Opinião

Bom dia, Brasil

diario da manha
‘Quase cinco décadas depois, tenho vontade de recomeçar’(Créditos: Alberto Villas)

O dia em que vol­tei a pi­sar em ter­ras bra­si­lei­ras, de­pois de se­te in­ver­nos, fa­zia 40 graus na­que­la ter­ça-fei­ra de car­na­val. Não me es­que­ço do pri­mei­ro gua­ra­ná, ain­da no ae­ro­por­to, de­pois de tan­tos anos be­ben­do Oran­gi­na. Co­nhe­ci de­zes­seis so­bri­nhos no mes­mo dia. To­dos loi­ri­nhos, era in­ca­paz de sa­ber quem era quem.

Os sus­tos fo­ram mui­tos. No po­rão da ca­sa dos meus pa­is, me equi­li­brei en­tre li­vros e re­vis­tas es­pa­lha­dos pe­lo chão, em­po­ei­ra­dos, guar­da­dos ali a se­te cha­ves por mi­nha mãe. Des­co­bri que a co­le­ção da Rol­ling Sto­ne es­ta­va in­tac­ta, ape­nas um nú­me­ro com­ple­ta­men­te ama­re­la­do, se­gun­do ela, xi­xi da Pink, nos­sa pe­qui­nês que um dia en­trou ali sem nin­guém ver.

Sus­to com os mo­to­ris­tas que avan­ça­vam seus au­to­mó­veis em ci­ma dos pe­des­tres, as­sim que o si­nal abria. Sus­to com as pes­so­as que não cum­pri­men­ta­vam a co­bra­do­ra no ôni­bus, o por­tei­ro do pré­dio, a ven­de­do­ra da mer­ce­a­ria. Che­ga­vam e di­zi­am sim­ples­men­te: Seis pão­zi­nho!

As ale­gri­as fo­ram mui­tas tam­bém. Ou­vir Ca­ju­í­na pe­la pri­mei­ra vez e tra­zer da ban­ca uma re­vis­ta no­vi­nha em fo­lha, di­fe­ren­te da­que­las que che­ga­vam es­tro­pia­das na Rue de la Ro­quet­te, de­pois de se­ma­nas e se­ma­nas nos na­vi­os. Ale­gria de mor­der uma ca­ram­bo­la, de ti­rar com a co­lher­zi­nha o mi­o­lo da fru­ta do con­de, de es­po­car na bo­ca uma ja­bu­ti­ca­ba, coi­sa que não fa­zia há qua­se uma dé­ca­da.

Os pri­mei­ros di­as fo­ram uma mis­tu­ra de prin­cí­pio do pra­zer com ca­ir a fi­cha, até me acos­tu­mar. Acor­da­va ou­vin­do o ba­ru­lho da água sa­in­do da man­guei­ra, da vi­zi­nha la­van­do o quin­tal e fa­lan­do por­tu­guês. Es­tra­nha­va is­so. En­tra­va no ar­ma­zém, cum­pri­men­ta­va a to­dos dan­do bom dia, co­mo se es­ti­ves­se dan­do bon­jour e qua­se nin­guém res­pon­dia.

Ain­da na ca­sa dos meus pa­is, gos­ta­va de acor­dar de ma­nhã e pe­gar, em ci­ma do ca­pa­cho, O Glo­bo e o Es­ta­do de Mi­nas. Os jor­nais ti­nham chei­ro, eram em pre­to e bran­co e man­cha­vam as mãos. Gos­ta­va de ou­vir os pas­sa­ri­nhos nas ár­vo­res do jar­dim e ver os ca­na­ri­nhos bel­gas nas gai­o­las, sal­ti­tan­do, co­men­do se­men­tes de ji­ló e can­tan­do sem pa­rar.

Fo­ram pou­cos di­as em Be­lo Ho­ri­zon­te, até que pe­guei um ôni­bus com des­ti­no a São Pau­lo, pre­ci­sa­va tra­ba­lhar, dar lei­te aos dois pe­que­nos fran­ce­si­nhos que trou­xe de lá.

