Opinião

Opinião: A ética na política está morrendo

diario da manha
O cardiologista Anis Rassi, médico e amigo de Zé Gordo por 30 anos(Foto: James Morais)

É ma­dru­ga­da al­ta. No Hos­pi­tal São Sal­va­dor, em Go­i­â­nia, dei­ta­do num lei­to da uni­da­de de tra­ta­men­to in­ten­si­vo, um ho­mem olha em seu re­dor as pa­re­des bran­cas, o so­ro que pin­ga em si­lên­cio no seu or­ga­nis­mo, o apa­re­lho que mar­ca as ir­re­gu­la­res ba­ti­das do seu co­ra­ção são, nes­te mo­men­to, as su­as úni­cas com­pa­nhi­as. De quan­do em quan­do, sus­sur­ros que vêm do cor­re­dor, in­di­cam o cor­re-cor­re dos mé­di­cos e das en­fer­mei­ras em cons­tan­te lu­ta con­tra a mor­te.

De re­pen­te, um fo­co de luz, bai­xan­do do ce­ná­rio prin­ci­pal, se de­tém no alam­bra­do dos pés da ca­ma, on­de po­de­mos ver o no­me do pa­ci­en­te: Jo­sé Ro­dri­gues de Quei­roz (Zé Gor­do), ex-pre­fei­to de Cris­ta­li­na. Abai­xo, o di­ag­nós­ti­co: trom­bo­se; da­ta da in­ter­na­ção: 1º de ju­nho de 1987: mé­di­co: Anis Ras­si; qua­dro clí­ni­co: ir­re­ver­sí­vel.

O fo­co de luz vol­ta-se pa­ra o ho­mem. No fun­do as pa­re­des mui­to bran­cas do hos­pi­tal. So­bre a ca­be­cei­ra, um fras­co com so­ro dei­xa ca­ir, pre­gui­ço­sa­men­te, go­ta a go­ta, os úl­ti­mos ali­men­tos da sua es­pe­ran­ça de vi­da. En­tra uma en­fer­mei­ra, me­de a pres­são do pa­ci­en­te, ajei­ta-lhe a ca­be­ça no tra­ves­sei­ro, ba­lan­ça a ca­be­ça, em si­nal de de­sâ­ni­mo e sai do quar­to. Zé Gor­do es­tá, de no­vo, in­tei­ra­men­te só.

En­far­te qua­se fa­tal. Trom­bo­se fa­tal, sen­te o ho­mem. Uma e ou­tra do­en­ça cau­sa­da pe­la in­com­pre­en­são dos ho­mens, pe­la in­gra­ti­dão dos fal­sos ami­gos, pe­las per­se­gui­ções po­lí­ti­cas. Pre­fei­to de uma ci­da­de de in­te­ri­or, na ver­da­de, Jo­sé Ro­dri­gues de Quei­roz ja­mais se afi­nou com os mé­to­dos po­lí­ti­cos usu­ais. Na­que­le mun­do de fal­sos Cris­tos e de Ju­das ver­da­dei­ros, da­que­la gen­te que bus­ca o po­der a qual­quer pre­ço, que per­se­gue os ini­mi­gos, que trai os ami­gos, que ven­de con­sci­ên­cias, nun­ca hou­ve lu­gar pa­ra ele. Pre­fei­to, du­ran­te seis anos, mui­to pou­co pu­de­ra fa­zer pe­lo seu po­vo; ar­re­ca­da­ções ín­fi­mas, go­ver­no cen­tral al­heio às su­as pos­tu­la­ções, com a sa­ú­de aba­la­da vi­ti­ma­do pe­lo en­far­te, tor­na­ram-no em um náu­fra­go do po­der, en­tre­gue à sa­nha vo­raz dos tu­ba­rões.

