Opinião

Frei Confaloni

diario da manha
foto:divulgaçao

No domingo chuvoso, visito a exposição das obras de Frei Confaloni, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A primeira impressão é ruim: o carro deve ser estacionado a grande distância e é preciso vencer duas ram­pas mais ou menos difíceis para nós, da cha­mada terceira idade. Como já estou chegando à quarta, concluo que lugar de velho é em casa…

Nada a ver com os organizadores da exposição: o problema é antigo. Sabidamente, os projetistas do CCON não primaram pela praticidade; a estética seria sua determinante maior. Só que nem esta me convence, no caso específico.

Enfim, chegamos à ampla e gélida galeria. So­mos os únicos: não há ninguém, nenhum outro vi­sitante, a despeito da ampla divulgação da exposi­ção que vem sendo feita pela mídia. Logo de início, ali está o autorretrato do Frei tal como o conheci. Emociono-me ao vê-lo, o rosto inteligente e sensí­vel, os olhos como que cintilando com a chama da criação que o bom Deus lhe instilou.

A exposição, em si mesma, é belíssima! Aos pou­cos, a má impressão inicial vai cedendo lugar ao deslumbramento, ante as diversas fases da pintu­ra de Confaloni – do classicismo ao seu estilo indi­vidual e único, despojado, vigoroso e tocante. Além da mostra de documentos, esboços, estudos e foto­grafias – até a réplica do atelier em que pintava – que o retratam em sua genialidade e autenticidade, ar­tista do pincel a serviço de Deus e da humanidade.

Revejo-o tal como o conheci, no ápice da ma­turidade, envolvido em planos e projetos que o inspiravam e entusiasmavam. Em 19 de maio de 1950, a primeira composição ferroviária da Estra­da de Ferro Goiás chegara ao local da futura Pra­ça do Trabalhador, em Goiânia. Uma grande festa popular comemorou essa conquista, com chur­rasco oferecido aos operários e à população da cidade pela Rádio Brasil Central, Rádio Clube de Goiânia e Federação do Comércio de Goiás.

Em 1952, teve início a construção da Estação Ferroviária definitiva desta capital. Um consór­cio de duas conceituadas empreiteiras venceu a licitação pública para construí-la. As obras eram acompanhadas e fiscalizadas pela Comissão de Construção-7 do Departamento Nacional de Es­tradas de Ferro, na pessoa do chefe do escritório do Dnef em Goiânia, o Engo. Cyridião Ferreira da Silva, meu saudoso pai.

Nesse mesmo ano, acatando sugestão do Pro­fessor Luiz Augusto do Carmo Curado, um dos fun­dadores e diretor da Escola Goiana de Belas Artes, o mesmo Engo. Cyridião encomendou ao Frei Naza­reno Confaloni a confecção de dois painéis para o hall da Estação Ferroviária, os quais viriam a cons­tituir-se em marco das artes plásticas em Goiás.

Lembro-me de Frei Confaloni na casa de meus pais, na Rua 8, Centro, discorrendo sobre os painéis que iriam preencher os grandes espaços vazios nas paredes do “hall” daquela edificação. Representan­do a construção de uma via pioneira e de uma estra­da de ferro moderna, referidos painéis foram conce­bidos e executados em afrescos, por Frei Confaloni, que trabalhava sobre andaimes, com notável dispo­sição. O artista levava os esboços em folhas avulsas e, a partir destes, pintava-os nas paredes.

Frei Confaloni recebeu Cr$ 100.000,00 (cem mil cruzeiros, moeda da época) pela execução dos pai­néis, através de cheque do Banco do Brasil, conta do DNEF, assinado pelo Engo. Cyridião Ferreira da Silva, conforme documentação em meu poder. Houve um problema a ser vencido: no orçamento oficial, não ha­via rubrica para pagar artistas, mas era possível fazê­-lo a simples pintores de paredes – e Confaloni foi as­sim remunerado, para atender à burocracia.

Sem festividades de inauguração, a Estação Fer­roviária entrou em funcionamento no final de 1953 ou começo de 1954 – não há informação precisa so­bre a data. Era diretor da Estrada de Ferro Goiás o major Mauro Borges Teixeira, que iria transferir a sede da ferrovia de Araguari para Goiânia em feve­reiro de 1954, conforme autorizado pelo Dnef.

O edifício da Estação Ferroviária apresentava de­talhes que o distinguiam e ainda o distinguem. Da­das as características do terreno onde foi construída, a altura da torre central representava um desafio; al­guns profissionais chegavam a apostar na inviabili­dade de seus vitrais resistirem à força dos ventos de agosto. O escritório da CC-7 providenciou a análi­se do solo pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo; seguidas as indicações técnicas, jamais os vidros foram abalados, nem houve proble­mas de trincas ou rachaduras no prédio, expressão tardia do estilo “art déco” em Goiânia.

A marquise que protege a área destinada ao em­barque/desembarque de passageiros era o maior vão livre construído em todo o Centro-Oeste; essa prima­zia manteve-se até o advento de Brasília. Relativamen­te a materiais de revestimento, ali foram empregadas pedras de Pirenópolis pela primeira vez, em Goiânia. Lamentavelmente, a despeito de ser patrimônio histó­rico nacional e estadual, a Estação Ferroviária esteve abandonada e deteriorou-se tragicamente.

Agora, visitando a exposição de Frei Conflaoni tais fatos me vêm à lembrança, juntamente com a notícia alvissareira de que, finalmente, terão início as obras de recuperação daquela edificação, bem como de restauração dos painéis da autoria de Frei Nazareno Confaloni. Estão de parabéns a arte e a cultura, os dirigentes, administradores, especialis­tas e cidadãos – todos nós, que nos empenhamos nesse resgate histórico.

(Lena Castello Branco, escritora. E-mail: [email protected])

 

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