Opinião

A vingança vem a cavalo... aliás, de mula

A pesquisa encomendada ao instituto Serpes pelo presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Goiás, Euclides Si­queira, sobre cenário das eleições de 2018, é apenas um episódio da queda de braço entre membros da entidade e governo do Estado. Uma evidente retaliação ao governador Marconi Perillo e ao vice-governa­dor Zé Eliton por seguirem deter­minação do Tribunal de Contas do Estado (TCE) para reduzir benefí­cios fiscais concedidos a segmen­tos do empresariado.

Nas circunstâncias em que a pesquisa foi feita e divulgada, uma nuvem negra de dúvidas paira so­bre ela, comprometendo-lhe a credibilidade. Euclides Siqueira entrou em franca hostilidade ao governo estadual. A sondagem, assinada pelo Instituto Serpes, foi realizada de 11 e 16 de novembro, período em que o debate sobre a revisão da política de incentivos fiscais se intensificou.

Quais teriam sido os motivos que levaram a entidade a vazar a pesquisa 20 dias depois? Em entre­vista na última terça ao Diário de Goiás, o presidente da Acieg, Eucli­des Siqueira, indagado sobre a ra­zão da publicação, respondeu tex­tualmente a questão dos tributos. “O que mais me deixa preocupa­do é o governo do Estado colocar no colo do candidato dele algumas responsabilidades, por exemplo: as mudanças de imposto do ICMS”, disse Euclides. “São coisas que não entendo desse jogo político que está sendo colocado por aí”, des­taca. “A gente tem que aprofundar mais para não dar uma resposta muito simplista para um processo que é muito importante”, afirma.

Uma boa forma de aprofundar a questão seria o diálogo. É o que está fazendo os industriais goia­nos, Através da Adial, a entidade esteve com o governador e o vice José Eliton para iniciar um diálogo sobre o tema. O diálogo está ape­nas começando. O governador ou­viu sugestões e críticas dos indus­triais. Ninguém quer a derrocada da economia goiana, nem a falên­cia das finanças públicas. Por meio do diálogo, as partes poderão en­contrar uma solução de compro­misso para superar o problema.

Atitudes como a do presidente da Acieg, contudo, não aproveita a ninguém. Não se ganha lutas com golpes rasteiros. O confronto cer­tamente não favorece os comer­ciantes goianos, que constituem a maioria dos filiados da Acieg. Pelo contrário. É sabido que há tempos o PMDB e o caiadismo pregam abertamente contra a política de incentivos fiscais. É uma política que será drasticamente desconti­nuada caso algum deles venha a to­mar o poder em Goiás. Ao aplicar este golpe contra o governo esta­dual, a Acieg está, na verdade, agin­do contra seus próprios interesses.

Na pesquisa estimulada da Acieg para a disputa do governo em 2018, o senador Ronaldo Caia­do (DEM) aparece na liderança com 44% das intenções de voto, seguido pelo deputado federal Daniel Vilela (PMDB), 12,1% e Zé Eliton (PSDB), 6,2%. Para o Senado, os quatro pri­meiros colocados, segundo o le­vantamento estimulado, são: go­vernador Marconi Perillo (PSDB), com 13,6% das intenções de voto, senadora Lúcia Vânia (PSDB), 9,5%, ex-prefeito de Aparecida de Goiâ­nia Maguito Vilela (PMDB), 9,0%, e vereador Jorge Kajuru (PRP), 7,8%. Há, ainda, simulação de rejeições.

O levantamento, contudo, não traz avaliações das gestões do go­vernador Marconi Perillo, muito menos do prefeito Iris Rezende. Sabe-se que a pesquisa foi banca­da por empresários ligados ao se­nador Ronaldo Caiado, e que não existem justificativas para a dire­toria da entidade utilizar recursos dos associados para financiar son­dagens que fogem às suas atribui­ções prioritárias. No caso, a Acieg está apenas emprestando a sua fa­chada para dar credibilidade a uma pesquisa que ninguém sabe como foi feita. Qual a metodologia? Quais as regiões pesquisadas?

A principal dúvida refere-se ao cenário para a disputa ao governo. No período da sondagem, o senador Ronaldo Caiado sumiu do noticiá­rio e das articulações políticas devi­do a um acidente equestre, quando uma mula de maus bofes o derru­bou. Caiado teve que se afastar das atividades políticas, para se tratar das lesões. Nesse mesmo período, o fazendeiro demista viu sua base política se esfacelar. Os partidos que o apoiavam migraram para a bandeira do tucano Zé Eliton. Além disso, Daniel Vilela começou a ocu­par o espaço deixado por Caiado no campo das oposições.

