Opinião

O STF legisla demais

diario da manha

Já se pas­sa­ram mais de dois anos des­de a ses­são em Ple­ná­rio na qual a ex-pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca, Dil­ma Rous­seff, so­freu im­pe­achment. Na­que­la oca­si­ão, o en­tão pre­si­den­te do Su­pre­mo Tri­bu­nal Fe­de­ral (STF), Ri­car­do Lewan­dowski, de­ci­diu que man­te­ria os di­rei­tos po­lí­ti­cos de­la, o que é pro­i­bi­do pe­la Cons­ti­tu­i­ção Fe­de­ral.

Se o im­pe­achment ti­ves­se se­gui­do os ri­tos nor­mais, ho­je Dil­ma es­ta­ria ine­le­gí­vel por oi­to anos, mas a re­a­li­da­de é di­fe­ren­te. Com seus di­rei­tos po­lí­ti­cos li­be­ra­dos, ela con­cor­reu ao Se­na­do pe­lo es­ta­do de Mi­nas Ge­ra­is, ocu­pan­do a pri­mei­ra co­lo­ca­ção nas pes­qui­sas de in­ten­ção. Per­deu.

Na­que­la da­ta, o STF ras­gou a Cons­ti­tu­i­ção, in­vés de pro­te­gê-la, o que é sua fun­ção.

O im­pe­achment de Dil­ma Rous­seff co­lo­cou a atu­a­ção do Ju­di­ci­á­rio em de­ba­te. Des­de en­tão é mui­to co­mum ver os mi­nis­tros que ho­je com­põ­em um dos 11 pos­tos, en­vol­vi­dos em po­lê­mi­cas. Eles são prin­ci­pal­men­te acu­sa­dos de le­gis­lar, fun­ção que ca­be, co­mo bem diz o no­me, ao Le­gis­la­ti­vo, es­te for­ma­do por de­pu­ta­dos e se­na­do­res.

Uma das crí­ti­cas mais re­cen­tes ao STF diz res­pei­to à des­cri­mi­na­li­za­ção do abor­to. Há al­guns di­as, a mi­nis­tra Ro­sa We­ber ou­viu opi­ni­ões so­bre o te­ma du­ran­te au­diên­cia pú­bli­ca. Co­in­ci­den­te­men­te, o abor­to vi­nha sen­do dis­cu­ti­do na Ar­gen­ti­na no mes­mo pe­rí­o­do.

Per­ce­ba a di­fe­ren­ça: no pa­ís vi­zi­nho, o te­ma era pau­ta do Le­gis­la­ti­vo, lu­gar cor­re­to pa­ra es­se ti­po de dis­cus­são. O Con­gres­so ar­gen­ti­no che­gou a apro­var, mas o Se­na­do re­cu­sou por 38 vo­tos con­tra 31 a fa­vor. No Bra­sil, a pau­ta es­tá no Ju­di­ci­á­rio, que é er­ra­do.

Além de le­gis­lar, o STF to­ma de­ci­sões que dei­xam a po­pu­la­ção com a ‘pul­ga atrás da ore­lha’, prin­ci­pal­men­te no que diz res­pei­to à La­va-Ja­to. Já são vá­rios os ca­sos de in­ves­ti­ga­dos que são re­ti­ra­dos de Cu­ri­ti­ba e en­vi­a­dos pa­ra a Jus­ti­ça Elei­to­ral, por exem­plo, on­de ra­ra­men­te são pu­ni­dos.

Ou­tro mo­men­to re­cen­te da his­tó­ria do STF que me­re­ce aten­ção é a re­dis­cus­são so­bre pri­são em se­gun­da ins­tân­cia pou­co an­tes da imi­nen­te pri­são do ex-pre­si­den­te Lu­iz Iná­cio Lu­la da Sil­va.

Is­so ge­rou des­con­fi­an­ça da po­pu­la­ção, que per­ce­bia a pos­si­bi­li­da­de de be­ne­fi­ci­ar não ape­nas Lu­la, mas to­dos os po­lí­ti­cos já in­ves­ti­ga­dos pe­la La­va-Ja­to e tam­bém aque­les que já fo­ram pre­sos du­ran­te a Ope­ra­ção. Fe­liz­men­te, mes­mo que em pla­car aper­ta­do, a pri­são em se­gun­da ins­tân­cia se man­te­ve.

Ao lon­go da his­tó­ria, o STF nun­ca te­ve a mes­ma po­pu­la­ri­da­de que tem ho­je, se­ja es­sa ima­gem ne­ga­ti­va ou po­si­ti­va. Há ca­so de mi­nis­tros que são en­con­tra­dos na rua e so­frem ofen­sas ver­bais de pes­so­as co­muns. É um ti­po de ce­na que eu não me re­cor­do de ter vis­to no pas­sa­do. Ver­da­de se­ja di­ta, há al­guns anos pou­cos sa­bi­am quem eram os mi­nis­tros que do STF, quan­to mais seus ros­tos.

O STF pre­ci­sa se ater às su­as fun­ções. O Su­pre­mo pre­ci­sa ser mai­or que seus in­te­gran­tes e a Cons­ti­tu­i­ção de­ve ser se­gui­da e pro­te­gi­da.

 

(An­to­nio Tuc­cí­lio, pre­si­den­te da Con­fe­de­ra­ção Na­ci­o­nal dos Ser­vi­do­res Pú­bli­cos – CNSP)

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