co­nhe­cer as his­tó­ri­as de tu­do o que es­tá no co­ti­dia­no atu­al e que, mui­tas ve­zes, apa­re­ce co­mo si­tu­a­ção na­tu­ral, ou ain­da co­mo dá­di­va. Não se po­de es­que­cer ja­mais que a ba­se de to­dos os di­rei­tos tem co­mo las­tro a vi­da e o san­gue de mui­ta gen­te, que lu­tou ar­dua­men­te e que, nem sem­pre, che­gou a usu­fru­ir da­qui­lo que aju­dou a con­quis­tar.

As lu­tas dos tra­ba­lha­do­res, ao lon­go da his­tó­ria, são res­pon­sá­veis pe­la con­quis­ta de im­por­tan­tes avan­ços, não ape­nas tra­ba­lhis­tas, mas tam­bém so­ci­ais, em to­do o mun­do. É pre­ci­so lem­brar sem­pre e fa­zer com que to­dos sai­bam dis­so.

 

(Cle­men­te Ganz Lú­cio, so­ci­ó­lo­go, di­re­tor téc­ni­co do Dieese, mem­bro do CDES – Con­se­lho de De­sen­vol­vi­men­to Eco­nô­mi­co e So­ci­al e do Gru­po Rein­dus­tri­a­li­za­ção)

 

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