Em agosto desse ano, Ronaldo Caiado se encontrou com integran­tes da Acieg. A reunião foi ampla­mente divulgada, inclusive com elogios de diretores da entidade ao senador, divulgados nas redes so­ciais do próprio. Apenas o demis­ta, entre os nomes colocados para a disputa do governo em 2018, foi convidado pela entidade para se re­unir com os membros da direção.

É natural que políticos busquem aproximação com entidades re­presentativas. O errado é não fa­zê-lo. Mas Caiado e Acieg deram um tom conspiratório à relação. E o resultado da conspiração aí está. Uma pesquisa eleitoral de idonei­dade duvidosa divulgada em mo­mento oportuno, como numa to­caia, para criar um factoide.

Ainda na sondagem para go­vernador, a pesquisa teria simu­lado cenários com nomes que es­tão fora do mundo político, como o do empresário Otávio Lage Fi­lho, ex-prefeito de Goianésia. Ota­vinho, como é conhecido, aban­donou a política para se dedicar aos negócios da família, princi­palmente a gestão do grupo Jalles Machado, e é o dirigente máximo da Adial, tendo tomado iniciativa de abrir diálogo com Marconi em vez de jogar pedras na vidraça.

DESCONTENTAMENTO

A sondagem da Acieg gerou descontentamento dentro da pró­pria entidade. Muitos discordam da estratégia de confrontar o go­verno quanto à redução dos be­nefícios fiscais. “Estamos buscan­do uma solução pacífica, e por meio do diálogo”, disse, em off, um membro da diretoria.

O dirigente lembra que, nesse semestre, foram divulgadas pes­quisas que mostram cenários dife­rentes. No levantamento do Insti­tuto Directa, publicado pelo Jornal Opção e Rádio Jovem Pan, o se­nador Ronaldo Caiado aparece com 30,1% das intenções de voto na estimulada, e o vice-governa­dor Zé Eliton com 23,3%, um ce­nário bem diferente do apresen­tado pela pesquisa Acieg.

No que se refere à disputa pelo Senado, pelo instituto Directa o go­vernador Marconi Perillo aparece com 31,4% das intenções de voto, mais de 16 pontos porcentuais à frente do segundo colocado. Na pes­quisa da associação, o governador aparece com apenas três pontos de vantagem. Essa disparidade é vis­ta com desconfiança por analistas de pesquisas de intenções de voto.

REDUÇÃO DE BENEFÍCIOS

No início de outubro, o TCE de­terminou ao Governo de Goiás a re­visão da renúncia de receita decor­rente da concessão de benefícios fiscais do ICMS em, no mínimo, 12,5%. De acordo com o órgão de controle, R$ 7,4 bilhões foram re­nunciados de ICMS pelo Estado. Segundo o TCE, 34,7% foi o percen­tual de receitas potenciais de que o governo teria aberto mão em fun­ção dos benefícios fiscais.

À época, foi destacado pela Sefaz que Fomentar e Produzir não são objetos de alteração. Segundo a Se­cretaria da Fazenda, a redução de incentivos não impactará na com­petitividade da indústria em Goiás. Os empresários chegaram a entrar na Justiça e conquistaram a liminar que adiou a redução dos benefícios.

Em novembro, entidades liga­das ao setor produtivo abriram negociação com TCE para que a decisão fosse revista. Na última quarta-feira (29/11), o plenário do Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE-GO) aprovou revi­são parcial do índice de redução dos benefícios fiscais.

A maioria dos conselheiros acei­tou alterar de 12,5% para 9% a de­terminação de redução de renún­cia de receita à Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz). O pedido, por meio de uma medida cautelar, foi feito pela própria pasta, após reu­nião com entidades classistas que discordavam da proposta inicial.

Relator da matéria, o conselhei­ro Sebastião Tejota entendeu que a redução da renúncia fiscal nos pata­maresanteriormentedeterminados pelo TCE-GO poderia causar gran­de impacto na economia goiana e instabilidade jurídica. Em entrevista ao Diário da Manhã, Tejota reiterou não ser contra a política de incenti­vos, apenas preconiza que ela seja aplicada de forma parcimoniosa.

 

A sondagem, assinada pelo Instituto Serpes, foi realizada de 11 e 16 de novembro, período em que o debate sobre a revisão da política de incentivos fiscais se intensificou

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