Opinião

É preciso reduzir drasticamente a desigualdade social e econômica no Brasil!

diario da manha

O Bra­sil con­ti­nua a ser um dos paí­ses com a pi­or dis­tri­bui­ção de ren­da no mun­do, ape­sar dos sig­ni­fi­ca­ti­vos avan­ços nos úl­ti­mos anos, ini­ci­a­dos com a pro­mul­ga­ção da Cons­ti­tu­i­ção ci­da­dã em 1988, es­ta­bi­li­za­ção da mo­e­da em 1994, se­gui­dos de am­plos pro­gra­mas so­ci­ais e do au­men­to re­al do sa­lá­rio mí­ni­mo. Mas as con­quis­tas po­dem ser per­di­das com o au­men­to da in­fla­ção (ho­je con­tro­la­da, mas a que pre­ço?), pe­la fal­ta de pla­ne­ja­men­to e pe­la má ges­tão pú­bli­ca.  As his­tó­ri­cas rou­ba­lhei­ras que man­cham a ima­gem do Pa­ís, além das gran­des for­tu­nas sub­traí­das, cau­sam imen­sos da­nos pe­lo mau exem­plo da­do pe­lo “an­dar de ci­ma”.

O au­men­to da con­cen­tra­ção de ren­da no Bra­sil e no mun­do é uma re­a­li­da­de que pre­ci­sa ser com­ba­ti­da, pois po­de “im­pe­dir o pro­gres­so hu­ma­no”, se­gun­do He­len Clark, res­pon­sá­vel pe­lo re­la­tó­rio da ONU/Pnud “Hu­ma­ni­da­de di­vi­di­da: con­fron­tan­do a de­si­gual­da­de nos paí­ses em de­sen­vol­vi­men­to”. O do­cu­men­to apon­ta que o 1% dos mais ri­cos são de­ten­to­res de 40% dos bens glo­bais (pa­ra a ONG Ox­fam são mais de 50%), en­quan­to a me­ta­de mais po­bre é do­na de ape­nas 1%.

A fal­ta de me­di­das so­ci­ais es­tru­tu­ran­tes na eco­no­mia e na ges­tão pú­bli­ca faz com que os cor­tes re­a­li­za­dos pe­lo go­ver­no fe­de­ral não mo­di­fi­quem o in­jus­to qua­dro so­ci­al bra­si­lei­ro, an­tes pe­lo con­trá­rio, os mais in­de­fe­sos so­fre­rão mais com os ajus­tes im­ple­men­ta­dos. Na­da a es­pe­rar de uma con­du­ção da eco­no­mia fei­ta por um ban­quei­ro, se­guin­do a re­cei­ta ne­o­li­be­ral. Tem sa­í­da?

Sim, afir­mam os eco­no­mis­tas fo­ra do pen­sa­men­to atu­al, e a mais ime­di­a­ta é cor­ri­gir a in­jus­ta dis­tor­ção na co­bran­ça dos im­pos­tos, pois quem ga­nha até três sa­lá­ri­os mí­ni­mos pa­ga, em mé­dia, 40% de im­pos­tos di­re­tos e in­di­re­tos; e quem ga­nha aci­ma de 30 sa­lá­ri­os ar­ca com 22% de car­ga tri­bu­tá­ria. A dis­tor­ção tem ori­gem na tri­bu­ta­ção pe­lo con­su­mo: o ci­da­dão que ga­nha sa­lá­rio mí­ni­mo, quan­do com­pra uma cai­xa de fós­fo­ros, pa­ga o mes­mo im­pos­to do que ga­nha mui­to mais. O qua­dro po­de ser me­lho­ra­do se fo­rem re­du­zi­dos os im­pos­tos so­bre o con­su­mo de pro­du­tos de pri­mei­ra ne­ces­si­da­de.  com­pen­san­do a per­da de ar­re­ca­da­ção pe­lo au­men­to dos im­pos­tos so­bre o lu­cro, em es­pe­ci­al so­bre apli­ca­ções fi­nan­cei­ras e lu­cros em­pre­sa­ri­ais dis­tri­bu­í­dos aos acio­nis­tas.