Sim, pen­sa­va o ho­mem. Co­me­te­ra er­ros po­lí­ti­cos gra­ves: não usu­fru­í­ra do car­go em pro­vei­to pró­prio, não re­ce­be­ra co­mis­sões pe­las obras que re­a­li­za­ra, não acei­ta­va a pre­sen­ça dos ba­ju­la­do­res, em bus­ca de car­gos e hon­ra­ri­as. Mas hou­ve um er­ro mai­or. Pres­sio­na­do pe­los do­nos do po­der da épo­ca, não te­ve ou­tra al­ter­na­ti­va se­não ce­der às pres­sões – pa­ra que o seu mu­ni­cí­pio ti­ves­se obras, e o po­vo cris­ta­li­nen­se  ti­ves­se be­ne­fí­ci­os, pa­ra que saís­se da­que­le os­tra­cis­mo em que es­ta­va mer­gu­lha­do, ade­riu às for­ças si­tu­a­cio­nis­tas, acom­pa­nhan­do o de­pu­ta­do es­ta­du­al Jo­ão Fe­li­pe. Mas es­se não foi o mai­or er­ro; es­te acon­te­ceu quan­do co­mu­ni­cou aos che­fes po­lí­ti­cos da sua si­gla PMDB, o acor­do que es­ta­va fa­zen­do, com a res­sal­va de que só o fa­zia pa­ra sal­var Cris­ta­li­na do ma­ras­mo ad­mi­nis­tra­ti­vo. Es­se, o er­ro fa­tal.

Em­bo­ra com fo­ros de gran­de Es­ta­do, em ma­té­ria de po­lí­ti­ca, Go­i­ás tem mui­to ain­da a con­quis­tar. O acor­do e seus ter­mos lo­go che­ga­ram aos ou­vi­dos do go­ver­no; co­me­çou, en­tão, uma per­se­gui­ção vi­o­len­ta ao pre­fei­to que ade­ri­ra; cam­pa­nhas de des­mo­ra­li­za­ção pú­bli­ca, acu­sa­ções le­vi­a­nas, os olha­res de des­con­fi­an­ça do po­vo, as hu­mi­lha­ções, o des­cré­di­to, o fim po­lí­ti­co. Do ou­tro la­do, seus com­pa­nhei­ros de par­ti­do do PMDB, omi­ti­am-se acon­se­lhan­do-o que es­pe­ras­se o re­sul­ta­do das ur­nas em no­vem­bro de 1982. Quan­do es­tas fa­la­ram, quan­do o seu par­ti­do as­so­mou ao po­der, na­da mu­dou pa­ra ele; con­ti­nuou no os­tra­cis­mo, na mes­ma si­tu­a­ção em que se en­con­tra­va ago­ra, sem ami­gos à sua vol­ta, sem os fal­sos ta­pi­nhas nas cos­tas, sem nin­guém. O quar­to va­zio, as pa­re­des bran­cas, o so­ro pin­gan­do em si­lên­cio, o tic-tac do apa­re­lho que mar­ca os seus úl­ti­mos mo­men­tos de vi­da, são seus úni­cos com­pa­nhei­ros.

Du­ran­te di­as e di­as, do seu lei­to de hos­pi­tal, “o ve­lho po­lí­ti­co” es­pe­rou – seus olhos es­ta­vam cons­tan­te­men­te fi­xa­dos na por­ta de en­tra­da do quar­to. Por ali en­tra­ri­am de­pu­ta­dos, se­na­do­res, ve­re­a­do­res fi­éis a ele, ami­gos de mui­tos anos, al­guém do po­vo. Mas, quan­do a por­ta se abria só vi­nham os mes­mos de sem­pre: seu fi­lho, e El­za, sua com­pa­nhei­ra de qua­se meio sé­cu­lo de ca­ri­nho e com­pre­en­são. Dos seus com­pa­nhei­ros de ou­tro­ra, dos lí­de­res po­lí­ti­cos, um ou ou­tro, de quan­do em quan­do, no res­to, na­da mais. Mas, pen­sa­va o ho­mem, es­tes va­li­am por to­dos; eram o seu le­ni­ti­vo, o bál­sa­mo que ali­vi­a­va su­as do­res, o sol da sua es­pe­ran­ça pa­ra o no­vo dia, a vi­da con­ti­nu­an­do, a paz bai­xan­do so­bre ele. E o ho­mem sor­riu pa­ra a mor­te, com ape­nas 55 anos de ida­de.

 

PER­FIL BI­O­GRÁ­FI­CO

Jo­sé Ro­dri­gues de Quei­roz nas­ceu em 14 de ja­nei­ro de 1929, fi­lho de Da­ni­el Ro­dri­gues de Quei­roz e Hen­ri­que­ta An­dre­zi­na de Je­sus.

