Opinião

Vínculos de família

diario da manha

Pou­ca gen­te, tal­vez, te­nha to­ma­do co­nhe­ci­men­to de um dra­ma em fa­mí­lia, que se de­sen­ro­lou, há cin­co anos, na ci­da­de de Re­ci­fe, nu­ma mo­des­ta ca­sa no su­búr­bio de Ca­sa Ama­re­la, Uma fa­mí­lia in­tei­ra sa­cri­fi­can­do-se, em si­lên­cio do­lo­ro­so, pa­ra  não se afas­tar de um lou­co, fi­lho e ir­mão. Três es­pí­ri­tos aces­sos pa­ra ve­lar por ou­tro que se apa­gou. Uma ca­sa de por­tas fe­cha­das há cinco anos, pa­ra que nin­guém, lá fo­ra, sus­pei­tas­se da tris­te­za que rei­na­va lá den­tro. Três exis­tên­cias  ani­qui­la­das pa­ra que uma, que já não era  bem exis­tên­cia, fos­se me­nos des­gra­ça­da. A his­tó­ria me foi con­ta­da por um pa­ren­te, em tra­ços rá­pi­dos, mas pro­fun­dos. Aos 25 anos  de ida­de, o fi­lho mais ve­lho de uma se­nho­ra vi­ú­va, fo­ra ví­ti­ma de um aci­den­te de ve­í­cu­lo, no qual mor­re­ram dois jo­vens que o acom­pa­nha­va, quan­do em­bri­a­ga­do di­ri­gia o car­ro  em al­ta ve­lo­ci­da­de, na es­tra­da, veio a pre­ci­pi­tar-se, nu­ma cur­va, ri­ban­cei­ra abai­xo. Hou­ve, de sú­bi­to, gri­tos de me­do e de dor, sons de vi­dros que­bran­do, e dois cor­pos já sem vi­da hor­ri­vel­men­te ma­chu­ca­dos co­ber­tos de san­gue. O ter­cei­ro cor­po, o do jo­vem fi­lho da vi­ú­va, foi en­con­tra­do ain­da com vi­da, fo­ra de ve­í­cu­lo, e le­va­do às pres­sas pa­ra um hos­pi­tal, per­ma­ne­cen­do lá por um mês. No fi­nal des­te pe­rí­o­do os mé­di­cos de­ram um di­ag­nós­ti­co trá­gi­co: O fi­lho da vi­ú­va es­ta­va con­de­na­do à lou­cu­ra de­vi­do às gra­ves le­sões cra­nia­nas so­fri­das, por ele, no aci­den­te. Não se sa­be se pe­la ro­bus­tez do ra­paz, ou pe­las pre­ces de sua mãe, ele ven­ceu a mo­te, mas caiu der­ro­ta­do nos bra­ços da in­sa­ni­da­de men­tal.

Um ano fi­ca­ram se­pa­ra­dos, o lou­co e o seu an­jo da guar­da. Um ano de in­qui­e­ta­ção e an­sie­da­de. Um ano de vi­a­gens cons­tan­tes e pe­no­sas en­tre o su­búr­bio lon­gín­quo on­de mo­ra­da e o so­tur­no es­ta­be­le­ci­men­to pa­ra aon­de ele fo­ra, de­pois do aci­den­te. Ob­ti­da a de­si­lu­são da ci­ên­cia, a tris­te e pi­e­do­sa mu­lher, mo­de­lo de mã­es des­ven­tu­ra­das, pe­diu que se os dou­to­res não pu­des­sem res­ti­tu­ir a ra­zão ao seu fi­lho, que o en­tre­gas­se, res­ti­tu­in­do-o ao seu ca­ri­nho. Po­de­rá fa­zer o amor aqui­lo que não po­de­ra a me­di­ci­na. Tal­vez a de­di­ca­ção e o amor de mu­lher con­se­quis­se o que a sa­be­do­ria dos ho­mens não con­se­guiu. E se na­da con­se­guis­se, era o seu fi­lho, con­sa­grar-se-ia a ele. E co­me­çou  o sa­cri­fí­cio des­ta vi­da vi­va, àque­la vi­da mor­ta  Nun­ca mais a po­bre mãe tran­spôs a por­ta de seu lar pa­ra uma vi­si­ta, ou pa­ra um pas­seio. Aque­le fi­lho era o seu mun­do. Acom­pa­nha­va-o pe­la ca­sa fe­cha­da,co­mo se fos­se a sua som­bra na som­bra. O que ele des­tru­ía, num mo­men­to de fú­ria, ela con­ser­ta­va man­sa­men­te, sem uma pa­la­vra de re­cri­mi­na­ção. Quan­do ele dor­mia o seu so­no de en­fer­mo, ela aca­ri­ci­a­va os ca­be­los lon­gos e as­sa­nha­dos, ago­ra adul­to, co­mo fa­zia quan­do ele era cri­an­ça. E quan­do o lou­co se er­guia, com um sal­to, no meio da noi­te se pon­do a ui­var e an­dar, ela o acom­pa­nha­va a di­ri­gir-lhe pa­la­vras de ter­nu­ra, pa­ra di­ri­gir-lhe o cé­re­bro atra­vés do co­ra­ção. E cin­co anos as­sim se pas­sa­ram.