Ou­tras pro­pos­tas: au­men­tar as fai­xas do im­pos­to de ren­da e as alí­quo­tas, cu­jo te­to atu­al é de 27,5% (na Ale­ma­nha, Es­pa­nha, Ja­pão, Chi­le, Ca­na­dá, Mé­xi­co e nos Es­ta­dos Uni­dos é su­pe­ri­or a 40%, se­gun­do a OC­DE – Or­ga­ni­za­ção pa­ra Co­o­pe­ra­ção e De­sen­vol­vi­men­to Eco­nô­mi­co), es­pe­ci­al­men­te so­bre ren­das que não se ori­gi­nam do tra­ba­lho; au­men­tar im­pos­tos so­bre he­ran­ça (no Bra­sil é 3,86%; nos Es­ta­dos Uni­dos é 29%, na Fran­ça é 32% e na In­gla­ter­ra, ber­ço do ca­pi­ta­lis­mo, é 40%; no Mé­xi­co, na Ín­dia, na Rús­sia, en­tre ou­tros, é 0%).

Além de me­di­das es­tru­tu­ran­tes na eco­no­mia, é ne­ces­sá­ria uma ges­tão efi­caz de com­ba­te à so­ne­ga­ção que, se­gun­do o Sin­di­ca­to Na­ci­o­nal dos Au­di­to­res Fis­cais da Re­cei­ta Fe­de­ral do Bra­sil che­ga­rá ao va­lor de 500 bi­lhões es­te ano. E co­brar dos 3.854 con­tri­buin­tes que de­vem ao fis­co R$ 427 bi­lhões, que cer­ta­men­te es­tão à es­pe­ra de um per­dão fis­cal, co­mo cos­tu­ma acon­te­cer.

Mas as con­quis­tas so­ci­ais, cul­tu­ra­is e eco­nô­mi­cas de uma na­ção só se­rão de­fi­ni­ti­vas se o po­vo par­ti­ci­par do pro­ces­so co­mo um to­do. Nos­sa de­mo­cra­cia re­pre­sen­ta­ti­va não abre es­pa­ços pa­ra uma mai­or par­ti­ci­pa­ção po­pu­lar, pa­ra uma mai­or par­ti­ci­pa­ção das mu­lhe­res e das mi­no­ri­as no go­ver­no de nos­so Pa­ís. La­men­ta­vel­men­te o sis­te­ma atu­al de elei­ções per­mi­te que a gran­de mai­o­ria de “re­pre­sen­tan­tes do po­vo” se­ja elei­ta gas­tan­do for­tu­nas que, não te­nha­mos dú­vi­das, são in­ves­ti­men­tos em­pre­sa­ri­ais que es­pe­ram re­tor­nos. As elei­ções de 2018 se­rão mais po­bres, mas não mui­to di­fe­ren­te do que his­to­ri­ca­men­te co­nhe­ce­mos: os ri­cos, ou seus pre­pos­tos, do­mi­na­rão o pro­ces­so.

In­sis­ti­mos: a de­mo­cra­cia cor­re sé­rios ris­cos, pe­la des­cren­ça ge­ral da po­pu­la­ção no pro­ces­so atu­al de re­pre­sen­ta­ção par­la­men­tar. E sem in­ves­ti­men­to efe­ti­vo na Edu­ca­ção em to­do Pa­ís, con­ti­nu­a­re­mos com uma mai­o­ria (mais de 70%!!!) de pes­so­as mai­o­res de 15 anos que não con­se­gue ler, in­ter­pre­tar  e mui­to me­nos es­cre­ver, um pa­rá­gra­fo de um tex­to mais com­ple­xo. O aces­so a bens de con­su­mo pa­tro­ci­na­do pe­lo au­men­to de ren­da re­gis­tra­do nas úl­ti­mas dé­ca­das, a me­lho­ria no sa­lá­rio mí­ni­mo, não são con­quis­tas sus­ten­tá­veis.

As es­pe­ran­ças que se abrem com ações de com­ba­te a cor­rup­ção, exa­ge­ros à par­te, são des­fei­tas com as ati­tu­des que ve­mos no Con­gres­so Na­ci­o­nal, no Ju­di­ci­á­rio e no Exe­cu­ti­vo. Mas os go­ver­nos pa­re­cem não se im­por­tar com a opi­ni­ão da imen­sa mai­o­ria da po­pu­la­ção que é ho­nes­ta e tra­ba­lha­do­ra. Até quan­do?

 

(Mar­co An­tô­nio Sperb Lei­te, pro­fes­sor apo­sen­ta­do do Ins­ti­tu­to de Fí­si­ca da UFG)

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