Co­nhe­ci­do por Zé Gor­do, era na­tu­ral de Cris­ta­li­na – Go­i­ás, ca­sa­do com do­na El­za de Pai­va. Fa­zen­dei­ro, só­cio do em­pre­sá­rio Chaud Sa­les na fá­bri­ca de man­tei­ga Mon­te Cas­te­lo em cris­ta­li­na, pro­pri­e­tá­rio de ga­rim­pos de cris­tal de ro­cha no mu­ni­cí­pio de Cris­ta­li­na.

Na zo­na ru­ral, Zé Gor­do era do­no de du­as fa­zen­das, pi­o­nei­ro no plan­tio de ca­fé na re­gi­ão, com Lutz de Pai­va Co­sac, Sal­va­dor Ama­do dos San­tos, Bra­sil Ubi­ra­ja­ra Co­sac e Fran­cis­co Jor­ge.

Em 1976, após vá­ri­as in­sis­tên­cias do ex-go­ver­na­dor Pe­dro Lu­do­vi­co Tei­xei­ra, in­gres­sou na vi­da pú­bli­ca, can­di­da­tan­do-se a pre­fei­to de Cris­ta­li­na, pe­lo Mo­vi­men­to De­mo­crá­ti­co Bra­si­lei­ro (MDB), en­fren­tan­do o par­ti­do da Ali­an­ça Re­no­va­do­ra Na­ci­o­nal (ARE­NA), par­ti­do que da­va sus­ten­ta­ção a Re­vo­lu­ção de 1964.

Zé Gor­do se ele­geu, ga­nhan­do de dois can­di­da­tos da ARE­NA, fez uma ad­mi­nis­tra­ção vol­ta­da pa­ra o po­vo, der­ro­tan­do um gru­po eco­nô­mi­co que go­ver­nou aque­le mu­ni­cí­pio por mais de 30 anos. Ain­da as­sim sem apoio dos go­ver­nos es­ta­du­al e fe­de­ral, con­se­guiu le­var pa­ra a ci­da­de du­as agên­cias ban­cá­rias: Ban­co do Bra­sil e Cai­xa Eco­nô­mi­ca Fe­de­ral, pa­vi­men­tou vá­ri­as ru­as, cons­tru­iu 1.500 Km de es­tra­das vi­ci­nais no mu­ni­cí­pio, pon­tes, ins­ta­lou a pri­mei­ra fei­ra ru­ra­lis­ta da épo­ca, ho­je Fei­ra Agro­pe­cu­á­ria, re­for­mou o hos­pi­tal mu­ni­ci­pal da ci­da­de, ad­qui­riu am­bu­lân­cias, ma­qui­ná­rios no­vos pa­ra a pre­fei­tu­ra.

Jo­sé Ro­dri­gues de Quei­roz en­fren­tou uma opo­si­ção mes­qui­nha e re­fra­tá­ria. So­freu um in­far­to, on­de foi obri­ga­do a sub­me­ter-se a uma ci­rur­gia em São Pau­lo pa­ra im­plan­ta­ção de qua­tro pon­tes de sa­fe­na no co­ra­ção. Pa­ra pror­ro­gar a li­cen­ça do afas­ta­men­to do car­go foi obri­ga­do a im­pe­trar o man­da­do de se­gu­ran­ça pois a Câ­ma­ra Mu­ni­ci­pal ne­gou a pror­ro­gar a li­cen­ça pro­te­lan­do pa­ra uma pró­xi­ma re­u­ni­ão. Ga­nhan­do na jus­ti­ça, con­se­guiu mais tem­po pa­ra fa­zer o tra­ta­men­to. Quan­do re­tor­nou ao car­go, era um ho­mem mui­to do­en­te, ain­da as­sim con­se­guiu fi­na­li­zar o seu man­da­to. Mor­reu em Go­i­â­nia, no dia 06 de ju­nho de 1987, aos 55 anos de ida­de, dei­xan­do a vi­ú­va El­za e o fi­lho Lu­iz Al­ber­to de Quei­roz.

 

(Lu­iz Al­ber­to de Quei­roz é ad­vo­ga­do e es­cri­tor, au­tor dos li­vros: O Ve­lho Ca­ci­que (so­bre Pe­dro Lu­do­vi­co, 8ª edi­ção es­go­ta­do), Mar­cas do Tem­po (de Ge­tú­lio Var­gas a Tan­cre­do Ne­ves, 3ª edi­ção es­go­ta­do), Olím­pio Jayme – Po­lí­ti­ca e Vi­o­lên­cia em Tem­pos de Chum­bo, 1ª ed. – es­go­ta­do)

 

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