Pou­co a pou­co, po­rém, a fra­que­za da­que­la mãe foi se tor­nan­do im­po­ten­te pa­ra con­ter a in­sâ­nia do fi­lho. Nu e imun­do, ca­be­los e bar­ba à al­tu­ra do pei­to e do om­bro, trans­for­ma­ram-no em um mons­tro. Que­ria abrir a por­ta e sa­ir pa­ra a rua, cor­rer, fu­gir. E, fez-se ne­ces­sá­rio fa­bri­car uma jau­la pa­ra con­ter o lou­co, e os ir­mãos  cons­tru­í­ram uma pri­são, um cur­ral gros­sei­ro e se­gu­ro pa­ra guar­dar a fe­ra hu­ma­na, o bi­cho cris­tão em cu­jas vei­as cor­ria o seu san­gue. Doia-lhes mui­to aqui­lo, mas era pre­ci­so. An­tes aque­le tor­men­to, a dor de vê-lo ur­rar e de­ba­ter-se dia e noi­te, do que o su­plí­cio da se­pa­ra­ção. Ali pe­lo me­nos ele te­ria ca­ri­nho, te­ria aten­ção ma­ter­na. E co­me­çou uma no­va eta­pa da­que­le dra­ma. Des­pi­do, co­ber­to ape­nas pe­los ca­be­los e bar­ba, a in­fe­liz cri­a­tu­ra bai­xou a mais do­lo­ro­sa ani­ma­li­da­de. No seu cur­ral, cu­jo hi­gi­e­ne se tor­nou di­fí­cil, de­ba­tia-se às ve­zes nas ho­ras de cri­se, em que não en­con­tra­va a be­bi­da al­co­ó­li­ca por per­to. Pa­ra acal­má-lo, fal­ta­va-lhe al­gu­ma coi­sa, al­go que o tor­na­ra de­pen­den­te do uso. De­pois de vi­o­len­tas cri­ses, vi­nha o si­lên­cio tris­te e agou­rei­ro, que­bra­do ape­nas pe­las pa­la­vras mei­gas que a ve­lha mãe lhe di­ri­gia de fo­ra, e que fi­ca­vam sem aten­ção e res­pos­ta. E, du­ran­te to­do o tem­po, es­te­ve sem­pre a guar­dar-lhe a por­ta da jau­la, e a dor­mir com a ca­be­ça apoi­a­da nas mãos. Até que um dia, o lou­co viu de olhos pa­ra­dos, um cai­xão ne­gro, no meio da sa­la, co­lo­ca­do so­bre du­as ca­dei­ras, e nun­ca mais lhe apa­re­ceu o vul­to an­gê­li­co à por­ta da pri­são.

Mor­ta a ve­lhi­nha que ve­la­ra a lou­cu­ra do fi­lho des­ven­tu­ra­do, era de se es­pe­rar que os ir­mãos o re­co­lhes­sem ao hos­pi­tal. Quem cu­i­da­ria de­le na ca­sa de­ser­ta? Mas, ao mor­rer a ve­lha mãe lhes pe­diu que não aban­do­nas­sem o ir­mão des­gra­ça­do. Que se re­cor­das­sem do tem­po em que eram pe­que­nos e ban­ca­vam jun­tos, e não o en­tre­gas­sem aos des­cui­dos de mãos alhei­as. Con­ti­nu­as­sem aque­la ca­ri­da­de. E mor­reu con­so­la­da, na cer­te­za de que os fi­lhos lhe aten­de­ri­am as sú­pli­cas. Re­sol­ve­ram os ir­mãos que en­quan­to um tra­ba­lha, o ou­tro vai pa­ra jun­to da jau­la, ou pro­ce­der a lim­pe­za do an­tro em cu­jo can­to o ir­mão lou­co se aco­co­ra des­con­fi­a­do e tris­te. Uma vi­da útil, vol­ta­da to­da ela,a ou­tra inu­ti­li­za­da. Uma fa­mí­lia in­tei­ra des­tru­í­da pe­los de­ve­res da so­li­da­ri­e­da­de do san­gue, pro­va­da na des­gra­ça. Um gran­de dra­ma fi­nal­men­te, cu­jo au­tor se es­con­de, não se sa­be on­de, mas com cer­te­za pre­pa­ran­do ou­tros es­pe­tá­cu­los com ce­nas igua­is, ou mais trá­gi­cas do que es­tas, vi­vi­das e odi­a­das a um só tem­po, um dra­ma cri­a­do e pro­du­zi­do pe­lo  ACI­DEN­TE, fan­ta­si­a­do de fa­ta­li­da­de da vi­da.

 

(Ed­mil­son Al­ber­to, via e-mail)

 

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