Opinião

Onde está minha gata?

diario da manha

Ha­bi­tam mi­nha ca­sa um ca­sal de ga­tos Mai­ne Co­on. São enor­mes. Co­mo eu ja­mais ti­ve ga­tos, a des­co­ber­ta é di­á­ria. Co­mo eles nun­ca con­vi­ve­ram co­mi­go, as sur­pre­sas são tam­bém cons­tan­tes. Eles ado­ram água. Eles cor­rem pa­ra mim quan­do che­go e se jo­gam ao chão pa­ra lon­gos afa­gos e ca­ri­nhos. O ma­cho até per­mi­te có­ce­gas na bar­ri­ga.

Ao abrir a por­ta eu gri­tei Acá­cia. E na­da. Por um ins­tan­te até achei que es­ta­va tu­do cer­to, mas o Mi­les sur­giu tão rá­pi­do que des­con­fi­ei de al­go. Ele nun­ca vem as­sim tão fá­cil. Re­sol­vi en­tão pro­cu­rá-la. Com ga­tos não pre­ci­sa gri­tar. E ape­nas meu tom de voz mu­dou um pou­co. Co­me­cei a bus­ca.

Lu­ga­res fri­os são os pre­di­le­tos de­les, pois Go­i­â­nia é quen­te e se­co. Atrás da ge­la­dei­ra, na­da. Co­mo tem po­ei­ra ali! No ba­nhei­ro do quar­to da nos­sa fi­lha (nos­sa, co­mo faz tem­po que não en­tro lá…) nem si­nal de pe­los. Ah, a Acá­cia sol­ta plu­mas por to­da a ca­sa, sua pe­la­gem é me­nos den­sa do que o Mi­les, ele é mais se­do­so, po­rém tem me­nos vo­lu­me. Am­bos não apre­ci­am lon­gas es­co­va­ções.

As du­as va­ran­das co­ber­tas de bon­sais é um dos sí­tios pre­di­le­tos de­les. Nem si­nal da bi­cha­na. O chão qua­se sem­pre úmi­do, os tron­cos on­de eles afi­am as gar­ras, ne­nhum ras­tro. Per­cor­ro me­lhor o es­pa­ço en­tre os va­sos, fe­li­nos –mes­mo gi­gan­tes­cos- têm a ca­pa­ci­da­de de se mol­dar em pe­que­nos es­pa­ços.

Par­to pa­ra de­bai­xo das ca­mas e so­fás. O apar­ta­men­to é gran­de e apre­sen­ta mil va­ri­a­ções so­bre o mes­mo te­ma. No nos­so quar­to, mi­nha es­po­sa dor­me o so­no dos jus­tos. Ape­sar da mi­nha pre­o­cu­pa­ção cres­cen­te, não a des­per­to. Mi­nha co­lu­na so­fre um pou­co ao abai­xar-me se­gui­das ve­zes. Ca­ne­tas, cai­xas de fi­os den­tais, re­ci­bos e no­tas an­ti­gas, mei­as, um ou ou­tro bo­lo de pe­los, coi­si­nhas pe­que­nas e es­que­ci­das. Mas ga­to, na­da. Que ga­to­na­gem!

Per­co a pa­ci­ên­cia e a cha­mo com mais ve­e­mên­cia. Ago­ra os lu­ga­res al­tos. Te­mos du­as bi­bli­o­te­cas em ca­sa. Uma es­cri­va­ni­nha do sé­cu­lo XIX, três aquá­rios e uma co­zi­nha com ar­má­rios sus­pen­sos. Nem chei­ro. Por fa­lar em chei­ro, eles têm um odor agra­dá­vel o tem­po in­tei­ro. Não sei co­mo, mas es­tão sem­pre lim­pos. A lam­be­ção é cons­tan­te. A lín­gua de li­xa fun­cio­na le­gal. Já pre­sen­ci­ei uma emis­são de bo­la de pe­los. É ago­ni­zan­te. Pa­re­ce um bi­cho bê­ba­do ten­tan­do eli­mi­nar su­as en­tra­nhas.

Ter­mi­na­do o ób­vio, pas­so pa­ra o im­pro­vá­vel. Abro to­dos os ar­má­rios. Ve­jo rou­pas de frio que só uso nas mon­ta­nhas. De­pa­ro-me com ca­mi­sas que não uso. Gra­va­tas que dei­xei de la­do. Mas ga­to que é bom, na­da. O de­ses­pe­ro sur­ge e acor­do mi­nha mu­lher. Ela com dis­cre­to mau hu­mor fa­la que a ga­ta de­ve es­tar dor­min­do. Eu já a acu­so de ter dei­xa­do a por­ta da ca­sa aber­ta e a fe­li­na fu­giu. Ho­mem tem a ma­nia de cul­par a mu­lher quan­do não con­se­gue re­sol­ver al­go por si só.

Acá­cia é fa­min­ta. Ape­sar de ser me­nor e mais le­ve do que o Mi­les, ela co­me mais. Ou pe­lo me­nos tem mais ape­ti­te. Pe­go sua va­si­lha de co­mi­da e co­lo­co a ra­ção fres­qui­nha e saio ba­lan­çan­do pe­la ca­sa e cha­man­do-a pe­lo no­me. Ago­ra es­tou ner­vo­so e con­ta­mi­no mi­nha par­cei­ra. Ela re­vi­sa to­dos os lu­ga­res an­te­rio­res.

No de­ses­pe­ro, va­mos até a ga­ra­gem do pré­dio. Tam­bém re­vi­ra­mos to­do o meu ni­nho – par­te úni­ca da ca­sa que so­brou pa­ra mim – e até te­le­fo­na­mos pa­ra nos­so fi­lho. Ele diz o mes­mo que a mãe: ela de­ve es­tar dor­min­do. Mas dor­min­do aon­de?

E en­tão, mi­nha ama­da es­po­sa en­con­tra um bu­ra­co no for­ro da ca­ma do nos­so fi­lho. E lá den­tro, bem no fun­do, en­ro­la­da em si mes­ma no mais pro­fun­do so­no e pre­gui­ça: Acá­cia. Ela abre a bo­ca, se es­ti­ca to­da e vem em di­re­ção a co­mi­da, com a na­tu­ra­li­da­de sexy que só os ga­tos têm.

Co­me tran­qui­la­men­te. E eu me lem­bro da mi­nha es­po­sa quan­do acor­da e to­ma seu ca­fe­zi­nho. Mu­lhe­res e ga­tas são idên­ti­cas. Em de­ter­mi­na­da ho­ra só que­rem es­tar so­zi­nhas e não se­rem per­tur­ba­das e nin­guém acha. Ca­sei-me com uma ti­gre­sa e não sa­bia. Ela sim e Acá­cia tam­bém.

 

(JB Alen­cas­tro, mé­di­co)

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