Opinião

Embarque no trem da verdade

diario da manha

Os pro­cu­ra­do­res do Es­ta­do de Go­i­ás, car­rei­ra cu­jo sub­sí­dio ini­ci­al é de R$ 28.000,00, além da per­cep­ção de ho­no­rá­rios ad­vo­ca­tí­ci­os, re­a­li­za­ram, por meio de su­as as­so­cia­ções clas­sis­tas, uma cam­pa­nha di­fa­ma­tó­ria con­tra os ad­vo­ga­dos pú­bli­cos que atuam nas Au­tar­quias es­ta­du­ais, cam­po no qual, em Go­i­ás, os pro­cu­ra­do­res do Es­ta­do não pos­su­em le­gi­ti­mi­da­de pa­ra atu­ar, se­não em ca­rá­ter ex­cep­cio­nal.

Ocor­re que o go­ver­no do Es­ta­do, vi­san­do à ra­ci­o­na­li­za­ção dos ser­vi­ços ju­rí­di­cos pres­ta­dos às au­tar­quias e fun­da­ções pú­bli­cas es­ta­du­ais, ha­via de­ci­di­do re­u­nir to­dos os car­gos efe­ti­vos de ad­vo­ga­dos au­tár­qui­cos em car­rei­ra úni­ca, me­di­da que con­fe­re efi­ci­ên­cia pa­ra as ati­vi­da­des de au­tar­quias co­mo: De­tran, Agetop, Go­i­ás Prev, Ipasgo.

Atu­al­men­te, os car­gos com atri­bu­i­ção pa­ra re­pre­sen­tar ju­di­cial e ex­tra­ju­di­cial­men­te as au­tar­quias es­ta­du­ais es­tão dis­tri­bu­í­dos em vá­ri­as car­rei­ras com di­ver­sas de­no­mi­na­ções, re­a­li­da­de que em na­da aten­de ao in­te­res­se pú­bli­co e à efi­ci­ên­cia na pres­ta­ção dos ser­vi­ços pú­bli­cos aos ci­da­dã­os go­i­a­nos.

As­sim, com o in­tui­to de sa­nar es­ta in­de­se­já­vel de­sor­ga­ni­za­ção, ha­via si­do en­vi­a­do à As­sem­bleia Le­gis­la­ti­va do Es­ta­do de Go­i­ás – Alego pro­je­to de lei que re­gu­la­men­ta um dis­po­si­ti­vo da Cons­ti­tu­i­ção Es­ta­du­al (art. 92-A) e reú­ne to­dos es­ses ad­vo­ga­dos de au­tar­quia em car­rei­ra úni­ca, a sa­ber: pro­cu­ra­dor au­tár­qui­co.

É im­por­tan­te des­ta­car que o re­fe­ri­do pro­je­to de lei não acar­re­ta­ria tran­spo­si­ção de car­go pú­bli­co, o que se­ria in­cons­ti­tu­ci­o­nal, mas ape­nas al­te­ra a no­men­cla­tu­ra dos car­gos já exis­ten­tes e os reú­ne em car­rei­ra úni­ca, sem al­te­rar re­qui­si­tos pa­ra in­ves­ti­du­ra e as atri­bu­i­ções de car­gos.

Tra­ta-se, pois, de me­di­da de or­ga­ni­za­ção fun­cio­nal de in­du­vi­do­sa cons­ti­tu­ci­o­na­li­da­de, co­mo já es­cla­re­ce­ram o ex-mi­nis­tro do Su­pre­mo Tri­bu­nal Fe­de­ral Ayres Brit­to e o re­no­ma­do cons­ti­tu­ci­o­na­lis­ta Ua­di Lâ­me­go Bul­los. O que ha­via con­fe­ri­do se­gu­ran­ça ao go­ver­no do Es­ta­do pa­ra ado­tar tal pro­vi­dên­cia.

