Opinião

Ensinar e curar

diario da manha
foto:reprodução

Em tempos antigos, a medicina europeia era pouco praticada na capitania/pro­víncia de Goiás, sendo raros os profissio­nais habilitados na área da saúde. Em mais de meio século – entre 1774 e 1831 – foram identifi­cados em Vila Boa somente 19 cirurgiões e ne­nhum médico com formação universitária.

Em “Fala” dirigida ao Conselho Geral da Província, o presidente Marechal Miguel Lino de Moraes (1825-1831), afirmava que em Goiás “são inteiramente desconhecidas [as Artes} para aqueles que as exercitam (…) inclusivamente a importante Arte de curar, e de manipular remé­dios”. E acrescentava: “Não há em toda a Provín­cia um só Médico, Cirurgião e Boticário aprova­do .” Acrescenta ser necessária a criação de uma “Aula de Medicina Prática, de Cirurgia e Farmá­cia”, que poderia “fazer os seus ensaios na Casa do Hospital de Caridade [São Pedro de Alcân­tara]”, onde, “vigiados por bons Professores, al­guns Estudantes se aplicarão”. E conclui: “En­quanto se não pode tocar o [ensino] superior da Arte [de curar], teremos [em Goiás] moços ins­truídos, que nos diversos Arraiais saibam aplicar com proveito alguns remédios.”

Como visto, objetivava-se a criação de uma Aula de Medicina Prática, Cirurgia e Farmácia nos moldes em que essas “artes” eram então en­sinadas; e reconhecia-se ser inviável o funciona­mento de um curso superior de Medicina em Goi­ás – até porque eram poucos os físicos (médicos) no país. Predominavam os cirurgiões-barbeiros, formados empiricamente como aprendizes.

A formação desses profissionais tinha início com a admissão do candidato – quase sempre ignorante, quando não analfabeto – como cria­do e ajudante de um cirurgião ou licenciado, ou seja, um profissional que tinha licença (autoriza­ção) para exercer aquelas “Artes”. O aprendiz de cirurgião era treinado para, na falta ou ausência de físicos (médicos), proceder a amputações, re­dução de luxações, tratamento de fraturas, feri­mentos e ulcerações; deveria também estar apto a sarjar, sangrar, lançar ventosas e sanguessu­gas, aplicar clisteres, escalda-pés e semicúpios, extrair balas, arrancar dentes, tratar doenças dos olhos, fazer barba e cortar cabelos.

Depois de aprovados em exames perante au­toridades sanitárias, os aprendizes recebiam uma carta de licença que os licenciava (habili­tava) como cirurgiões-barbeiros – sendo que, no século XVII, estes se dividiram nas modalidades de “cirurgiões” e “barbeiros”, a quem foram rele­gadas as práticas de menor complexidade.

O jornal Matutina Meyapontense registra que foi aprovada a sugestão do presidente da província, Miguel Lino de Moraes, para a cria­ção de uma Aula de Medicina Prática, Cirur­gia e Farmácia em Goiás, mas não há indícios de que se tenha efetivado sua instalação. Nes­se ínterim, “aparecendo um Inglês de nome Henry Yates” que comprovou ter sido cirurgião “na Armada nacional”, aquela preocupada au­toridade “lançou mão dele” e o mandou para a botica do Hospital da Caridade recém-criado, onde teria a obrigação “de ensinar o Pratican­te que ali se acha e fazer curativo dos doentes sempre que necessário”.

Passados alguns meses, voltou o Conselho Geral da Província a tratar do assunto. Con­siderando ser “a Saúde Pública um dos mais importantes objetos de que todas as Nações têm”, o colegiado resolveu nomear um cirur­gião “aprovado em Medicina, e Cirurgia” para o arraial de Cavalcante, vencendo “anualmente 600$000 (seiscentos mil réis) pagos pela Fazen­da Pública” – um excelente salário!

Além de atender a toda a extensa região nor­te de Goiás, esse profissional teria a obrigação de ensinar Medicina e Cirurgia “a todas as Pessoas, que se dedicarem a tais estudos, dando Aula três horas por dia”; e deveria prestar contas semes­tralmente ao próprio presidente da província da “aplicação, adiantamento e conduta dos Alunos, com declaração do número destes”.

Como visto, o ensino seria ministrado em tempo exíguo na própria residência do cirur­gião, em Cavalcante, onde o professor transmi­tiria aos alunos seus conhecimentos, através de preleções e de exemplos práticos, exami­nando doentes e prescrevendo tratamentos e remédios. Não se conhece o nome do cirurgião que teria sido nomeado, nem há documentos que comprovem o efetivo funcionamento da Aula em questão; também não os há relativos à aprovação de alunos em exames de medicina e cirurgia naquela localidade.

Mais de 130 anos transcorreriam até que fos­se possível à Associação Médica de Goiás tomar a iniciativa de fundar a Faculdade de Medicina de Goiás, instalada em Goiânia, em 24.04.2017. Essa instituição foi a primeira do gênero no Cen­tro Oeste brasileiro, vindo a integrar-se à Univer­sidade Federal de Goiás, onde se destaca pela ex­celência do ensino e dos serviços prestados.

(Extraído de capítulo homônimo de mi­nha autoria, in “Patrimônio cultural da saú­de em Goiás. Instituições hospitalares, assis­tenciais, de ensino e de pesquisa” MORAES, C.C.P., FREITAS, L.C.B.F. & Souza, R.B. Goiâ­nia: CEGRAF/UFG, 2017).

(Lena Castello Branco, escritora. E-mail: [email protected])

 

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