Opinião

Coragem e decência

diario da manha
Foto:reprodução

Quando eu era criança havia um ditado que insistia em que “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saú­va acaba com o Brasil”. Eram tem­pos do Jeca Tatu, figura mítica que habitava os campos brasileiros.

Ainda devem existir jecas-ta­tus por este mundão afora, mas sua imagem esmaeceu no ima­ginário brasileiro.

Havia o drama dos pés descal­ços; mesmo no Rio, onde passei a meninice e não havia muita gente descalça, muitos usavam taman­cos. O bicho-do-pé era uma preo­cupação dos que iam às fazendas.

Depois veio a leva das “havaia­nas” e se tornou raro ver gente sem sapato.

As saúvas devem continuar existindo…

Mais recentemente, anteceden­do a Constituição de 1988, e mes­mo depois dela, durante meu go­verno, as “marchas dos sem-terra” tornaram realidade política a ca­rência de reformas no campo. Bem ou mal fomos distribuindo terras.

Somando o que foi feito em meu governo ao que fez o primei­ro governo petista, houve, sem alarde, uma “reforma agrária”, se considerarmos a redistribui­ção de terras. Ao lado disso, hou­ve uma revolução agrícola, com ciência e tecnologia da Embra­pa por trás, financiamento mais adequado e audácia empresarial.

Não havia SUS até que os go­vernos pós Constituição de 1988 puseram-no em marcha. Adib Jatene, Cesar Albuquerque, José Serra e Barjas Negri são, dentre outros, nomes a serem lembra­dos nesta construção.

Sem esquecer que foi o gru­po dos “sanitaristas” da Cons­tituinte, composto por médi­cos, geralmente de esquerda, que introduziu a noção de Se­guridade e inventou a colabo­ração público-privado no SUS.

É boa a prestação de serviços pelo SUS?

Depende, mas ele existe e atende, em tese, os 205 milhões de brasileiros.

Dou esses exemplos que mostram a capacidade que ti­vemos para enfrentar, mesmo que parcialmente, certos pro­blemas que afligem o povo. Isso nos deve dar ânimo para conti­nuar a acreditar no país

Duas questões nos desafiam especialmente na atual conjuntu­ra: o desemprego e a desconfiança nos governos. De permeio, o cri­me organizado e o ódio entre fac­ções políticas, além da corrupção dos que usam colarinho-branco.

Acrescente-se que desta vez a “crise” dos governos (financeira e moral) foi gerada internamen­te. Não há como jogá-la no colo do FMI ou “dos estrangeiros” . É tão nossa quanto a saúva ou o bicho-de-pé.

Políticas equivocadas da dupla Lula-Dilma levaram a que depois do “boom” viesse a borrasca: os governos (não só o federal) estão exauridos, o PIB despencou mais de 8% entre 2015 e 2016, a desi­gualdade voltou a aumentar, e o desemprego passou de 4% a 14% em igual período.

Embora não faltassem razões jurídicas, foi o descontrole da eco­nomia que, no fundo, causou o im­peachment, pois atingiu e irritou o povo e levou o Congresso a agir.

Foi para sair do impasse que o governo Temer obteve apoios: para retomar o crescimento da econo­mia (tendo o projeto “Ponte para o Futuro” como roteiro).

A despeito de tudo, inclusive da crise moral, o governo vai atraves­sando o despenhadeiro. Retomou as condições para transformar de retórica em prática viável a explo­ração do pré-sal, com a reconstitui­çãofinanceiraemoraldaPetrobras.

Está estabelecendo um pla­no adequado para as empresas energéticas, deu ímpeto à refor­ma educativa e assim por dian­te, sem esquecer-se dos esforços para conter os gastos nos limites do orçamento e das possibilida­des de endividamento do Estado.

Não há razão para um partido como o PSDB repudiar o apoio que deu ao governo de transição, nem muito menos para, dentro ou fora do governo, deixar de vo­tar a agenda reformista, que é a do próprio partido.

No caso da Previdência, princi­palmente, as únicas questões ca­bíveis são: tal ou qual medida au­menta ou diminui os privilégios e, consequentemente, a desigualda­de social no país?

Nada justifica manter vanta­gens corporativas nem privilégios.

O mesmo vale para uma futu­ra reforma tributária ou para me­didas fiscais, que podem doer no bolso de alguns, como é o caso do fim do diferimento de IR nos “fundos fechados”, mas que são justas e necessárias.

Ou nos convencemos de que por trás do desemprego, do ódio político e da violência criminosa está um grau inaceitável de desi­gualdade, agravado pela crise que nos levou à falta de horizonte, e lu­tamos contra esta situação, ou pou­co caminharemos no futuro. Sem confiança no país, a começar em nós próprios, não há investimento nemcrescimentoquesesustentem.

Esta é, portanto, uma ques­tão coletiva, afeta ao país como um todo e precisa ser tratada como um desafio para o Esta­do e para a Nação.

A questão central de um parti­do que nasceu como o PSDB, para se diferenciar da geleia geral que se formou na Constituinte, é a de se distinguir pela afirmação, não pela negação. Nãoseráemfunçãodepo­sições que ocupa ou deixa de ocu­par nos governos que se afirmará, mas das bandeiras que simboliza e daspolíticasqueapoiaparaoBrasil.

A hora é de coragem para mos­trar como o partido vê o futuro e como colabora para formar uma sociedade melhor (apoiando me­didas igualadoras e votando a fa­vor das reformas).

Não se trata de questão eleito­ral, mas de compromisso com o povo e com o Brasil.

A história de um partido não se escreve apenas com manifes­tos e programas, mas com gestos e com pessoas que simbolizem a mensagem que se quer transmitir.

Se o preço para ganhar eleições for o de desfigurar as crenças — no que não creio — melhor ficar com estas e semear para o futuro.

É em nome de sua identidade que o PSDB poderá se desligar do governo que ajudou a formar, mas sem abdicar de suas propostas.

É legítimo que um partido es­colha dentre seus quadros quem, circunstancialmente, é mais ade­quado para ser seu candidato à Presidência e que lute para al­cançá-la. Sem “hegemonismos”, pois em um país diverso como o Brasil todo partido precisa de aliados com quem compartilhar o poder e as crenças, o que não subentende a submissão cega nema desmoralização das ins­tituições republicanas.

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, ex-presidente da República

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