Po­rém, re­to­me­mos, as As­so­cia­ções Clas­sis­tas de ou­tra car­rei­ra de ad­vo­ga­dos pú­bli­cos, com atu­a­ção ex­clu­si­va na Ad­mi­nis­tra­ção Di­re­ta (se­cre­ta­rias de es­ta­do), que em Go­i­ás, re­ce­bem mais do que ju­í­zes e pro­mo­to­res, além de po­de­rem exer­cer a ad­vo­ca­cia pri­va­da, se le­van­ta­ram, por vai­da­de e cor­po­ra­ti­vis­mo pre­da­tó­rio, con­tra a es­tru­tu­ra­ção de ou­tra car­rei­ra que atua em âm­bi­to di­ver­so. E, pa­ra tan­to, fa­zem afir­ma­ções in­ve­rí­di­cas, com o cla­ro ob­je­ti­vo de con­fun­dir a opi­ni­ão pú­bli­ca.

Cum­pre des­fa­zer ao me­nos uma den­tre as vá­ri­as men­ti­ras que vêm sen­do re­pe­ti­da.

Os ad­vo­ga­dos pú­bli­cos que in­te­gra­riam a car­rei­ra de pro­cu­ra­dor au­tár­qui­co são to­dos efe­ti­vos e es­tá­veis, is­to é, pres­ta­ram con­cur­so pú­bli­co, pa­ra os car­gos de ad­vo­ga­do que exer­cem atu­al­men­te (ca­so dos ges­to­res ju­rí­di­cos), ou ocu­pam os car­gos de ad­vo­ga­dos de au­tar­quia des­de 1983 e fo­ram efe­ti­va­dos pe­la Cons­ti­tu­i­ção Fe­de­ral de 1988, va­le di­zer, ju­ri­di­ca­men­te pos­su­em o mes­mo tra­ta­men­to que os con­cur­sa­dos.

Em sín­te­se, quem sai­ria ga­nhan­do com a es­tru­tu­ra­ção da car­rei­ra de pro­cu­ra­dor au­tár­qui­co se­ria o in­te­res­se pú­bli­co e, co­mo con­se­quên­cia, a so­ci­e­da­de, pois a re­cu­pe­ra­ção dos cré­di­tos das au­tar­quias se da­ria de for­ma ain­da mais ágil e efe­ti­va, o que, na prá­ti­ca, sig­ni­fi­ca­ria mi­lhões de re­ais a mais nos co­fres pú­bli­cos es­ta­du­ais.

Con­tu­do, em ra­zão da his­te­ria mi­di­á­ti­ca re­a­li­za­da pe­las As­so­cia­ções dos Pro­cu­ra­do­res do Es­ta­do, o go­ver­na­dor en­ten­deu por bem re­ti­rar o pro­je­to de lei da Alego.

As­sim, é for­ço­so con­clu­ir que o in­te­res­se pú­bli­co, por ora, res­tou sub­ju­ga­do por in­te­res­ses e vai­da­des clas­sis­tas.

 

(Le­o­nar­do de Cas­tro Sil­va, ges­tor ju­rí­di­co/pro­cu­ra­dor au­tár­qui­co e pro­fes­sor de Di­rei­to na Es­co­la de Go­ver­no do Es­ta­do de Go­i­ás)

 

Comentários

Mais de Opinião

27 de outubro de 2018 as 21:44

A estratégia de Pedro

27 de outubro de 2018 as 21:18

Bom dia, Brasil

26 de outubro de 2018 as 21:35

As propostas de Bolsonaro

26 de outubro de 2018 as 21:34

Ensaio sobre a criação do espaço

26 de outubro de 2018 as 21:33

Um amor de Goiânia

26 de outubro de 2018 as 21:32

Brasil e totalitarismo

26 de outubro de 2018 as 21:07

Esses corregedores do CNJ são uma piada

26 de outubro de 2018 as 21:00

O voo do DM

26 de outubro de 2018 as 20:57

Casos de câncer de mama sobem no País

26 de outubro de 2018 as 20:53

O Brasil pede socorro à CNBB!

26 de outubro de 2018 as 20:49

O direito de sonhar

26 de outubro de 2018 as 20:47

O STF legisla demais