No meio do ca­mi­nho, ou­tros pra­ze­res. O re­en­con­tro com o pão de quei­jo, com o Gua­ra­pan e com a pa­ço­qui­nha Amor nos bo­te­cos que o ôni­bus fa­zia su­as pa­ra­das. Ou­via coi­sas que ha­via me es­que­ci­do, co­mo o mo­to­ris­ta es­ta­cio­nar, abrir a por­ti­nha e di­zer: Quin­ze mi­nu­tos!

Tu­do era no­vi­da­de, de no­vo, pa­ra mim. Pro­cu­ra­va pe­la Mi­rin­da Mo­ran­go e já não ha­via mais. Co­mo já não ha­via mais o io­gur­te Itam­bé em vi­dri­nho, o Su­pra Su­mo em pa­co­ti­nhos de alu­mí­nio, o drops Dul­co­ra de ce­va­da, nem o su­co Yuki em la­ti­nha. Mas a ba­la Chi­ta ain­da ti­nha, mas­ti­guei umas, qua­se che­gan­do em São Pau­lo.

Vol­tei de lon­ge nas asas da aber­tu­ra, na es­pe­ran­ça de que a de­mo­cra­cia es­ta­va em obras. En­con­trei mui­tas ru­í­nas, pré­di­os aban­do­na­dos que pre­ci­sa­vam de di­na­mi­tes pa­ra se­rem des­tru­í­dos e cons­tru­í­dos no­va­men­te. E foi as­sim.

Veio a aber­tu­ra, o Os­mar San­tos no pa­lan­que, ali tam­bém Le­o­nel Bri­zo­la, Lu­iz Iná­cio, Ulysses Gui­ma­rã­es, Ma­rio Co­vas, Fer­nan­do Hen­ri­que, to­da es­sa tur­ma. A ca­mi­se­ta com a fra­se ho­je eu não es­tou bom, a es­tre­li­nha de alu­mí­nio no pei­to e uma can­ção que di­zia as­sim: Pas­sa o tem­po e tan­ta gen­te a tra­ba­lhar/De re­pen­te es­sa cla­re­za pra vo­tar/Quem sem­pre foi sin­ce­ro e con­fia/Sem me­do de ser fe­liz/Que­ro ver vo­cê che­gar.

Pas­sei mui­to ca­lor e al­guns ve­xa­mes, no prin­cí­pio. Per­gun­tei, um dia, on­de an­da­va o es­ti­lis­ta De­ner e me res­pon­de­ram que ha­via mor­ri­do há anos. Per­gun­tei pe­lo Du­du da Lo­te­ca e me dis­se­ram que a Lo­te­ca não era mais a Lo­te­ca que era.

Fui fi­can­do ve­lho. Vi Col­lor ven­cer Lu­la de­pois de um de­ba­te edi­ta­do pe­la TV Glo­bo, vi o Pla­no Re­al ele­ger Fer­nan­do Hen­ri­que, vi o po­vo sem me­do de ser fe­liz ele­ger e re­e­le­ger Lu­la, vi Dil­ma su­bir e ca­ir, vi o gol­pe. Mas 2018 ia che­gar, ía­mos nos li­vrar de um vam­pi­ro e vol­tar a ser fe­liz. E o que ve­jo pe­la fren­te, na te­le­vi­são, é tem­po ins­tá­vel, su­jei­to a ra­ja­das e chu­vas no ca­ir da tar­de de do­min­go.

Qua­se cin­co dé­ca­das de­pois, te­nho von­ta­de de re­co­me­çar. Ou­vir Ca­ju­í­na num ve­lho dis­co de vi­nil, afi­nal, exis­tir­mos a que se­rá que se des­ti­na? Mas tro­co o dis­co. Vou lá na le­tra L da mi­nha co­le­ção em or­dem al­fa­bé­ti­ca e ti­ro um dis­co de Lu­iz Me­lo­dia, que co­me­ça com uma can­ção de Pa­pa Kid que diz as­sim: Ao som da ma­ra­ca, do tam­bor, do bam­bu, eu vou pa­ra Ilha de Cu­ba, eu vou pra Ilha de Cu­ba.

 

(Al­ber­to Vil­las Jor­na­lis­tas e es­cri­tor, aca­ba de lan­çar o e-bo­ok “Mil Tons, o meu Mil­lôr”, pe­la edi­to­ra e-ga­la­xia)

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